15/01/2019

O galo e a raposa




No meio dos galhos de uma árvore bem alta um galo estava empoleirado e cantava a todo o volume. Sua voz esganiçada ecoava na floresta. Ouvindo aquele som tão conhecido, uma raposa que estava caçando se aproximou da árvore. Ao ver o galo lá no alto, a raposa começou a imaginar algum jeito de fazer o outro descer. Com a voz mais boazinha do mundo, cumprimentou o galo dizendo: - Ó  meu querido primo, por acaso você ficou sabendo da proclamação de paz e harmonia universal entre todos os tipos de bichos da terra, da água e do ar? Acabou essa história de ficar tentando agarrar os outros para comê-los. Agora vai ser tudo na base do amor e da amizade. Desça para a gente conversar com calma sobre as grandes novidades! O galo, que sabia que não dava para acreditar em nada do que a raposa dizia, fingiu que estava vendo uma coisa lá  longe. Curiosa, a raposa quis saber o que ele estava olhando com ar tão preocupado. -  Bem –  disse o galo –,  acho que estou vendo uma matilha de cães ali adiante. -  Nesse caso é melhor eu ir embora – disse a raposa.   -  O que é isso, prima? – disse o galo. – Por favor, não vá ainda! Já estou descendo! Não vá me dizer que está com medo dos cachorros nesses tempos de paz?!   -  Não, não é medo – disse a raposa –,  mas ... e se eles ainda não estiverem sabendo da proclamação?

Fábula de Esopo -  Tradução de Heloísa Jahn. São Paulo. Companhia das Letrinhas.

06/01/2019

Transitoriedade




Foi ali não voltou. Entrou num beco sem saída desceu uma ladeira despencou numa montanha mágica. Quando deu por si estava em plena selva - sumaúma
jequitibá pau-brasil igarapé rio caudaloso - um sobe e desce infernal cheio de pesadelos. Ao acordar estava navegando num rio de águas paradas. Meteu os pés debaixo da cama e enfiou a cabeça no subterrânico travesseiro do tempo. 
E como o tempo não para, vamos dar tempo ao tempo para continuar...

03/01/2019

Eia, Mário se Andrade!!!




Eu nem sei se vale a pena
Cantar São Paulo na lida,
Só gente muito iludida
Limpa o gosto e assopra a avena,
Essa angústia não serena,
Muita fome pouco pão,
Eu só vejo na função
Miséria, dolo, ferida,
Isso é vida?
[...]
Mas o pior desta nação
É ter fábrica de gás
Que donos da vida faz
Ianques e ingleses de ação,
Tudo vem de convulsão
Enquanto se insulta o Eixo,
Lights, Tramas, Corporation,
E a gente de trás pra trás.
Isso é paz?

O Cortejo

Monotonias das minhas retinas...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...
Todos os sempres das minhas visões.
"Bom giorno, caro"

Horríveis as cidades!
Vaidades e mais vaidades...
Nada de asas! Nada de poesia! Nada de alegria!
Oh! Os tumultuários das ausências!
Paulicéia - a grande boca de mil dentes;
e o jorro dentre a língua trissulcade
pus e de mais distinção...
guiam homens fracos, baixos, magros...
Serpentinas de entes frementes a se desenrolar...

Estes homens de São Paulo,
Todos iguais e desiguais,
Quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos,
Parecem-me uns macacos, uns macacos.

*****

Comunismo pra brasileiro é uma espécie de assombração medonha. Brasileiro nem bem escuta a palavra, nem quer saber o que é, fica danado. Bem, é verdade que danação de brasileiro tem cana-de-açúcar pra adoçar, baunilha pra perfumar e no fim um sorvo de caninha de alambique de barro, bem boa pra rebater: acaba tudo em dança. Mas nem por isso deixa de ser dum ridículo cansativo esse apavorante pânico que tomou o Brasil por ordem da Inglaterra.

Trecho da crônica publicada em 30.11.1930, no Diário Nacional.

01/01/2019

Das notícias que as pessoas não querem saber




No Brasil existem cerca de 1 milhão e trezentas mil pessoas com Alzheimer; 3 em 4 pessoas não
têm a doença diagnosticada.
Linguagem, distúrbio de comportamento, depressão, não é hereditário, mas genético. A medicação que existe para tais distúrbios é apenas sintomática, isto
é, funciona como um analgésico. Gasta-se 1 trilhão de dólares no mundo para o "tratamento" da depressão. Espera-se pelo menos um controle dessa
doença, como o que já existe para a hipertensão, a
diabetes, a Aids, etc...

25/12/2018

Da solidão

Oswaldo Guayasamin, - Quito(Equador)


Névoa azulada. Pálida. E sazonal.
É fumaça espiralada. Fechada e
inexprimível. É vazio. Invisibilidade.
Fiascos de quinquilharias.

O vento bate forte nas folhas,
pássaros voam e revoam. Debandada.
A chuva cai sobre o lago escuro porque
profundo. Forte.
A chuva...

Quem sabe o que ela é?
A solidão?
Busca incessante. Interminável.
Raios alternados de claridade. 
E escuridão.
E a presença permanente
do perigo.

17/12/2018

IDIOSSINCRASIA

René Magritte



Genibalde é genial! Sua mulher nem tanto. Mas o balde da família é tão pesado que não há quem o carregue.

*****

Ceia de natal

Comprei um peru, um pato e um porco. Vou regá-los com o vinho da minha ira. Assá-los em forno brando,
ad eternum...!

*****

O fantasma da ópera.

Vocês estão ouvindo alguma coisa? E agora, estão escutando algo? Pois é, nem eu. Mas a imagem ilusória muitas vezes apavora; surge como uma sombra, um espectro. Reaparece sob disfarce, e pode transformar-se em farsa ou tragédia.
 Pode até transfigurar-se em fantoche e ser manipulado por mãos invisíveis tornando-se um títere, um testa-de-ferro.
A "Ópera" está apenas começando, ocupem seus lugares...!

12/12/2018

Sonambulismo




Ao atravessar a rua mergulhou numa poça d'água. Nadou até a terceira margem do rio e alcançou o canal da mancha.

***

Sua nudez era tão pequena que dava para exibir num
quadro. Usava a tela para esconder as maçãs.

***

Pegou o ônibus na Gare du Nord em Paris. Acordou num quarto de hotel barato da Av. São João em São Paulo.

08/12/2018

Nos poços




Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em
cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar
noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço
do poço você vai descobrir quê.

Caio Fernando Abreu (Santiago-RS, 1948-1996), em O ovo apunhalado.

02/12/2018

Prenúncio de gaivotas




Sou uma alma pequena
pousada na Terra.
Mais precisamente pousada numa pedra
na Urca, esta tarde.
As nuvens, o céu, 
as gaivotas, o mar.
Tudo passa.
Adiante caminham
no calçamento da encosta da praia,
dezenas de pessoas iguais a mim.
Todas passam, mas não notam
o esplendor da natureza.
Todas passam, e pensam,
e são seus pensamentos que limitam o mar.
Seria a mente o limite do tempo?
Estamos todos vivendo menos,
presos dentro de nós mesmos.
Sós
neste planeta azul, sob o sol.
Mas sinto que se der um salto,
aprendo a voar.

***

Ímpar

Nem homem, nem mulher, nem anjo,
nem cachorro, nem demônio
nada
que tenha par
estranho

e no entanto anda
e fala

Renato Rezende - São Paulo, 1964

***

Janela para o céu

Abri a janela
e vi um céu
onde não havia deuses,
só anjos
que não tinham asas,
só vontade de voar.

***

Alvo sem corpo

O vazio
 não é o cotidiano de miudezas,
a sensação de ser engolido
feito sopa rala.
O vazio sou eu
estendido sobre a roda giratória,
indiferente ao seu movimento
e à mira do atirador de facas.

Maurício Barros de Castro - Niterói, 1973

Extraído de Inquietação-Guia - 15 Poemas em torno da AZOUGUE.

26/11/2018

Por que cantamos




Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio/soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos e não queremos
deixar que a canção se torne cinza.

Mario Benedetti (Paso de los Toros, Uruguai - 1920-2009) em Antologia Poética.