DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

01/02/2026

Sem nexo...

 


Era um azul visto lá de cima, espacial. Era um ácido como o clorídrico fabricado no estômago. Podia-se navegar em suas águas lacrimosas mesmo nos dias ensolarados e salgados. Era isso ou aquilo que não se pode dizer porque não se sabe exatamente o que é. Era um tudo e era um nada embora pairasse no ar um não sei o quê do existir... Decifras-me? Não sei de nada jamais soube. Era o verbo que existia, mas qual? Quem ensinou a conjugá-lo sem ranger os dentes?

25/01/2026

Dor pãnica

 Oswaldo Guayasamin


Esparrama-se sobre o corpo inteiro como um ovo que vai rompendo a casca aos pouquinhos até espargir-se por inteiro, como se ainda estivesse nascendo. Esparrama-se e não sai como se a dona do pedaço fosse. Dizem que seu ancestral vem lá da mitologia grega, ou seja, é uma dor arcaica ou atávica, sei lá...

Seria filha de Pan, aquele deus/homem com chifres na cabeça e pés de bode? Aquela criatura que a mãe assustada o abandonou, sendo também renegado pelo pai? Segundo o mito Pan afastou-se de todos, refugiando-se nos bosques, convivendo com pastores e protegendo seus rebanhos. Embora buscasse o amor das ninfas era sempre rejeitado, e foi numa de suas tentativas de sedução que ele criou sua flauta de juncos oriundos da ninfa Sírinx. Da dor, da frustração, do sofrimento Pan conseguiu criar um instrumento musical para si e para os que o rejeitaram.

08/01/2026

DESAFIO !

 




Contando contos pelos cantos perdi a conta das voltas e das revoltas ocorridas nos dias e horas desvividas. Estou sem palavras para nominar certas coisas estranhas que estão surgindo avassaladoramente a cada momento. Dezenas centenas milhares milhões trilhões de mãos e bicos de penas de gansos, de lápis e canetas e máquinas robóticas, de computadores; trilhões zilhões de algoritmos, de IAs para copiar a engrenagem do cérebro humano. O vento que sopra no deserto também é capaz de atordoar certas cabeças...

23/12/2025

Versos de Natal

 


Espelho, amigo verdadeiro,

 Tu refletes as minhas rugas, 

Os meus cabelos brancos, 

Os meus olhos míopes e cansados. 

Espelho, amigo verdadeiro,

 Mestre do realismo exato e minucioso, 

Obrigado, obrigado! 

Mas se fosses mágico, 

Penetrarias até ao fundo desse homem triste,

 Descobririas o menino que sustenta esse homem,

 O menino que não quer morrer, 

Que não morrerá senão comigo,

 O menino que todos os anos na véspera do Natal

 Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.


Manuel Bandeira Recife(PE) 1886-1968

15/12/2025

Dias também não...

 





Em noites quentes na janela do umbigo não passa sequer uma nesga de vento para refrescar os neurônios arrítmicos incrustados na cachola. Cachola que está fora da caixa, diga-se de passagem. Uma passagem que não passa, porque não tem porta portão porteira ou portaria, mas que por ela passam bois boiadas e até boiadeiros, por que não? E com o beneplácito do porteiro que nem sempre está presente no momento em que estoura a boiada. E aí é um tal de - não vi não senhor - não ouvi não senhor. E assim dias sim, dias não, também nós não estávamos lá. Todos cegos, surdos e mudos. Tá bom assim? Ou é melhor em banho-maria?

01/12/2025

Autonomia

 




A mão o lápis e o caderno são amigos de longa data. O lápis e o caderno andam sempre um ao lado do outro, e sempre ao alcance da mão, que anda para lá e para cá, sempre sobrecarregada, mil afazeres! Tudo por conta do pensamento, o comandante de todos, é o que supomos, porque o lápis, quando desenha as letras fala mais de si do que do texto.

06/11/2025

Inutilidade...!?

 




Caminho imóvel, calada. Mesmo com todas as portas e janelas  fechadas sinto um cheiro podre no ar; vejo a fumaça de olhos fechados, um rio de sangue além fronteiras espalhando-se nas ruas das cidades. Ai! até arderam meus pulmões. Tantas línguas são faladas no mundo! quantas vozes são ouvidas? Sherazade simboliza a poesia do Iraque, onde também viveram os quarenta ladrões, hoje espalhados mundo afora...Uns criam a guerra, outros tentam abafar o estrondo dos seus canhões. Genocídios, holocaustos, erros repetidos, lições não aprendidas.

O quê fazem com a poesia dos seus poetas?

28/10/2025

Três poemas de OLGA SAVARY *

 




Amanhã


Se devoras teus sonhos

quando se ensaiam apenas

e secamente represas

essa linguagem de flores

e teu desejo de asas

que restam subterrâneas,

quem será tu, depois

do grande sono, amanhã?


Não te abandones um só momento

sou inconstante como a nuvem

sou mutável como o vento.

Não te dês inteiro um só momento

porque um dia te quererás de volta

e levarás somente um fragmento.


Auto despedida


Há algo nas manhãs que não entendo agora

e a um grito de minhas pernas não atendo.

Ainda depois da noite, noite me espia

e sonho dúvidas enormes e imóveis

como a imobilidade das aranhas.

Tão pouco tempo - e tenho de deixar-me

e queria nunca ter de repartir-me.

Começa a raiva da saudade que inventei vou ter de mim.


Sextilha Camoniana


Daqui dou o viver já por vivido.

Quero estar quieta, sozinha agora,

igual a uma cobra de cabeça chata,

ficar sentada sobre meus joelhos

como alguém coagulado em outra margem.

Daqui dou o viver já por vivido.



* Olga Savary nasceu em Belém(PA)em 1933. O pai era russo e a mãe paraense. Foi poeta, romancista, contista e tradutora de mais de 40 obras de literatura hispano-americana, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Pablo Neruda, Carlos Fuentes, entre outros. Ficou conhecida como a primeira mulher brasileira a publicar um livro de poemas eróticos. Foi casada com o cartunista Jaguar, com que teve dois filhos. Faleceu em 2020 em Teresópolis(RJ).

05/10/2025

Equilibrista




Chamava-se Aurora até o dia em que de repente o sol desamarelou-se, e ela então tornou-se Beatriz. Vida vai, vida não volta; Aurora caiu do cavalo grego, Beatriz ficou por um fio de arame. Hoje dança na corda bamba de um salão azul a ver se fatura alguns trocados, ao lado do piano quebrado que toca apenas a nota Dó.

Todos os dias são iguais, mas são diferentes...