24/07/2021

Fantasmagoria




Voou, voou, pluft! Não era um fantasminha, era uma fantasmagoria. Um bloco de concreto, e na mão uma pena molhada de sangue; e a cada movimento um corte, uma hemorragia de vidas ceifadas. Leviatã?              Uma sociedade mergulhada no medo da morte, um povo que abre mão de sua liberdade em prol de uma falsa segurança.

18/07/2021

Vestida de Noite



Ana Hatherly



A palavra sempre vem vestida de Noite sem estrelas. Tem seu corpo envolto numa capa tosca na forma, que de tão fina se desmancha nos poros azuis do infinito. A mãe do verbo vem perdendo seus significados nos dicionários; as regras gramaticais caíram da árvore sobre o solo do abandono, diante da banalidade da vida: corpo, folhas e frutos apodrecem nos beirais das ruas entulhadas de carros, de lixo. Sob olhares indiferentes, passos apressados para o vazio.                            O saber transformou-se numa caixa preta?

12/07/2021

Troca-troca



Troquei as máquinas de lavar roupas e louças por um triturador de ervas daninhas. Não foi uma operação muito fácil de realizar, em decorrência das semelhanças entre os entes envolvidos: trigo-falso, discordantes, psicopatas, inseguros, repulsivos, odiosos, execráveis, falsos moralistas, ladrões, fundamentalistas, fanáticos religiosos, estavam todos juntos e misturados. Mesmo assim, resolvi correr o risco; estão agora em processo de centrifugação; vamos ver no que vai dar. Não me surpreenderei com o lixo e a lama que será expelida pelo cano da máquina. Quem sabe ainda restará um rebotalho de esperança...(nem seja!)

02/07/2021

Reflexões

 




Uma pétala uma pata uma porta: o ferro o ferreiro a ferramenta e a fechadura; o dia o sol a luz o pensamento e a razão; a noite a escuridão o sentimento e a reflexão. Um desencontro entre duas ou mais pessoas: solidão. A queda do muro que te protege apaga tua memória, impede que refaças o caminho de volta. Tijolos amontoados a céu aberto formam um bloco de concreto em teu peito. A casa caiu, o chão se abriu para a boca de uma onça, e muitos correm para ela acreditando ser o paraíso. A mão desobedece, a fenda difunde-se - sangramento das veias  na orla do mar; suas ondulações dançam em sobressaltos, uma pororoca de pensamentos, de ideias que ora se contrapõem, ora se unem. Teu olho burila tua consciência: visões que transbordam num piscar de olhos o nascimento de pequenas flores selvagens.                                          A casa caiu e já não sabes por onde recomeçar. 

Quem és tu?

25/06/2021

Ramargens

 




Brotos que se desprendem das mãos escapam pelos dedos, desmembrando-se em galhos; formam ramos de palavras entrelaçadas de uma árvore quase esquecida. Páginas amarelecidas pela voragem do tempo, folhas secas entre palavras enredadas em longos talos a exibirem espinhos pontiagudos; reproduzem-se em direções opostas. Seu tronco largo e profundo possui raízes que se bifurcam pelo interior da terra; privadas da luz do sol, crescem desordenadamente, formando verdadeiros hieróglifos incompreensíveis, impenetráveis: uma teia de sombras, um tapete transparente, quase invisível. Imagens caleidoscópicas que ofuscam os olhos diante de tanta clareza.                                        A àrvore-Mãe, majestosa e soberana um dia, está isolada de seus filhos; desgarrados de suas origens, tornaram-se vulneráveis e vítimas de aventureiros gananciosos, predadores por excelência. Assim, também as mãos já não conseguem controlar o nascimento dos brotos de palavras: desordenadas e rebeldes diante de tantas ervas daninhas, transformaram-se em ramos, à margem...

17/06/2021

Atalho



Ao passar por uma transversal de palavras escolheu um atalho para alinhar alguns vocábulos de asas caídas. Estavam bastante machucados, cheios de hematomas, devido a uma discussão que tiveram com um grupo de expressões vulgares. Após alojá-los convenientemente num caderno, arrancou-lhes as penas ensanguentadas, envolveu-os com uma fina camada de vocativo carinho, para, em seguida, derramar sobre eles um balde de adjetivos demonstrativos, afim de protegê-los da vulgaridade de certos compêndios virtuais tão em voga nas redes "sociais". 

08/06/2021

Criaturas mínimas



Subiu o morro como quem não quer nada. Queria arrebentar a cara do Sol, que andava de caso com a Lua em plena luz do dia! Um meteoro caiu sobre a face da Terra estilhaçando as vidraças do planeta. Foram cacos por todos os lados; bocas foram fechadas, línguas arrancadas, corações despedaçados.                                                                                    Quando olhou lá do alto, percebeu a enorme pequenez da cidade, a miniaturização das criaturas. Uma densa névoa atravessou os  seus olhos, não viu mais nada...! 

03/06/2021

Da incompletude

 



Todos sabemos que a nossa época é profundamente

bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao

máximo de civilização. 

Antonio Cândido em O direito à Literatura


Com a cara achatada nos polos e dilatada no equador, arredondo os dias para não cair no planisfério dos obtusos; os olhos tentam ampliar cada vez mais sua visão de mundo, perscrutando a diversidade de ângulos que a vida oferece a este planeta. Tenho pensado no como ocorrem as conexões sinápticas do cérebro com o ambiente que nos rodeia. Por que existem alguns seres que são totalmente destituídos de cérebro, incapazes de raciocinar, de refletir sobre qualquer coisa ou situação?      A diversidade planetária é infinita. Por exemplo, o parasita é um organismo(ou indivíduo), que se nutre do sangue ou da seiva de outro ser; é aquele que vive às custas dos outros; a ameba, é um protozoário unicelular, sem cérebro, e que, não tendo capacidade para produzir seu sustento, alimenta-se de seres vivos. Nas sociedades constituídas de seres humanos supostamente pensantes, podemos também encontrar criaturas completamente desprovidas de cérebros. Um bom exemplo disso, é o psicopata, indivíduo perverso, que sofre de distúrbios psíquicos que afetam sua forma de interagir socialmente. Seu comportamento é irregular e antissocial; em sua aparência física, apresenta as mesmas características dos outros, mas em suas atitudes atuam como os vírus, agentes infecciosos, acelulares; invisíveis a olho nu, são capazes de destruir toda a colônia de células saudáveis. Sob uma aparência "normal", o psicopata é capaz de conduzir toda uma sociedade à morte, ao caos social. 

31/05/2021

Machado de Assis e as vacinas




Crônica, 9 de dezembro de 1894

“Tudo tende à vacina. Depois da varíola, a raiva; depois da raiva, a difteria; não tarda a vez do cólera-morbo.

O bacilo-vírgula, que nos está dando que fazer, passará em breve do terrível mal que é, a uma simples cultura científica, logo de amadores, até roçar pela banalidade. (…)

Todas as moléstias irão assim cedendo ao homem, não ficando à natureza outro recurso mais que reformar a patologia.

Não bastarão guerras e desastres para abrir caminho às gerações futuras; e demais a guerra pode acabar também, e os próprios desastres, quem sabe? obedecerão a uma lei, que se descobrirá e se emendará algum dia.


Sem desastres nem guerras, com as doenças reduzidas, sem conventos, prolongada a
velhice até às idades bíblicas, onde irá parar este mundo? Só um grande carregamento, ó doce mãe e amiga Natureza; só um carregamento infinito de moléstias novas.


Mas a vacina não se deve limitar ao corpo; é preciso aplicá-la à alma e aos costumes, começando na palavra e acabando no governo dos homens.

Já a temos na palavra, ao menos, na palavra política. Graças às culturas sucessivas, podemos hoje chamar bandido a um adversário, e, às vezes, a um velho amigo, com quem tenhamos alguma pequena desinteligência. Está assentado que bandido é um divergente. Corja de bandidos é um grupo de pessoas que entende diversamente de outra um artigo da Constituição.

Quando os bandidos são também infames, é que venceram as eleições, ou legalmente, ou aproximativamente. (…)

Conhecido o princípio, sabido que tudo deriva de um micróbio, inclusive o vício e a virtude, obtém-se pelo mesmo processo a eliminação de tantos males.

O boato tem sido descomposto de língua e de pena, é um monstro, um inimigo público, é o diabo, sem advertirem os autores de nomes tão feios, que o boato é a cultura atenuada do acontecimento. Daqui em diante a história se fará com auxílio da bacteriologia.


As eleições, – uma das mais terríveis enfermidades que podem atacar o organismo social, – perderam a violência, e dentro em pouco perderão a própria existência nesta cidade, graças à cultura do respectivo bacilo.

Aposto que o leitor não sabe que tem de eleger no último domingo deste mês os seus representantes municipais? Não sabe. Se soubesse, já andaria no trabalho da escolha do candidato, em reuniões públicas, ouvindo pacientemente a todos que viessem dizer-lhe o que pensam e o que podem fazer. (…)”

26/05/2021

Fragmentos provisórios

 




Cíclope ciclópico utópico bucólico...síndrome de lamentos jazzísticos pendurados nas árvores pelo pescoço....Aranha, aranha, caranguejeira, a bicha é feia mas é faceira, foi no doutor se receitar, o doutor disse: - é melhor morrer! Telêmaco Thelonius Andrômaco Andrômeda Stanislau Rabelais - não seja cruel, seu Manuel, abra a boca e feche os olhos...Ô mundo cão da gota serena, tá parecendo com os tempos idos de Gilgamesh, e olha que já lá se vão milênios... Mas é isso mesmo o tempo é como a roda da desfortuna: de tempos em tempos roda ao contrário, empaca e descompassa - passa passando sem passar, mas não para, cheio de contratempos...                                                                                  Eh vida velha besta, a gente pensa que se renova e cresce pra baixo, feito cabelo que se estica quando puxamos mas quando solto encolhe de novo! Mergulha submerge afunda e emerge entre algas protozoários hydras e cobras e lagartos verdes e amarelos e roedores implacáveis...    Conversas fiadas tecidas por dias e noites nos palácios, nas casernas e masmorras - castelos que desmoronam, fortalezas reconstruídas, ascensão e queda de supostos impérios invencíveis. Apesar dos cães, o sol há de avermelhar este céu escuro que ainda paira sobre nós. 

19/05/2021

Teus olhos




Teus olhos refletem a cor do musgo

das pedras que se banham no vaivém

dos dias;

a água que escorre sobre teu corpo

molda as pedras que o tempo redesenhou;

fragmentos de sal e suor formaram

placas até então desconhecidas.

Teus olhos veem imagens de fantasmas

sob a fímbria de teus pensamentos

velozes e permanentes:

franjas esgarçadas

em carne viva.


16/05/2021

Dois poema de Jacinta Passos *

 




O rio


Tantos rios como eu abriram leitos de pedras

e pranto. Um dia perguntávamos:

Dizei-me, curva, onde vou? casa trono rocha sois

aqueles que ficam, minha lei é não parar. Sigo

fio de água, água humilde sou, para onde? Ó curva, falai.

Água de revolta, espuma espuma de ódio nos poros

na garganta no útero, pranto de mulher, água

de fel antigo, quem é meu semelhante? Dizei, onde vou?


Leito de pedras

e pranto. Súbito, próximo.

Atravessou, olhaí, ele!

ali na frente, vivo, tão vivo,

ele sim! o rio das águas inúmeras. Correi

doçuras e dores, punhos. Partido, esperança nossa...


Canção do amor livre


Se me quiseres amar

não despe somente a roupa.


Eu digo: também a crosta

feita de escamas de pedra

e limo dentro de ti

pelo sangue recebida

tecida

de medo e ganância má.

Ar de pântano diário

nos pulmões.

Raiz de gestos legais

e limbo do homem só

numa ilha.


Eu digo: também a crosta

essa que a classe gerou

vil, tirânica, escamenta.


Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.

Peixe e pássaro, cabelos

de fogo e cobre.

Madeira

e água deslizante fuga

aí rija

cintura de potro bravo.

Teu corpo.


Relâmpago depois repouso

sem memória, noturno.


Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas(BA), no dia 30 de novembro de 1914 e faleceu em 28 de fevereiro de 1973. Livros publicados: Momentos de poesia (1941), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958)

08/05/2021

Letras em pílulas

 



Sem saída


Era tão raivoso que acabou recebendo uma antirrábica.


*****


No restaurante


Opções de cardápio: mastigado ou triturado?


*****


Autorretratos


Cara de palhaço ou cara de paisagem


*****


Quem quer saber


Quem de nós vai viver, qual de vós vai chorar, quantos restarão?

04/05/2021

Dois contos de Robert Walser

 A arvorezinha



Eu a vejo mesmo quando passo por ela sem prestar atenção. Ela não foge, fica parada, quietinha; não é capaz de pensar nem de querer coisa nenhuma; não, ela só consegue crescer, estar no espaço e ter folhas que ninguém toca, que as pessoas apenas contemplam. A sombra que elas dão, os ocupados passam correndo.                                                      Nunca te dei nada? Mas ela não precisa de felicidade. Talvez se alegre quando a acham bonita. Vocês acreditam nisso? Que sagradas inocências expressa. Não sabe de nada, só está ali para me dar prazer.                   Se digo ao bom algo que não lhe é dado ouvir, por que não teria sentido esse meu amor? Ela nunca me vê sorrir em resposta ao cumprimento que me dirige sem o saber. Morrer aos pés desse ser, como aquela figura que Courbet pintou, despedindo-se para sempre!                                  Decerto seguirei vivendo, mas, e de você, o que será?                      



***


A Coruja



No muro em ruínas, a coruja disse a si mesma: Ó existência terrível! Qualquer um se horrorizaria, mas eu tenho paciência, baixo os olhos e fico assim, de cócoras. Tudo em mim ou próximo a mim descai em véus cinzentos, mas também sobre minha cabeça brilham as estrelas, e saber disso me fortalece. Espessa plumagem me reveste. Durante o dia, durmo; à noite, fico acordada. Não preciso de espelho para descobrir que aspecto tenho; meu sentimento me diz. É-me fácil imaginar meu rosto estranho.                                                                              Chamam-me de feia. Se soubessem como minha alma irradia risonhas sensações, não se assustariam comigo. Mas não veem dentro de mim, param no corpo, detêm-se nas vestes. Um dia, fui jovem e bonita, eu poderia dizer, mas isso soa como se tivesse saudade de alguma coisa, e não tenho. Aquela que praticava ser grande suporta com tranquilidade o curso e a mudança do tempo, encontra-se em todo e qualquer presente. Dizem-me: "Filosofia". Mas a morte precoce anula a posterior. A morte não é novidade nenhuma para a coruja; ela já a conhece. Parece que sou uma erudita, que uso óculos e que alguém se interessa tanto por mim que vez por outra vem me visitar. Acha-me harmoniosa. Diz que sou alguém que não o decepciona. É certo que também nunca o enfeiticei. Estuda-me em profundidade, acaricia-me as asas, de vez em quando me traz alguma coisa da confeitaria, com o que acredita proporcionar uma alegria à mais séria das mulheres, e tem razão. Estou lendo um poeta que, por sua delicadeza, se presta a ser digerido por uma coruja. Há algo de doce no seu modo de ser, algo de velado, de indefinido; em suma, é-me apropriado. No passado fui graciosa, ria, gracejava pelo azul do dia afora, virei a cabeça de vários jovens cavalheiros. Agora é diferente, calço sapatos furados, estou velha e fico aqui sentada, quieta.


Robert Walser nasceu em Biel (Suíça), em 1878 e faleceu em 1956 durante uma caminhada na neve. Foi achado por crianças. Publicou três romances, vários textos de prosas curtas, além de publicações em jornais e revistas. São de sua autoria Os irmãos Tanner, O ajudante, e Jakob von Gunten, considerado sua obra-prima. 

24/04/2021

Se...

 




Eu poderia enfeitar-me toda de mentiras, se fosse romântica. Escancarar minhas portas internas, abrir todas as janelas do meu sótão, se tivesse uma casa de alicerces sólidos o suficiente para enfrentar vendavais e tempestades. Porém, minha morada não tem teto, é feita de pele transparente onde as palavras voam por asfixia indo pousar no asfalto das ruas mal iluminadas, nas calçadas ocupadas por carros e corpos ao relento, sob olhares indiferentes, apressados e ensimesmados.               Eu poderia rir, e até zombar da desgraça alheia, se o alheio não estivesse entranhado na pele do meu ser; poderia também, cuspir no prato que como, se não soubesse que a porcelana só é bela porque é um pó concentrado, enquanto eu serei apenas poeira um dia...

18/04/2021

Mariposa

 


Fui ali mas não voltei. Quando cheguei lá encontrei-o debaixo de uma mesa. Ziguezagueava, zumbia feito louco em torno da luz até arder em  em chamas!


13/04/2021

Partida





Vi demais. A visão se revia pelos ares.

Tive demais. Sons da cidade, à tarde, e ao sol, e sempre.

Soube demais. As paradas da vida.

 - Ó sons e Visões.

Partida entre afetos e ruídos novos!


Arthur Rimbaud, 1854-1891


***


No alto

 do viaduto o louco colava pedacinhos de céu

na camisa de força

destruindo o horizonte a marteladas

a Morte

é

um refrão no crânio sem janelas.


*

O arco-íris

é o colar do feiticeiro

que apaga o dia

com a mão direita

& inaugura a noite

com a mão esquerda.


Roberto Piva - São Paulo, 1937-2010

04/04/2021

E no entanto...

 


Vivemos à sombra de uma sombra que dá saltos aleatórios, mas persistentes, a zombar de nossas vidas, do nosso desassossego. Do alto, seu olho ciclópico observa, e tenta controlar todos os nossos passos e pensamentos. Embalde. O mundo gira à revelia das sombras, esses espectros fantasmagóricos de um passado de triste memória.

28/03/2021

Dos filhos deste solo




No rés do chão, sob nossos pés habitam seres invisíveis e destrutíveis: os vermes. São a representação e a vociferação da linguagem inferior; o subproduto humano. Macaqueiam sem ser macaco, papagueiam sem ser papagaio. Verme é o nome comumente atribuído a todos os animais invertebrados, com exceção dos insetos. Na espécie humana, o verme é uma pessoa infame e desprezível que habita entre nós de maneira invisível, escorregadia e disfarçada. Circunavega mares, arcos e charcos pantanosos do viver. E quando cai a noite iluminada por uma multidão de estrelas cadentes trazidas pelo vento, nossos olhos, ainda que embaçados pela poeira, juntam-se a ela para sair da escuridão

21/03/2021

Ao Mar




mar tenebroso e sereno

meu coração já não suporta

tamanha dor;

quando contigo sonhava

via castelos e mistérios

hoje vislumbro silêncios

e solidão


Agita-nos!

nossos olhos inundados

cristais de pedras na boca

rochedos de sentimentos

desmoronam

face a tua impetuosidade:

quebra-os

tritura-os

para que voltemos a ver-te

um mar sereno, e melodioso;

banha-nos salga-nos

e nos renova outra vez!

13/03/2021

Das cinzas




Na penúltima hora do último dia de nossas vidas será encontrado um saco cheio de palavras desusadas, deterioradas, misturadas com alguns embriões sobre os ombros de um anônimo caboclo sertanejo: aquele que jamais teve voz nem vez; de olhos arregalados de fome percorre um caminho sob o peso do silêncio, temendo perder sua identidade. A chuva, os rios e peixes, a densa floresta, berço das plantações de feijão, arroz, milho, tudo em vias de extinção. Ele e os seus, tragados e sufocados por esse imenso saco de pandora.                                               Lá fora passa uma noite morna e lenta, sufocante e sem estrelas, enquanto pelo meu corpo escorre um suor quente e salgado; do sangue nas veias por lâminas cortado, transbordam rios de palavras repetidas ad eternum. Acaricio meus cabelos numa tentativa de ativar meus neurônios; não há qualquer resquício de brisa, o vento foi soprar na boca do vulcão, que enfurecido, engole, devora todas as palavras até transformá-las em cinza, para que renasçam outra vez.

08/03/2021

Um fio de conto

 




Caminhando pelas ruas da linguagem deu-se conta de que embora andasse por elas desde muito cedo, pareciam-lhe estranhas, não conseguia decifrá-las; às vezes passava dias num silêncio sem fim; voz e corpo desencontrados coabitando as mesmas palavras, partilhando o mesmo alfabeto, os mesmos sonhos atravessados na garganta.                        Tentava entender a linguagem dos pássaros, - onde estaria a sua? Por que balbuciava sempre a mesma coisa? As ruas da linguagem, dizia para si, são amplas como as de uma avenida, costumam ter mão dupla. Ao girar a cabeça percebeu que estava numa encruzilhada que se bifurcava em várias ruelas estreitas, de mão única. E aquela mão tinha dedos longos como galhos secos, sem folhas: era um livro de muitas estórias, de páginas avulsas espalhadas pelo chão. Soprava um vento forte, as folhas voavam para o alto, em todas as direções, como se quisessem alcançar os pássaros. E voavam as páginas, as palavras, as estórias, os pássaros e os sonhos contidos naquela mão que a conduzia para um labirinto.

03/03/2021

Prometeu *

 




Sobre Prometeu dão notícia quatro lendas:                                                Segundo a primeira, ele foi acorrentado no Cáucaso porque havia traído os deuses aos homens, e os deuses remeteram águias que devoravam seu fígado que crescia sem parar.                                                                     De acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas até se confundir com elas.                                                   Segundo a terceira, no decorrer dos milênios sua traição foi esquecida, os deuses se esqueceram, as águias se esqueceram, ele próprio se esqueceu.                                                                                        Segundo a quarta, todos se cansaram do que havia se tornado sem fundamento. Os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida, cansada, fechou-se.                                                                               Restou a cadeia inexplicável de rochas. A lenda tenta explicar o inexplicável. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa terminar de novo no que não tem explicação.


Franz Kafka, Praga(Tchecoslováquia) 1883-1924.



* Segundo a mitologia, Prometeu, que em grego significa premeditação ou antevisão, era um dos titãs amigo de Zeus, o rei do Olimpo. Foi responsável pelo roubo do fogo que dava aos mortais a possibilidade de tornarem-se tão poderosos quanto os deuses. Sentindo-se traído,(pois o fogo pertencia exclusivamente aos deuses)Zeus o condenou a ficar amarrado a uma rocha por trinta mil anos, enquanto seu fígado, que se regenerava todos os dias, era picado por uma águia. 

23/02/2021

Onde estamos?

 




Estávamos no terraço de um lugar qualquer.                                                    

 - Agora vamos para Roma.

E ela:

- Onde fica Roma?

- Em Roma, ora!

Você entendeu alguma coisa, leitor? Nem eu, foi somente um sonho daqueles em que a gente acorda com o som de nossa própria voz e nos perguntamos: "onde estou?", só então percebemos que estamos deslocadas(os), à margem, numa terra estranha em nossa própria casa. E que não foi um sonho. É um pesadelo!

15/02/2021

Monólogo




Há quem diga que as paredes têm ouvidos; que quem não se manifesta se esconde ou concorda com o que está posto. Também dizem que falar sozinho é sinal de loucura. Tanta coisa é dita por esse desmundo...             Nesses tempos de pandemia e pandemônios muitos castelos (de areia) estão desmoronando. Se estás a sós entre quatro paredes, o que te resta senão conversar com elas? Se te escutam não sei, pois nada dizem - ecoam em teus ouvidos repetidas vezes para, quem sabe, encontrares uma resposta por esforço próprio. O silêncio pode, num primeiro momento, ser assustador. Nem sempre calamos por vontade deliberada, por opção; calamos para melhor refletir, ouvir a si mesmo ou a outrem. E, quando por motivos alheios à nossa vontade, dialogamos a sós, temos a rara oportunidade de trocar ideias com nosso múltiplos eus, de perceber como somos contraditórios e cheios de imperfeições. Nossos eus podem ser comparados aos livros que lemos; estabelecemos uma ampla conversação com seus autores, seus personagens, sem interagir vivamente com eles. E como podemos aprender... Tenho uma infinita legião de amigos com quem posso monologar à vontade!  

08/02/2021

Um dia mortos


                              Um dia mortos, gastos voltaremos

 a viver livres como os animais. 

E mesmo tão cansados floriremos

 irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços

 dos gestos agitados, irreais

 e há-de voltar aos nossos membros lassos

 a leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar

 através do mistério que se embala

 no verde dos pinhais, na voz do mar.

E em nós germinará a sua fala.

                            




Os poetas


Solitários

pilares dos céus pesados,

poetas nus em sangue, ó destroçados

anunciadores do mundo

que a presença das coisas devastou.

Gesto, de forma em forma vagabundo

que nunca num destino se acalmou.





Pirata


Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

tigres e ursos que amarrei aos remos,

e o meu desprezo reina sobre o mar.


Gosto de uivar no vento com os mastros

e de me abrir na brisa com as velas,

e há momentos que são quase esquecimento

numa doçura imensa de regresso.


A minha pátria é onde o vento passa,

a minha amada é onde os roseirais dão flor,

o meu desejo é o rastro que ficou das aves,

e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Porto(Portugal) 1919-2004

29/01/2021

Metamorfoses




E se o rio que banha tua aldeia tivesse suas águas transformadas em leitosa lama condensada e não pudesses mais beber, comer, banhar-se, nadar, navegar em seu leito, o que farias?                                                                          E se de repentemente acordasses um dia transformado num jacaré, sem poder movimentar-se para capturar uma mosca sequer para tua sobrevivência? Implorarias a uma ema para que ela te desse uma bicada? A espécie humana sempre se considerou superior às  outras. Será que é por isso que tem medo de ser transformada num réptil que se arrasta para obter seu alimento? O medo é um sentimento capaz de subjugar qualquer ser vivo. Talvez seja por isso que hoje se vê tantos sabichões se arrastando pelo palácio em busca de umas migalhas de poder, seu alimento preferido.                                                              E tu, leitor, tens mais medo do que ou do quem, hein?  

23/01/2021

Às avessas

 



Retalhei minhas mãos, virei-as pelo avesso; troquei a posição dos pés, mudei o rumo do meu caminho. A cabeça deu um giro de trezentos e sessenta graus, - passei a ver em minúcias coisas que até então não percebia: buracos de fechaduras, cantos de paredes onde aranhas se escondem para tecer seus fios invisíveis e pegajosos para atrair suas presas; escorpiões misturados com gêneros de primeiras necessidades. Enfim, passei a ter uma visão tridimensional das coisas e das pessoas que me rondam e/ou me rodeiam.                                                              O mundo é grande, mas minha aldeia ainda é pequena; e quanto menor, mínimo é seu universo, ínfimas serão suas possibilidades de raciocínio, de perceber as múltiplas facetas de seu próprio ser. Em situações adversas tudo parece girar ao contrário, mas quando isso ocorre temos a oportunidade de ver o que antes nos parecia imutável.

17/01/2021

Mundo, mundo!?



 


Mundo, mundo mudo, sem fronteiras, sem eira nem beira; povoado de criaturas, como se donas fossem de ti. Enquanto permaneces dormente, elas ressurgem furibundas, devastando florestas, engolindo vidas em ondas gigantescas e vorazes. Enquanto te iludes com aglomerações incomunicáveis em busca de prazeres fugazes e falsa liberdade, tais criaturas invisíveis tratam cuidadosamente do teu extermínio. Fora da bolha em que tentas viver, milhares de pessoas estão morrendo asfixiadas por falta de oxigênio justamente naquela porção de terra que é considerada o pulmão do planeta! Gritos e sussurros saídos dos interstícios de seres em agonia ecoam pelo universo num esforço sobrehumano pela vida. Não te iludas, mundo, porque eles se propagarão como o som em fúria através dos tempos, deixando marcas e crateras profundas de espanto e indignação.

10/01/2021

Desassossego





Ver a linha da vida desmanchar-se nas mãos do tempo sem saber quem é Dona Felicidade, aquela que engana a todos com seus gestos gastos e dissimulados...                                                                                       - Antes de entrar, dispa os pés, tantos micróbios: o nariz, a boca, os ouvidos, todos desembocam no mesmo labirinto das sete portas para desaguar nas vísceras recheadas de trilhões de bactérias que disputam com os neurônios o tempo de validade de todos nós. Reina um silêncio    ensurdecedor; todos se foram apressados, em busca de sabe-se lá o quê. Carregam, sem saber, a linha que costura o tempo. E o tempo é o responsável por torná-la a cada dia mais tênue, quase transparente, mas cheia de emaranhados nós, impossível desmanchá-los. Tentam ignorá-la, talvez por isso a pressa, esse desejo desesperado de recuperar o tempo perdido: voltas e mais voltas, vaivéns intermináveis. O novelo torna-se mais e mais robusto e disforme; a linha do tempo vai encurtando, o desejo e a curiosidade diminuindo, e o desespero aumentando...                                                          

Salve-se quem puder! 

03/01/2021

Patacoadas

Gralhas



 O pato pactua com outros patos (com ou sem penas), suas patacoadas, que não existiriam sem as gralhas. São elas que ecoam pelo mar as dissonâncias do pato. Enquanto isso, a pata choca em seu ninho ovos de serpentes de mil e uma cabeças: de corvos, carcarás e gaviões.