22/05/2022

Indagações

 Albrecht Dürer



Sentada diante de uma tela em branco tento extrair minúsculas partículas de lucidez para preencher esse vazio que vem insistindo em instalar-se em meu cérebro. Um vazio que surge quando quase tudo já transbordou, ultrapassou os limites do que é possível, porque o vazio, quando excede, enche! Nada, não sai nada; mesmo vendo, sentindo na minha própria carne, na tua, na de milhões de pessoas que habitam essa terra, a carência de alimentos, a fome, a falta de moradias, de saúde, de educação, de bem-estar, de uma vida digna. Uma mistura de sentimentos contraditórios dialogam, e ao mesmo tempo divergem dentro de mim: impotência, medo, covardia, ou hipocrisia ou comodismo? Essa aparente diversidade de sentimentos tem, paradoxalmente, me deixado sentada diante, e não à beira da indiferença. Continuarei indagando enquanto não sair deste labirinto...

16/05/2022

Um poema de Linda Pastan *

 

Estou aprendendo a abandonar o mundo

antes que ele me abandone.

Já desisti da lua

e da neve fechando minhas cortinas

contra as reivindicações do branco.

E o mundo levou

meus pais, meus amigos.

Abandonei as linhas melódicas das colinas,

passando para uma paisagem plana, desafinada.

E todas as noites eu desisto do meu corpo,

membro por membro, em movimentos ascendentes

através dos ossos, em direção ao coração.

Mas a manhã chega com os pequenos 

adiamentos do café, e do canto dos pássaros.

Uma árvore do lado de fora da janela,

que há pouco era apenas uma sombra,

recuperou seus galhos frondosos

ramo por ramo.

E enquanto eu retomo o meu corpo,

o sol pousa mansamente em meu colo

como se quisesse fazer as pazes.


* Linda Pastan é uma poeta norte-americana de origem judia. Nasceu em Nova York, em 1932. No próximo dia 29 de maio completará noventa anos! Já publicou 15 livros de poemas. 

09/05/2022

Nem, nem...




Faz frio, mas está quente. Há risos, enquanto todos choram. Um corte no céu; da boca abre-se um rio de lamentos que repercutem pelas costas das encostas. Não cheguei, nem parti. Fui esquadrinhada, esquartejada. Quadricularam-me em bolhas de sabão, e por isso vivo escorregando em cascas de bananas. As bananeiras não têm galhos, mas os macacos vivem pulando, jogando suas cascas para que escorreguemos.

04/05/2022

O medo

 Man Ray




Porque há para todos nós um problema sério...Este problema é o do medo

Antonio Cândido, Plataforma de uma geração.


Em verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino, incompleto.


Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios

vadeamos.


Somos apenas uns homens

e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

doenças galopantes, fomes.


Refugiamo-nos no amor,

este célebre sentimento,

e o amor faltou: chovia,

ventava, fazia frio em São Paulo.


Fazia frio em São Paulo...

Nevava.

O medo com sua capa,

nos dissimula e nos berça.


Fiquei com medo de ti,

meu companheiro moreno,

de nós, de vós: e de tudo. Estou com medo da honra.


Assim nos criam burgueses.

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivéssemos?


Vem, harmonia do medo,

vem, ó terras das estradas,

susto na noite, receio de águas poluídas. Muletas


do homem só. Ajudai-nos,

lentos poderes do láudano.

Até a canção medrosa se parte, se transe e cala-se.


Faremos casas de medo,

duros tijolos de medo,

medrosos caules, repuxos,

ruas só de medo e calma.


E com asas de prudência,

com resplendores covardes,

atingiremos o cimo

de nossa cauta subida.


O medo, com sua física,

tanto produz: carcereiros,

edifícios, escritores,

este poema; outras vidas.


Tenhamos o maior pavor.

Os mais velhos compreendem.

O medo cristalizou-os.

Estátuas sábias, adeus.


Adeus: vamos para a frente,

recuando de olhos acesos.

Nossos filhos tão felizes...

Fiéis herdeiros do medo,


eles povoam a cidade.

Depois da cidade, o mundo.

Depois do mundo, as estrelas,

dançando o baile do medo.


Carlos Drummond de Andrade, em A rosa do povo 

25/04/2022

Palavras que andarilham


Palavras trôpegas tropeçam pelas ruas da linguagem. Andarilham ao relento; como curtos-circuitos, desencapam fios, desconectando a chave geral da comunicação. Obscuridade. Caminham num arquejar de soluços cansados; cambaleiam entre as linhas que equilibram seu corpo frágil. É preciso resistir para que outras venham auxiliá-las, a despeito de máquinas ou avatares. Pássaros sobrevoam telhados para criar seus ninhos. Palavras voam à procura de vozes que as representem; seus pêlos se eriçam, saltam, transpiram, transbordam no suor que desliza sobre o fio da imaginação... E imaginação é uma capacidade, um direito,e a disponibilidade para voar tão ou mais alto do que os pássaros; não tem fronteiras, nem barreiras que a impeçam de ir além das coisas comezinhas, de preconceitos e falsos moralismos. Antes das palavras, ela já andarilhava embrionariamente no líquido amniótico que a gerou. Talvez seja por isso que as palavras têm força; sua matriz é o começo de tudo, é a própria vida, e sobreviverá ad infinitum...!

19/04/2022

Ao Tempo




Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando, andando, andando.

Tempo, vais para diante ou para trás?


Dante Milano, Rio de Janeiro - 1899-1991

12/04/2022

Perguntas sem respostas...

 Decifra-me ou te devoro




Onde está o menino que eu fui?

Está dentro de mim ou se foi?

Sabe que jamais o quis e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo crescendo para nos separarmos?

Por que não morremos os dois quando minha infância morreu?

E se minha alma se foi por que me segue o esqueleto?

( Pablo Neruda, O esqueleto)


*****


Quem fez a primeira pergunta?

Quem fez o mundo?

Quem disse a primeira palavra?

Por que se morre?

Por que se ama?

Por que se odeia?

Por que há o som?

Por que há o silêncio?

( Clarice Lispector, A descoberta do mundo)


*****


O olho que te vê

Não é olho porque tu o vês.

É olho porque te vê. 

Antonio Machado

03/04/2022

Ora, bolhas!




O ovo criou asas e voou, para ver a uva! Coitada, ficou viúva porque não via nada à sua volta. The book is on the table, pero ceci n'est pas un crayon; os livros não são mais escritos a bico de pena ou a lápis, viraram a mesa, ninguém mais senta-se em torno dela. Quem será que virou a mesa? As cabeças que outrora supunha-se pensantes, estão curvadas, hipnotizadas diante do seu objeto de desejo: o smartphone. Tudo indica que esse aparelhozinho é mesmo inteligente. Realizar tal façanha não é tarefa para qualquer um: - não me vejo, não te vejo, não olho para a frente, muito menos para trás ou para os lados. Ora, bolhas...!?

27/03/2022

Noite/Dia

 Ana Hatherly




Chuva a cântaros

choro a rios

abrolham

cachoeiras deságuam

nas encostas da alma

somente a dor conhece.

Tudo é silêncio

a natureza cerra os olhos

e dorme.

Se somos feitos de sonhos

como disse o poeta maior,

que nos juntemos a Morfeu para

quem sabe dormir uma noite

de verão

e acordar com o dia

trazendo o sol.

A chuva azuleja os dias

esfiapa o sol

sombreia a vida.

Noite e Dia - e os pensamentos

jogados na água escura dos rios.

19/03/2022

Pesquisa *

  "Divindade a água" - Adriana Varejão




Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.

Novalis


A gaivota determinada mergulha na água

verde. Há um tempo para o peixe

e um tempo para o pássaro

e dentro e fora do homem

um tempo eterno de solidão.

Muita vezes, fixando o meu olhar no morto,

vi espaços claros, bosques, igapós,

o sumidouro de um tempo subterrâneo

(patético, mesmo às almas menos presentes).

Vi, como se vê de um avião,

cidades conjugadas pelo sopro do homem,

a estrada amarela, o rio barrento e torturado,

tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.

Senti o hálito do tempo doando melancolia

aos que envelhecem no escuro das boates,

vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo

com uma tensão de nervos feridos, e corações espedaçados.

Se acordamos e ainda não é madrugada,

sentimos o invisível fender do silêncio,

um tempo que se ergue ríspido na escuridão.

Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.

O tempo goteja

como o sangue.

Os cães discursam nos quintais, e o vento,

grande cão infeliz,

investe contra a sombra.

O tempo é audível;

também se pode ouvir a eternidade.


* Paulo Mendes Campos, jornalista, cronista e poeta.

Belo Horizonte(MG), 1922-1991