08/05/2021

Letras em pílulas

 



Sem saída


Era tão raivoso que acabou recebendo uma antirrábica.


*****


No restaurante


Opções de cardápio: mastigado ou triturado?


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Autorretratos


Cara de palhaço ou cara de paisagem


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Quem quer saber


Quem de nós vai viver, qual de vós vai chorar, quantos restarão?

04/05/2021

Dois contos de Robert Walser

 A arvorezinha



Eu a vejo mesmo quando passo por ela sem prestar atenção. Ela não foge, fica parada, quietinha; não é capaz de pensar nem de querer coisa nenhuma; não, ela só consegue crescer, estar no espaço e ter folhas que ninguém toca, que as pessoas apenas contemplam. A sombra que elas dão, os ocupados passam correndo.                                                      Nunca te dei nada? Mas ela não precisa de felicidade. Talvez se alegre quando a acham bonita. Vocês acreditam nisso? Que sagradas inocências expressa. Não sabe de nada, só está ali para me dar prazer.                   Se digo ao bom algo que não lhe é dado ouvir, por que não teria sentido esse meu amor? Ela nunca me vê sorrir em resposta ao cumprimento que me dirige sem o saber. Morrer aos pés desse ser, como aquela figura que Courbet pintou, despedindo-se para sempre!                                  Decerto seguirei vivendo, mas, e de você, o que será?                      



***


A Coruja



No muro em ruínas, a coruja disse a si mesma: Ó existência terrível! Qualquer um se horrorizaria, mas eu tenho paciência, baixo os olhos e fico assim, de cócoras. Tudo em mim ou próximo a mim descai em véus cinzentos, mas também sobre minha cabeça brilham as estrelas, e saber disso me fortalece. Espessa plumagem me reveste. Durante o dia, durmo; à noite, fico acordada. Não preciso de espelho para descobrir que aspecto tenho; meu sentimento me diz. É-me fácil imaginar meu rosto estranho.                                                                              Chamam-me de feia. Se soubessem como minha alma irradia risonhas sensações, não se assustariam comigo. Mas não veem dentro de mim, param no corpo, detêm-se nas vestes. Um dia, fui jovem e bonita, eu poderia dizer, mas isso soa como se tivesse saudade de alguma coisa, e não tenho. Aquela que praticava ser grande suporta com tranquilidade o curso e a mudança do tempo, encontra-se em todo e qualquer presente. Dizem-me: "Filosofia". Mas a morte precoce anula a posterior. A morte não é novidade nenhuma para a coruja; ela já a conhece. Parece que sou uma erudita, que uso óculos e que alguém se interessa tanto por mim que vez por outra vem me visitar. Acha-me harmoniosa. Diz que sou alguém que não o decepciona. É certo que também nunca o enfeiticei. Estuda-me em profundidade, acaricia-me as asas, de vez em quando me traz alguma coisa da confeitaria, com o que acredita proporcionar uma alegria à mais séria das mulheres, e tem razão. Estou lendo um poeta que, por sua delicadeza, se presta a ser digerido por uma coruja. Há algo de doce no seu modo de ser, algo de velado, de indefinido; em suma, é-me apropriado. No passado fui graciosa, ria, gracejava pelo azul do dia afora, virei a cabeça de vários jovens cavalheiros. Agora é diferente, calço sapatos furados, estou velha e fico aqui sentada, quieta.


Robert Walser nasceu em Biel (Suíça), em 1878 e faleceu em 1956 durante uma caminhada na neve. Foi achado por crianças. Publicou três romances, vários textos de prosas curtas, além de publicações em jornais e revistas. São de sua autoria Os irmãos Tanner, O ajudante, e Jakob von Gunten, considerado sua obra-prima. 

24/04/2021

Se...

 




Eu poderia enfeitar-me toda de mentiras, se fosse romântica. Escancarar minhas portas internas, abrir todas as janelas do meu sótão, se tivesse uma casa de alicerces sólidos o suficiente para enfrentar vendavais e tempestades. Porém, minha morada não tem teto, é feita de pele transparente onde as palavras voam por asfixia indo pousar no asfalto das ruas mal iluminadas, nas calçadas ocupadas por carros e corpos ao relento, sob olhares indiferentes, apressados e ensimesmados.               Eu poderia rir, e até zombar da desgraça alheia, se o alheio não estivesse entranhado na pele do meu ser; poderia também, cuspir no prato que como, se não soubesse que a porcelana só é bela porque é um pó concentrado, enquanto eu serei apenas poeira um dia...

18/04/2021

Mariposa

 


Fui ali mas não voltei. Quando cheguei lá encontrei-o debaixo de uma mesa. Ziguezagueava, zumbia feito louco em torno da luz até arder em  em chamas!


13/04/2021

Partida





Vi demais. A visão se revia pelos ares.

Tive demais. Sons da cidade, à tarde, e ao sol, e sempre.

Soube demais. As paradas da vida.

 - Ó sons e Visões.

Partida entre afetos e ruídos novos!


Arthur Rimbaud, 1854-1891


***


No alto

 do viaduto o louco colava pedacinhos de céu

na camisa de força

destruindo o horizonte a marteladas

a Morte

é

um refrão no crânio sem janelas.


*

O arco-íris

é o colar do feiticeiro

que apaga o dia

com a mão direita

& inaugura a noite

com a mão esquerda.


Roberto Piva - São Paulo, 1937-2010

04/04/2021

E no entanto...

 


Vivemos à sombra de uma sombra que dá saltos aleatórios, mas persistentes, a zombar de nossas vidas, do nosso desassossego. Do alto, seu olho ciclópico observa, e tenta controlar todos os nossos passos e pensamentos. Embalde. O mundo gira à revelia das sombras, esses espectros fantasmagóricos de um passado de triste memória.

28/03/2021

Dos filhos deste solo




No rés do chão, sob nossos pés habitam seres invisíveis e destrutíveis: os vermes. São a representação e a vociferação da linguagem inferior; o subproduto humano. Macaqueiam sem ser macaco, papagueiam sem ser papagaio. Verme é o nome comumente atribuído a todos os animais invertebrados, com exceção dos insetos. Na espécie humana, o verme é uma pessoa infame e desprezível que habita entre nós de maneira invisível, escorregadia e disfarçada. Circunavega mares, arcos e charcos pantanosos do viver. E quando cai a noite iluminada por uma multidão de estrelas cadentes trazidas pelo vento, nossos olhos, ainda que embaçados pela poeira, juntam-se a ela para sair da escuridão

21/03/2021

Ao Mar




mar tenebroso e sereno

meu coração já não suporta

tamanha dor;

quando contigo sonhava

via castelos e mistérios

hoje vislumbro silêncios

e solidão


Agita-nos!

nossos olhos inundados

cristais de pedras na boca

rochedos de sentimentos

desmoronam

face a tua impetuosidade:

quebra-os

tritura-os

para que voltemos a ver-te

um mar sereno, e melodioso;

banha-nos salga-nos

e nos renova outra vez!

13/03/2021

Das cinzas




Na penúltima hora do último dia de nossas vidas será encontrado um saco cheio de palavras desusadas, deterioradas, misturadas com alguns embriões sobre os ombros de um anônimo caboclo sertanejo: aquele que jamais teve voz nem vez; de olhos arregalados de fome percorre um caminho sob o peso do silêncio, temendo perder sua identidade. A chuva, os rios e peixes, a densa floresta, berço das plantações de feijão, arroz, milho, tudo em vias de extinção. Ele e os seus, tragados e sufocados por esse imenso saco de pandora.                                               Lá fora passa uma noite morna e lenta, sufocante e sem estrelas, enquanto pelo meu corpo escorre um suor quente e salgado; do sangue nas veias por lâminas cortado, transbordam rios de palavras repetidas ad eternum. Acaricio meus cabelos numa tentativa de ativar meus neurônios; não há qualquer resquício de brisa, o vento foi soprar na boca do vulcão, que enfurecido, engole, devora todas as palavras até transformá-las em cinza, para que renasçam outra vez.

08/03/2021

Um fio de conto

 




Caminhando pelas ruas da linguagem deu-se conta de que embora andasse por elas desde muito cedo, pareciam-lhe estranhas, não conseguia decifrá-las; às vezes passava dias num silêncio sem fim; voz e corpo desencontrados coabitando as mesmas palavras, partilhando o mesmo alfabeto, os mesmos sonhos atravessados na garganta.                        Tentava entender a linguagem dos pássaros, - onde estaria a sua? Por que balbuciava sempre a mesma coisa? As ruas da linguagem, dizia para si, são amplas como as de uma avenida, costumam ter mão dupla. Ao girar a cabeça percebeu que estava numa encruzilhada que se bifurcava em várias ruelas estreitas, de mão única. E aquela mão tinha dedos longos como galhos secos, sem folhas: era um livro de muitas estórias, de páginas avulsas espalhadas pelo chão. Soprava um vento forte, as folhas voavam para o alto, em todas as direções, como se quisessem alcançar os pássaros. E voavam as páginas, as palavras, as estórias, os pássaros e os sonhos contidos naquela mão que a conduzia para um labirinto.

03/03/2021

Prometeu *

 




Sobre Prometeu dão notícia quatro lendas:                                                Segundo a primeira, ele foi acorrentado no Cáucaso porque havia traído os deuses aos homens, e os deuses remeteram águias que devoravam seu fígado que crescia sem parar.                                                                     De acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas até se confundir com elas.                                                   Segundo a terceira, no decorrer dos milênios sua traição foi esquecida, os deuses se esqueceram, as águias se esqueceram, ele próprio se esqueceu.                                                                                        Segundo a quarta, todos se cansaram do que havia se tornado sem fundamento. Os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida, cansada, fechou-se.                                                                               Restou a cadeia inexplicável de rochas. A lenda tenta explicar o inexplicável. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa terminar de novo no que não tem explicação.


Franz Kafka, Praga(Tchecoslováquia) 1883-1924.



* Segundo a mitologia, Prometeu, que em grego significa premeditação ou antevisão, era um dos titãs amigo de Zeus, o rei do Olimpo. Foi responsável pelo roubo do fogo que dava aos mortais a possibilidade de tornarem-se tão poderosos quanto os deuses. Sentindo-se traído,(pois o fogo pertencia exclusivamente aos deuses)Zeus o condenou a ficar amarrado a uma rocha por trinta mil anos, enquanto seu fígado, que se regenerava todos os dias, era picado por uma águia. 

23/02/2021

Onde estamos?

 




Estávamos no terraço de um lugar qualquer.                                                    

 - Agora vamos para Roma.

E ela:

- Onde fica Roma?

- Em Roma, ora!

Você entendeu alguma coisa, leitor? Nem eu, foi somente um sonho daqueles em que a gente acorda com o som de nossa própria voz e nos perguntamos: "onde estou?", só então percebemos que estamos deslocadas(os), à margem, numa terra estranha em nossa própria casa. E que não foi um sonho. É um pesadelo!

15/02/2021

Monólogo




Há quem diga que as paredes têm ouvidos; que quem não se manifesta se esconde ou concorda com o que está posto. Também dizem que falar sozinho é sinal de loucura. Tanta coisa é dita por esse desmundo...             Nesses tempos de pandemia e pandemônios muitos castelos (de areia) estão desmoronando. Se estás a sós entre quatro paredes, o que te resta senão conversar com elas? Se te escutam não sei, pois nada dizem - ecoam em teus ouvidos repetidas vezes para, quem sabe, encontrares uma resposta por esforço próprio. O silêncio pode, num primeiro momento, ser assustador. Nem sempre calamos por vontade deliberada, por opção; calamos para melhor refletir, ouvir a si mesmo ou a outrem. E, quando por motivos alheios à nossa vontade, dialogamos a sós, temos a rara oportunidade de trocar ideias com nosso múltiplos eus, de perceber como somos contraditórios e cheios de imperfeições. Nossos eus podem ser comparados aos livros que lemos; estabelecemos uma ampla conversação com seus autores, seus personagens, sem interagir vivamente com eles. E como podemos aprender... Tenho uma infinita legião de amigos com quem posso monologar à vontade!  

08/02/2021

Um dia mortos


                              Um dia mortos, gastos voltaremos

 a viver livres como os animais. 

E mesmo tão cansados floriremos

 irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços

 dos gestos agitados, irreais

 e há-de voltar aos nossos membros lassos

 a leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar

 através do mistério que se embala

 no verde dos pinhais, na voz do mar.

E em nós germinará a sua fala.

                            




Os poetas


Solitários

pilares dos céus pesados,

poetas nus em sangue, ó destroçados

anunciadores do mundo

que a presença das coisas devastou.

Gesto, de forma em forma vagabundo

que nunca num destino se acalmou.





Pirata


Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

tigres e ursos que amarrei aos remos,

e o meu desprezo reina sobre o mar.


Gosto de uivar no vento com os mastros

e de me abrir na brisa com as velas,

e há momentos que são quase esquecimento

numa doçura imensa de regresso.


A minha pátria é onde o vento passa,

a minha amada é onde os roseirais dão flor,

o meu desejo é o rastro que ficou das aves,

e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Porto(Portugal) 1919-2004

29/01/2021

Metamorfoses




E se o rio que banha tua aldeia tivesse suas águas transformadas em leitosa lama condensada e não pudesses mais beber, comer, banhar-se, nadar, navegar em seu leito, o que farias?                                                                          E se de repentemente acordasses um dia transformado num jacaré, sem poder movimentar-se para capturar uma mosca sequer para tua sobrevivência? Implorarias a uma ema para que ela te desse uma bicada? A espécie humana sempre se considerou superior às  outras. Será que é por isso que tem medo de ser transformada num réptil que se arrasta para obter seu alimento? O medo é um sentimento capaz de subjugar qualquer ser vivo. Talvez seja por isso que hoje se vê tantos sabichões se arrastando pelo palácio em busca de umas migalhas de poder, seu alimento preferido.                                                              E tu, leitor, tens mais medo do que ou do quem, hein?  

23/01/2021

Às avessas

 



Retalhei minhas mãos, virei-as pelo avesso; troquei a posição dos pés, mudei o rumo do meu caminho. A cabeça deu um giro de trezentos e sessenta graus, - passei a ver em minúcias coisas que até então não percebia: buracos de fechaduras, cantos de paredes onde aranhas se escondem para tecer seus fios invisíveis e pegajosos para atrair suas presas; escorpiões misturados com gêneros de primeiras necessidades. Enfim, passei a ter uma visão tridimensional das coisas e das pessoas que me rondam e/ou me rodeiam.                                                              O mundo é grande, mas minha aldeia ainda é pequena; e quanto menor, mínimo é seu universo, ínfimas serão suas possibilidades de raciocínio, de perceber as múltiplas facetas de seu próprio ser. Em situações adversas tudo parece girar ao contrário, mas quando isso ocorre temos a oportunidade de ver o que antes nos parecia imutável.

17/01/2021

Mundo, mundo!?



 


Mundo, mundo mudo, sem fronteiras, sem eira nem beira; povoado de criaturas, como se donas fossem de ti. Enquanto permaneces dormente, elas ressurgem furibundas, devastando florestas, engolindo vidas em ondas gigantescas e vorazes. Enquanto te iludes com aglomerações incomunicáveis em busca de prazeres fugazes e falsa liberdade, tais criaturas invisíveis tratam cuidadosamente do teu extermínio. Fora da bolha em que tentas viver, milhares de pessoas estão morrendo asfixiadas por falta de oxigênio justamente naquela porção de terra que é considerada o pulmão do planeta! Gritos e sussurros saídos dos interstícios de seres em agonia ecoam pelo universo num esforço sobrehumano pela vida. Não te iludas, mundo, porque eles se propagarão como o som em fúria através dos tempos, deixando marcas e crateras profundas de espanto e indignação.

10/01/2021

Desassossego





Ver a linha da vida desmanchar-se nas mãos do tempo sem saber quem é Dona Felicidade, aquela que engana a todos com seus gestos gastos e dissimulados...                                                                                       - Antes de entrar, dispa os pés, tantos micróbios: o nariz, a boca, os ouvidos, todos desembocam no mesmo labirinto das sete portas para desaguar nas vísceras recheadas de trilhões de bactérias que disputam com os neurônios o tempo de validade de todos nós. Reina um silêncio    ensurdecedor; todos se foram apressados, em busca de sabe-se lá o quê. Carregam, sem saber, a linha que costura o tempo. E o tempo é o responsável por torná-la a cada dia mais tênue, quase transparente, mas cheia de emaranhados nós, impossível desmanchá-los. Tentam ignorá-la, talvez por isso a pressa, esse desejo desesperado de recuperar o tempo perdido: voltas e mais voltas, vaivéns intermináveis. O novelo torna-se mais e mais robusto e disforme; a linha do tempo vai encurtando, o desejo e a curiosidade diminuindo, e o desespero aumentando...                                                          

Salve-se quem puder! 

03/01/2021

Patacoadas

Gralhas



 O pato pactua com outros patos (com ou sem penas), suas patacoadas, que não existiriam sem as gralhas. São elas que ecoam pelo mar as dissonâncias do pato. Enquanto isso, a pata choca em seu ninho ovos de serpentes de mil e uma cabeças: de corvos, carcarás e gaviões.