DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

12/07/2026

"...Bolha não tem opinião..." *

 



"- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver a água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

- Bem; a opinião da bolha...

- Bolha não tem opinião..."


* Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908)em   Iaiá Garcia (1889)

27/06/2026

Luzia do Brasil *

 




algo, um resto,

uma sobra,

luzia da terra,

luzia enterrada

essa migalha,

se do passado

ou futuro

não se sabe,

mas segue-se

dando nomes

luminosos

a façanhas

e ossadas dessa terra,

a brasa

na lama,

a luz

no fundo

da terra,

cava-se

até não restar,

e eis

que aqui

jaz

luzia, osso

ou caroço,

resíduo

ou semente,

não

se sabe

será cálcio

ou caule

num sulco

ou túmulo,

mas ainda

luzia luzia,

a primeira,

a primeira que restou

a última

que sobrou,

seus restos

os primeiros,

os últimos

do solo

que se fez

território

a que um dia

dariam outro nome

luzidio,

brasil, a luzia

que certo

não

sonharia

essa nação

de trapos

e bagaço

e lama

e detritos

e pó

que se chamou

colônia,

império,

república

estado-

nação,

não

sonhou

brasil

nenhum,

quiçá

brasil

seja tão

o pesadelo

repetindo-se

no vão

do tempo

dentro

do crânio

de luzia


* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977-  . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),   

07/06/2026

Fragmentos de...(?)




Lendo e escrevendo sobre um Eu em busca de si mesmo, um Eu povoado de Nós, de Ela, de Eles; um Eu que insiste em não desaparecer sendo impessoal, e que se transforma em palavras. Uma tentativa autoficcional de sobrevivência da escrita. Quantas máscaras, quantos fantasmas, quantos personagens estarão submersos ou disfarçados? Múltiplas identidades podem vir à tona em uma só página em poucas linhas...

26/05/2026

A Queda

 




Aquele azul atravessou o oceano, caiu no deserto e ávido e impetuoso saltou das órbitas e mergulhou não se sabe onde. À procura de quê?

03/05/2026

Apesar de...

 




Descobri que tenho um museu de palavras contido em minha imaginação, e que embora a imaginação faça parte de mim nem sempre posso acessá-la livremente para expô-la publicamente. Contém poemas, contos e até histórias passadas ao longo de toda uma existência.

Dispondo dessa ferramenta essencial para a arte e a criação humana poderíamos pensar de antemão que escrever um conto ou um romance, pintar um quadro seria uma tarefa fácil de realizar não fosse a urgência a que estamos submetidos nesses tempos de tecnologias avançadas e de "inteligência". artificial. Braços pernas mãos e pés acima e abaixo, andarilham perambulam gesticulam manipulam tamborilando conexões e desconexões. E assim a máquina vai seguindo ora criando, ora destruindo mundo afora. Pode até não lhes parecer assim, porém, nem tudo que parece é, nem tudo que perece desaparece... !  

09/04/2026

Como se...

 



olhasse para o alto e as pálpebras caíssem. Ao longe uma sinfonia de pássaros em debandada.

25/03/2026

Palavras que andarilham


Palavras trôpegas tropeçam pelas ruas da linguagem. Andarilham ao relento; como curtos-circuitos, desencapam fios, desconectando a chave geral da comunicação. Obscuridade. Caminham num arquejar de soluços cansados; cambaleiam entre as linhas que equilibram seu corpo frágil. É preciso resistir para que outras venham auxiliá-las, a despeito de máquinas ou avatares. Pássaros sobrevoam telhados para criar seus ninhos. Palavras voam à procura de vozes que as representem; seus pelos se eriçam, saltam, transpiram, transbordam no suor que desliza sobre o fio da imaginação... E imaginação é uma capacidade, um direito,e a disponibilidade para voar tão ou mais alto do que os pássaros; não tem fronteiras, nem barreiras que a impeçam de ir além das coisas comezinhas, de preconceitos e falsos moralismos. Antes das palavras, a imaginação já andarilhava embrionariamente no líquido amniótico que a gerou. Talvez seja por isso que as palavras têm força; sua matriz é o começo de tudo, é a própria vida, e sobreviverá ad infinitum...!

11/03/2026

Tempesta...

 





O dia chegou com a noite mas a coruja não apareceu; a passarada nem cantou, mal chegou e já bateu asas! Por onde andará o vento que não chega para dar passagem ao tempo, esse tempo de escombros e de ossos? Uma vontade louca de falar sobre coisas bonitas, de falar sobre amor, de amar mar adentro, mas o mundo está cheio de ondas violentas e é preciso colecionar pedras, criar rochedos. As pérolas estão submersas, as palavras estão desgastadas: as bolhas, os clichês, os algoritmos...ora bolas!  

22/02/2026

É o que mais falta...

 




Enquanto o boi dormia o berro do boiadeiro ecoou pelos campos impedindo o sono tranquilo das vacas que assustadas contraíram seus úberes, impedindo que o leite jorrasse de suas tetas para as bocas dos seus bezerros. O berro do vaqueiro ampliou-se fazendo coro com o dos filhotes. Do leite que não derramou extraiu-se o açúcar que provoca reações intestinais adversas em várias pessoas. Falta leite para os bezerros, para os filhos do vaqueiro e para os adversos. Nos campos não há mais poesia...

01/02/2026

Sem nexo...

 


Era um azul visto lá de cima, espacial. Era um ácido como o clorídrico fabricado no estômago. Podia-se navegar em suas águas lacrimosas mesmo nos dias ensolarados e salgados. Era isso ou aquilo que não se pode dizer porque não se sabe exatamente o que é. Era um tudo e era um nada embora pairasse no ar um não sei o quê do existir... Decifras-me? Não sei de nada jamais soube. Era o verbo que existia, mas qual? Quem ensinou a conjugá-lo sem ranger os dentes?