01/05/2020

"Todo homem é uma parte..."




Nenhum homem é uma ilha,
inteiramente isolado, todo homem
é uma parte de um continente,
uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado
pelas águas até o mar, a Europa
ficará diminuída, como se fosse
um promontório, como se fosse
o solar de teus amigos, ou o teu próprio:
a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti.

Meditação XVII (1623)
John Donne, Inglaterra, 1572-1631

No man is an island,
entired of itself.
Each is a piece of the continente,
a part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
or of thine friend's were.
Each man's death diminushes me,
for Iam involved in man kind.
Therefore, send not to know
for whom the bell tols
It tolls for thee.

27/04/2020

A mesma praça




A praça está vazia de pessoas. Debaixo dos bancos há ninhos de pombos misturados com carcaças de ratos e de pardais. O coreto, que outrora era usado para apresentações de uma banda que ali tocava em dias de festas, hoje está ocupado por uma matilha de cães que brigam entre si pelo o que resta dos ossos do poder. A maior parte da população da cidade assiste assustada, pelas frestas de suas janelas, a esse grotesco espetáculo. Uma pandemia de vírus se abateu sobre o lugar. Não se sabe qual deles é o mais devastador: um deles é invisível, é letal, mas se observadas, rigorosamente, medidas preventivas, muitas mortes poderão ser evitadas. Houve uma aparente mudança no comportamento das pessoas: aquelas que hoje ocupam o coreto, usavam máscaras  antes da pandemia, enquanto a população expunha sua cara de desvalida, de abandonada. As máscaras dos cachorros foram ao chão. Hoje a população recorre ao uso de máscaras para proteger-se de tantos vírus! E os ossos, ah!, os ossos? Quem é que sabe o que poderá acontecer após essa cachorrada?

24/04/2020

De Antonio Cândido *




"Todos sabemos que a nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização." - O direito à Literatura

*Antonio Cândido, sociólogo, crítico literário, escritor, nasceu no Rio de Janeiro em 1918 e faleceu
em São Paulo em 2017. 

17/04/2020

Diário de bordo III





O mar continua revolto, muitas turbulências;tubarões de presas afiadíssimas e famintos de ganância e poder, são cada dia mais numerosos. Estou cansada de remar, de cantar, de dançar no vaivém dessas ondas...Até quando persistirá essa tempestade?

O barco!
Meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não...!

Navegar é preciso
Viver não é preciso

O Barco!
Noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada...!

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio...!

Navegar é preciso
Viver não é preciso

"Os argonautas", de Chico Buarque de Holanda

06/04/2020

Diário de bordo - II




Meu barco é de papel, tão frágil quanto o momento que atravessamos; tão frágil quanto somos todos, sem exceção. Muitos naufragam antes de concluir a travessia que lhes cabe, outros tentam remar contra
a maré, ignorando sua pequenez, estrebuchando para todos os lados. Em vão.
Vou tentando atravessar essa tormenta que se abateu sobre a humanidade. Dias melhores advirão, quem sabe? Enquanto isso, recorro a música, a poesia, a arte, recorro a ferramentas que podem me  tornar uma pessoa melhor enquanto estou por aqui.

O acorde inicial

Que a palavra se perca num rumor de queda
por indistintos círculo quebrados
e com o ser se dilate no silêncio e no olvido.
Que os instrumentos se apaguem e rasguem as imagens entre a adolescência do mundo e o perfume
do abismo.
Que a cor e a música recrudesçam e se extingam
como se um pincel pulverizado e um violino em cinzas, produzissem o acorde inicial e a junção com
o invisível.
Abandonando o teclado das certezas,
que a palavra roce as espécies desaparecidas
encontrando as fugitivas simetrias
e os frescos tornozelos da nascente.
Que não seja mais que o brilho de uma chave perdida, uma escada de traços que nunca hão de chegar.
Que respirem os elos, que os detritos falem
ao conjunto que se forma nos flancos do vazio.
Que sejam um sopro cego, um oblíquo trajeto na
distância, reunindo o inaceitável e a conivência inaugural, sem que nada perdure, sem que nada pereça, no alvéolo onde repousa a substância salva

Antônio Ramos Rosa, Faro(Portugal)
1924-2013

01/04/2020

Diário de bordo



A chuva cai lenta e suave sobre as ruas da cidade deserta e silenciosa; todos estão isolados em suas ilhas domésticas.
Continuo trabalhando na construção do meu barco de papel, e me perguntando para onde foram os que moravam nas ruas, ao relento; como estarão os que vivem amontoados em cubículos, em barracos, em favelas, sem ter o que comer? Sem ter como proteger-se desse coronavírus?
O choque entre as nuvens anuncia que vem barulho por aí; temporariamente não poderemos consumir; a montanha de consumos supérfluos que inventamos está desabando, o dinheiro acumulado não tem sido suficiente para comprar a vida. Vale a pena tanto desperdício? Somente o medo da morte é capaz de deter essa corrida desenfreada para o "progresso".
Silenciosa, sutil e imprevisível, "a indesejada" está sempre ao nosso lado, desde o dia em que nascemos. Mas a ignoramos, por medo. E quando o medo nos domina somos capazes de tudo, até de nos autodestruir, de agredir os que nos cercam, de destruir o meio ambiente, pensando que agindo desta maneira seremos poderosos, invencíveis. E no entanto, um minúsculo e invisível vírus pode nos destruir a todos em pouquíssimo tempo... 

29/03/2020

O barco, meu coração...

Hyeronimus Bosch, Nau dos insensatos


I - Nestes tempos de inimigos, (invisível e visível), venho tentando construir um barco de papel numa tela virtual para navegar, a despeito da tempestade que se avizinha. A tarefa é árdua e difícil. Receio que ela esteja apenas começando; estou insegura e angustiada; não sei se ou quando terminarei a construção desse barco. Há uma longa travessia a ser
percorrida. Ainda assim, continuarei tentando: um dia de cada vez. Meu coração não se cansa de bombear sangue para os rios que trafegam para outros corações que estão neste mesmo barco. O mar está revolto, repleto de embarcações de insensatos. Tempestades e intempéries fazem parte dessa longa travessia que é o viver. NAVEGAR É PRECISO!

21/03/2020

VITA BREVIS, ARS LONGA ( Hipócrates )




Ars longa; Vita Brevis

Tão longa a arte pra tão curta vida
Tão curta a vida pra tão longos danos
Tão longos dias pra tão curtos anos
Tão curto o tempo pra tão longa vida

É tanta coisa pra ser sabida
Em poucos anos céleres e insanos
Que a vida voa breve em desenganos
Temo-la assim vivida e não vivida

Célere a vida e lento é o conhecer
Lento é o saber e célere é o vento
Que sói sumir bem antes do saber

Vida breve, fugaz conhecimento
Fugacidade que é inerente ao ser
Que mais servira se tivesse tempo.

Gil Fenerich, professor de música e língua portuguesa, poeta e violeiro. Monte Alto(SP)