DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

30/09/2026

"O tirano nunca ama e nunca é amado"

 





Quando os maus se reúnem há uma conspiração, não uma sociedade. Não se amam, mas se temem. Não são amigos, mas cúmplices. Mas, mesmo que não fosse assim, seria difícil encontrar um amor sincero num tirano, porque, estando acima de todos e não tendo companheiros, já está além dos limites da amizade.

Os protegidos de um tirano nunca podem contar com ele porque aprenderam que seu protetor pode tudo, que nenhum dever o obriga, que está acostumado a não ter nenhuma lei além de sua própria vontade e nenhum companheiro, por ser o senhor de todos. Não é lamentável que com tantos exemplos evidentes, sabendo que o perigo está tão presente,, ninguém queira tira a lição das misérias de outros e que tantas pessoas ainda se aproximem naturalmente dos tiranos? 

Estes miseráveis veem os tesouros do tirano brilhar; admiram alucinados os raios de sua pompa. Deslumbrados com esse esplendor, aproximam-se dele sem se dar conta que se atiram numa chama que vai consumi-los. 


Trechos do Discurso da Servidão Voluntária, de Étienne de La Boétie - Sarlat(França) 1530-1563 

11/09/2026

Chuvarada

 




Chuvisco chuvisquinho chuvascada chuvarada....            Cântaros quebrados, cânticos silenciados, prantos e quebrantos pelos cantos, pelos pântanos lodosos e escorregadios. Pontas de icebergs cada dia mais pontiagudas e visíveis entre lagos e lagoas. Enquanto isso, os jacarés fingem dormir à beira do lago ao som de tronitruantes trovoadas. 

03/09/2026

Minúsculas criaturas

 




Subiu o morro lentamente sem nenhuma pretensão. Queria simplesmente arrebentar a face do sol só porque ele andava de caso com a lua em plena luz do dia! Mas, de repente caiu um meteoro sobre a terra estilhaçando as vidraças que a protegiam: foram cacos para todos os lados, línguas para fora, corações despedaçados...                    Quando olhou lá do alto foi que percebeu a pequenez do lugar, a miniaturização das criaturas que ali viviam. 

12/08/2026

Das pedras

 



Envolvi-me com pedras; sentei, deitei e rolei com elas. Apalpei-as, senti o seu cheiro, sua transpiração, e sua indiferença à minha presença. Ouvi o ruído do vento, seu farfalhar sobre as folhas, sobre os telhados. O vendaval, feito um torpedo, não se deteve diante dos destroços por ele provocados. Brinquei com pedras, joguei-as para cima e para baixo. De tanto misturar-me transformei-me numa delas. Hoje sou manipulada: jogam-me contra os pássaros, contra os animais, contras as pessoas. Sou pedra fria feita da poeira acumulada através dos tempos. Entretanto, posso tornar-me um rochedo, que enfrenta a brutalidade e a insensatez das marés humanas.

12/07/2026

"...Bolha não tem opinião..." *

 



"- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver a água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

- Bem; a opinião da bolha...

- Bolha não tem opinião..."


* Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908)em   Iaiá Garcia (1889)

27/06/2026

Luzia do Brasil *

 




algo, um resto,

uma sobra,

luzia da terra,

luzia enterrada

essa migalha,

se do passado

ou futuro

não se sabe,

mas segue-se

dando nomes

luminosos

a façanhas

e ossadas dessa terra,

a brasa

na lama,

a luz

no fundo

da terra,

cava-se

até não restar,

e eis

que aqui

jaz

luzia, osso

ou caroço,

resíduo

ou semente,

não

se sabe

será cálcio

ou caule

num sulco

ou túmulo,

mas ainda

luzia luzia,

a primeira,

a primeira que restou

a última

que sobrou,

seus restos

os primeiros,

os últimos

do solo

que se fez

território

a que um dia

dariam outro nome

luzidio,

brasil, a luzia

que certo

não

sonharia

essa nação

de trapos

e bagaço

e lama

e detritos

e pó

que se chamou

colônia,

império,

república

estado-

nação,

não

sonhou

brasil

nenhum,

quiçá

brasil

seja tão

só

o pesadelo

repetindo-se

no vão

do tempo

dentro

do crânio

de luzia


* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977-  . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),   

07/06/2026

Fragmentos de...(?)




Lendo e escrevendo sobre um Eu em busca de si mesmo, um Eu povoado de Nós, de Ela, de Eles; um Eu que insiste em não desaparecer sendo impessoal, e que se transforma em palavras. Uma tentativa autoficcional de sobrevivência da escrita. Quantas máscaras, quantos fantasmas, quantos personagens estarão submersos ou disfarçados? Múltiplas identidades podem vir à tona em uma só página em poucas linhas...

26/05/2026

A Queda

 




Aquele azul atravessou o oceano, caiu no deserto e ávido e impetuoso saltou das órbitas e mergulhou não se sabe onde. À procura de quê?

03/05/2026

Apesar de...

 




Descobri que tenho um museu de palavras contido em minha imaginação, e que embora a imaginação faça parte de mim nem sempre posso acessá-la livremente para expô-la publicamente. Contém poemas, contos e até histórias passadas ao longo de toda uma existência.

Dispondo dessa ferramenta essencial para a arte e a criação humana poderíamos pensar de antemão que escrever um conto ou um romance, pintar um quadro seria uma tarefa fácil de realizar não fosse a urgência a que estamos submetidos nesses tempos de tecnologias avançadas e de "inteligência". artificial. Braços pernas mãos e pés acima e abaixo, andarilham perambulam gesticulam manipulam tamborilando conexões e desconexões. E assim a máquina vai seguindo ora criando, ora destruindo mundo afora. Pode até não lhes parecer assim, porém, nem tudo que parece é, nem tudo que perece desaparece... !  

09/04/2026

Como se...

 



olhasse para o alto e as pálpebras caíssem. Ao longe uma sinfonia de pássaros em debandada.