07/10/2019

Lírica do ciborgue*




o ciborgue habita
debaixo da tua pele

pouco a pouco
ele toma conta
de todos os teus
 sentidos e não sentidos

com os olhos ele vê
as cores que não há

nos ouvidos
músicas silenciosas

pela pele os toques
tocam nas coisas
imponderáveis
na boca os sabores
sabem de corpos
os desgostos do gosto
no nariz
 os odores são
as dores que sobem
desde a raiz
e no todo, teu corpo
eles inauguram
os movimentos
que são teus pensamentos
na mágica do leve
levitarás em breve
nos espaços
abstratos
de todos os teus atos

trilhões das tuas células
serão sutilmente alteradas
e as funções
dos teus órgãos
serão novas

quando já não terás
um só eu
mas vários eus
que nem sequer
 serás

é com eles que para sempre
viverás
para além do óbvio

Homo Sapiens Ciborgue
irmão de mim próprio.

Ernesto Manuel de Melo e Castro (Portugal, 1932-) em Neo-Poemas-Pagãos

* Ciborgue é um organismo cibernético de partes orgânicas e cibernéticas, com a finalidade de melhorar suas capacidades, utilizando tecnologia artificial.

30/09/2019

Vozes




tantas que falam
muitas que se calam
outras que são silenciadas
algaravia-relâmpago
e trovão
e a chuva não cai
silêncio

sobre a mesa
bocas mudas mãos imóveis
e a sala vazia:
cheia de nadas!

22/09/2019

O país de uma nota só




Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos,
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde se possa filtrar o pensamento,
a ideia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó, tudo dó, tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...

Rondó da liberdade

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada
 do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Carlos Marighella (Salvador, 1911-1969)em:
Poemas:rondó da liberdade - Edit.Brasiliense, 1994

20/09/2019

"Timão de Atenas"

Marcel Duchamps
Ouro! amarelo, reluzente, precioso ouro!

Não, deuses, não faço súplicas em vão (...)

Assim, um tanto disto tornará o preto branco,
o repugnante belo, o errado certo, o vil nobre,
o velho jovem, o covarde valente (...)

Porque isto arrancará vossos sacerdotes e servidores de vossos lados, arrebatará coxins de sob a cabeça de homens corpulentos:
 este escravo amarelo tecerá e despedaçará religiões;
abençoará os amaldiçoados; fará a alvacenta lepra adorada;
levará ladrões, dando-lhes título, reverência e aprovação,
ao banco dos senadores; isto é o que faz a desgastada
viúva casar-se novamente; a ela, para quem
o lazarento e ulcerosas feridas abririam a goela
isto perfuma e condimenta para o dia de abril novamente.
Vem, elemento danado,
tu, vulgar rameira da humanidade,
que instalas a disputa na multidão de nações (...)

Ó tu, doce regicida e caro divórcio entre filho e senhor!
tu, brilhante violador do mais casto leito de Hímen!
tu, Marte valente! tu, sempre jovem, loução,
amado e delicado sedutor, cujo rubor
derrete a neve consagrada que jaz no regaço de Diana!
tu, deus visível, que soldas impossibilidades
e fá-las beijarem-se! que falas com toda língua
para todo propósito! ó tu, contato de corações!
pensa, teu escravo, o homem, rebela-se e
por tua virtude entra em tais confusas disputas,
que as bestas poderão ter o mundo sob império.

William Shakespeare(1564-16l6)

16/09/2019

A cada um sua quimera




Sob um vasto céu cinzento, em uma vasta planície poeirenta, sem caminhos, sem grama, sem um espinho, sem um marco sequer, encontrei diversos homens que andavam curvados.
Cada um deles carregava sobre as costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão ou a bagagem de um soldado de infantaria romano.
Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; ao
contrário, ela abraçava e oprimia o homem com seus músculos elásticos e potentes; ela se agarrava com
suas duas longas garras ao peito de sua montaria; e
sua fabulosa cabeça cobria a fronte do homem como
um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam aterrorizar ainda mais os inimigos.
Abordei um daqueles homens e perguntei-lhe aonde iam assim. Ele me respondeu que não sabia de nada,
nem ele, nem os outros, mas que, evidentemente, iam a algum lugar, pois eram impulsionados por uma
invencível necessidade de andar.
Coisa curiosa a se observar: nenhum daqueles viajantes parecia irritado com a besta feroz dependurada em seu pescoço e agarrada às suas costas; dir-se-ia que a consideravam como uma parte de si mesmos. Nenhum daqueles rostos cansados e austeros mostrava o menor sinal de desespero; sob a cúpula spleenética do céu, os pés
mergulhados na poeira de um terreno tão desolado
quanto aquele céu caminhavam com a fisionomia resignada daqueles que estão condenados a esperar sempre.
E o cortejo passou ao meu lado e penetrou na atmosfera do horizonte, lá onde a face arredondada do planeta escapa à curiosidade do olhar humano.
E, durante alguns instantes, obstinei-me a querer compreender aquele mistério; mas logo a irresistível
Indiferença se abateu sobre mim, e fui mais duramente oprimido por ela que aqueles viajantes por suas esmagadoras Quimeras.

Charles Baudelaire (Paris, 1821-1867)em Pequenos poemas em prosa - O spleen de Paris

07/09/2019

Preparação para a morte





A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira - Recife(PE)1886-1968

31/08/2019

Disse me disse




Dizem que não dizes, ou por outra, que dizes o que não dizem: que as rosas vermelhas sangram quando cortadas, e que podem transformar-se em bifes que se come à milanesa; dizem que falas de nós de vós deles delas feitos nós de vozes que vociferam sentimentos que só desejam dizer eu eu eu a repercutir ecos infinitos povoados de narcisos inodoros; dizem que teu texto é só queixumes paus pedras sal e cal seca e sol.
Ô língua danada de traiçoeira que enviezadamente envereda por uma mata fechada tentando abrir clareiras contando estórias que parecem não ter pés nem cabeças, como cobra que desliza nas águas profundas de um rio que desemboca no mar das múltiplas palavras, de significados diversos sem ser conto sem ser verso numa cantilena repetitiva de catedral cujos sinos não mais repicam, porque as procissões de hoje são regidas por bombas caseiras e coquetéis molotov.
Dizem, dizem que morre eletrocutado quem anda descalço sob a chuva forte nas encostas que desmoronam abrindo crateras engolindo vidas de negros de pobres em condições subumanas, e depois que acontece o desastre todos lamentam e lhes rendem homenagens póstumas.
Dizer por dizer digo pros meus botões sem casa que a porta está fechada com todos dentro, sem nexo sem verso, sem anverso nem reverso e nem por isso o caminho deixará de bifurcar-se em outros, porque ele é infinito...!

29/08/2019

Preste atenção, o mundo é um moínho...


vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó
Muita atenção! De cada amor tu herdarás
só o cinismo; quando notares, estás
à beira do abismo que cavaste com os teus pés!



22/08/2019