28/09/2012

Escaramuças




 
 



Escondemos as nossas identidades marcadas com o selo da aprovação. Mas a verdade escapa em nossos sonhos.

***
 
 

Aquilo que proibimos a nós mesmos, pagamos um bom dinheiro para admirar num teatro, num cinema ou nas páginas de um livro.
 
 
 
Salman Rushdie, Bombaim, Índia

27/09/2012

Dor


 
 



Passa-se um dia e outro dia
  À espera que passe a Dor,
  E a Dor não passa, e porfia,
  Porque trás dia, outro dia
Que traz Dor inda maior;
  Porque embora a Dor aflita
  Calasse há muito seus ais,
  Ainda, fundo, palpita
  Uma outra Dor que não grita:
  A Dor do que não dói mais
.
 
Francisco Bugalho, Dispersos e Inéditos -   Portugal - 1905-1949

25/09/2012

Dilema





Eu tenho sonhos que espelham a minha alma
Mas deixam a minha mordacidade louca
E a minha sonolência rouca e calma
Sentadas à soleira da minha imaginação
 
 
 
As lágrimas descompassadas rolam quietas
E riem dos meus demônios e fracassos
Os meus medos não permitem, nas longas noites
despertas,
Que a vida me leve em seus braços!
 
 
 
Ner Cabrera Lopez,  em  A Lenda - Editora Alley, 2005


23/09/2012

A cortesia dos cegos






 
 
O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê - pois já não pode parar-
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir - embora seja impossível -
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.



Wislawa Szymborska, Polônia (1923-2012)


17/09/2012

Das contradições do tempo


Saí fechando a porta, ouvindo os tiquetaques todos. Olhei para trás, para a vitrine. Ele me observava detrás da divisória. Havia uns doze relógios na vitrine, marcando doze horas diferentes, cada um deles com a mesma convicção determinada e contraditória que o meu manifestava, mesmo sem ponteiros. Um contradizendo o outro. Eu ouvia o meu, ainda a tiquetaquear no meu bolso, muito embora ninguém o visse, muito embora mesmo se o vissem ele não poderia dizer nada a ninguém.
E assim eu disse a mim mesmo para escolher aquele. Porque o pai disse que os relógios matam o tempo. Ele disse o tempo morre sempre que é medido em estalidos por pequenas engrenagens, é só quando o relógio para que que o tempo vive. Os ponteiros estavam estendidos, desviando-se um pouco da horizontal, formando um leve ângulo, como uma gaivota planando no vento.
William Faulkner, em O Som e a Fúria

12/09/2012

O relógio




Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade
João Cabral de Melo Neto

11/09/2012

Los Heraldos Negros






OS ARAUTOS NEGROS



César Vallejo

Tradução de Fernando Mendes Vianna





Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

Golpes como do ódio de Deus; como se ante eles

a ressaca de quanto foi sofrido

se empoçara na alma... Eu nem sei!



São poucos, porém são... Abrem sulcos escuros

no rosto mais fero e no lombo mais forte.

Serão talvez os potros de bárbaros átilas;

ou os arautos negros que nos manda a Morte.



São as caídas fundas dos Cristos da alma,

de alguma fé adorável que o Destino blasfema.

Esses golpes sangrentos são as crepitações

de algum pão que na porta do forno se queima.



E o homem... Pobre... pobre! Volve os olhos, como

quando por sobre os ombros nos chama uma palmada;

volve os olhos loucos, e todo o vivido

se empoça, como charco de culpa, na mirada.



Há golpes na vida tão fortes... Eu nem sei!

10/09/2012

08/09/2012

A palavra misteriosa


Sobe da sombra mais opaca
a tua figura radiosa
oh palavra misteriosa!
No obscuro pulsar de cada ato
reconstróis tudo por ausência
e o sentido consentido
sobe sem esforço as tuas escarpas
Potencial qualidade do outro
o teu segredo está
numa parábola
numa elipse
num ponto só
infinitamente alheio e sem medida.
[ O pavão negro, 2003]
A ausência
Oh como te ex-amo
como tudo se torna direção imprecisa
É uma coisa terrível!
tudo ser tão evidente
no seu vazio
controverso
verso
Seta por dentro
a onda vive de perfil o seu ex-ato
imprecisando as criaturas
Oh como o eu-outro aflora culminando
falo contigo
mas é um outro que contigo fala
um outro
que ex-amadamente arde ainda
Não vês a curva da palavra?
A face do amor é ausência de rosto.
[A idade da escrita, 1998]
Ana Hatherly, Porto, Portugal (1929- )
Imagens da autora.

06/09/2012

A idade da escrita - poema ensaio


Costumo dizer que a minha atividade começa com a escrita
porque toda a minha atividade gira à volta da escrita.
Mas não há só uma escrita nossa
a que escrevemos para nós:
a escrita é POR CAUSA DO TEMPO
é POR CAUSA DOS OUTROS
é para não esquecermos
é para sermos lembrados é PARA SERMOS ALÉM DE
EXISTIRMOS
sinal
vínculo
aceno
Costumo dizer que a nossa era é
a era da ESCRITALIDADE
e da IDADE DA ESCRITA
porque a nossa era é
a era da ESCRIBATURA
a IDADE DA ESCRAVATURA DA ESCRITA
A noção de ESCRITA alargou-se
a TUDO
a QUASE TUDO
porque a escrita é sinônimo de IMAGEM
imagem para se ver
para se ter
para se ser
Escrevo para compreender
para apreender
a escrita é o que me revela
um mundo
o mundo
II
Escrevo e descrevo
e descrevendo
o tempo insere-se nas linhas
e nas entrelinhas em que escrevo
escrevendo imagens
que a si mesmas se descrevem
desescrevendo o tempo
A ESCRITA
é a petrificada imagem de um percurso
do rio antigo
da seta temporal
Ainda não sabemos pensar de outro modo
De caminho o arabesco insinua-se
e mesmo quando maquinal
a escrita prolonga A MÃO
é o prolongamento extensíssimo da mão
indica
disciplina
explosão contida
Onda surda é a escrita.
Ana Hatherly, em A idade da escrita E OUTROS POEMAS - São Paulo: Escrituras Editora
OBS: Os desenhos são de Ana Hatherly, que além de poeta, escritora e cineasta, é artista plástica, nascida na cidade do Porto, Portugal, em 1929.

04/09/2012

pingos


São tudo o que ela consegue ver, salpicando os azulejos brancos da parede do banheiro. Eles explodem na sua cabeça, espirrando miolos de água, enquanto outros enxergam o seu destino efêmero de queda; a cantilena incessante dos pingos torna-se um murmúrio de raiva, enquanto se despedaçam em irmãos menores que se juntam com os outros miolos, outras águas, destinos sombrios. A mulher enxerga a parede e dezenas de olhos cristalinos devolvem o olhar com a fúria dos que estão mortos. Eles escorrem pela parede do banheiro, alguns com a rapidez do pensamento, ansiosos para chegar ao chão, outros com a elegância das pessoas que usam cartola, ultrapassando cada rebite entre azulejos com a delicadeza de quem transpõe poças em dias de chuva, um passo de cada vez. A mulher encosta a testa no frio da parede, e os pingos da testa encontram os que estão nos azulejos; o equilíbrio rompe quando gotas estranhas se misturam, subitamente, sem nenhuma apresentação preliminar, a guerra para manter sua integridade resultando em uma carnificina incolor no branco indiferente dos azulejos. Pingos, muitos, continuam caindo para a morte certa, e no meio dessa precipitação uma vida inteira passa; alguns se entregam a orgias desenfreadas com dezenas de desconhecidos, outros rezam para seu deus de ferro e quentes engrenagens e existem aqueles que sonham com a derradeira unidade, circulando ao redor do ralo do banheiro. Contudo, alguns pingos são diferentes dos outros: eles brotam de dentro do castanho da mulher. Ao se depararem com o caos que reina ao seu redor, tentam voltar, mas é tarde, e os pingos sem gosto sentem um inesperado prazer ao bater nos salgados e dividí-los em pedaços, provando que são iguais, não importa a origem. O corpo da mulher besunta-se com o sangue invisível das dezenas, centenas, milhares que já morreram tentando destruir o concreto da pele; a violência preenche o banheiro enquanto os mortos se empilham, escorrendo para o chão, onde existem pingos vermelhos que, dotados de sabedoria ancestral, não se misturam e escorrem em um fluxo contínuo, levando consigo o feto tão sonhado, rodopiando ao redor do ralo com a placidez das coisas inveitáveis.
Conto extraído de O homem despedaçado, de Gustavo Czekster, mestre em Literatura Comparada, pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
OBS: As fotos do "cabeçalho" e da postagem são de Amy Hildebrand, fotógrafa cega.