16/07/2019

108 anos! E no entanto...

Arcos da Lapa, Rio de Janeiro, 1911


[...] Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando e as coisas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.
E ele se lembrava que há bem cem anos, ali, naquele
mesmo lugar onde estava, talvez naquela mesma prisão, homens generosos e ilustres estiveram presos
por quererem melhorar o estado de coisas de seu tempo.
[...] Não havia mais piedade, não havia mais simpatia, nem respeito pela vida humana; o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca, porém clandestino, para que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da época, com forças de religião, com os seus fanáticos, com os seus sacerdotes e pregadores, e ela agia com a maldade de uma crença
forte, sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos.

Trechos do livro Triste fim de Policarpo Quaresma, de
Afonso Henriques de Lima Barreto(1881-1922), escrito quando tinha apenas 30 anos de idade, é considerada a sua obra prima. Nela podemos observar uma atualidade surpreendente, e a denúncia dos males da sociedade brasileira da época,
males estes que vêm se arrastando através dos tempos: a burocracia, a bajulação, a injustiça social, os problemas da terra, dando-lhe um caráter quase profético!

14/07/2019

Azulejos desbotados




Não sei rimar
não uso fita métrica
para medir palavras
em versos
não sei costurar
palavras...

sofro de arritmias:
em concertos de eruditos
às vezes
ensaio um canto desafinado
e
quando a noite chega
palavras gotejam sobre
o leito insone dos olhos

- máscaras fantasmas fantoches
criam asas e voam por
terras desconhecidas
entre nuvens de papel machê
e uma realidade de azulejos
desbotados

07/07/2019

Por um fio

Francisco de Goya


a faca
o fio
afiada
água-lâmina

mãos que amolam
acariciam a navalha
cortam as entranhas
da carne em agonia

morte em sépia
arrastada pela dor
a espreitar da janela

o olhar cai sobre
um passado de sombras
recicladas

02/07/2019

"Dias não menos dias"




Chora-se com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras vibrações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde

e a tarde
 pendurada no raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa última.

**

Estou atrás

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra

Ana Cristina Cesar - Rio de Janeiro(1952-1983)

23/06/2019

De Padre Antonio Vieira*

Capela dos ossos, Évora(Portugal)


O que vemos ser praticado em todos os reinos do mundo é: em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao paraíso, são os ladrões que levam consigo
os reis ao inferno...

Tempos houve que de demônios falavam e o mundo os ouvia, mas depois que ouviu aos políticos ainda é pior o mundo; o papagaio fala, o rouxinol canta, mas só os agrada e recria, e até as grandes aves de rapina reconhecem a mão de quem recebem o alimento.

No Brasil, conjugam por todos os modos o verbo roubar.
                  em "Sermões"

* Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e faleceu em 1697.

14/06/2019

"Aos mestres, com desrespeito"

Cabaceiras-PB



Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.

***

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento: escrevemos
cada vez mais, para um mundo
cada vez menos.

Alberto da Cunha Lima, Jaboatão dos Guararapes (PE) - 1942-2007. Escritor, jornalista e sociólogo.

10/06/2019

As Belas Artes *

Camille Claudel


Formosíssimas senhoras,
Amadas filhas dos Céus,
Sois quatro auroras raiando,
Ou quatro risos de Deus.

Às vezes penso - a Pintura
É de todas a mais bela,
Pois que fala, sem ter vozes,
Segredos por sobre a tela!

Outras vezes digo - a Música
Tem sua primazia,
Quando revela os encantos
 Da doce melancolia!

E da Escultura, que digo?
Ao bronze anima e dá vida,
Transformando o ferro bruto
Em viva estátua querida!

Como a Poesia embeleza
As suas irmãs amadas!
Pintura, Escultura e Música
Andam com ela abraçadas!

Nenhuma excede em beleza
As outras irmãs formosas,
Se esta canta, aquela fala,
Esta outra desenha as rosas!

Mas quem quiser separá-las
Mate primeiro a Poesia,
Que as outras irmãs coitadas,
Morrerão no mesmo dia!

* Maria Clara Vilhena da Cunha Santos - nasceu em Pelotas(RS), 1866-1911 - Escritoras Brasileiras do Século XIX - Vol. II

30/05/2019

Face a face

Anita Malfatti





Olho para ela. Ela me olha. Olhamos uma para a outra sem nos vermos. Tento falar com ela, ela tenta falar comigo, e ficamos as duas durante anos nessas tentativas. - Quero falar de qualquer forma - converso horas contigo olhos nos olhos e imagino que estás me ouvindo. Tu me olhas me ouves, mas não vês a hora em que eu acabe de falar porque não escutas o que estou falando. E passamos anos a fio nesse diálogo de mão única, de rua sem saída, entrando em becos dobrando esquinas atravessando pontes entrando em túneis mal iluminados; entre nós há sempre um sinal fechado. Penso ter medo dela. Ela não, é autônoma, independe de mim; se eu não conseguir um acordo com ela não tem problema: milhares de outras mãos sabem muito bem como tratá-la, como dar-lhe uma expressão. Ela é fugidia, talvez escorregadia, sei lá. Chega de repente, e se vai da mesma forma, escapa-me. Talvez ela seja como os sonhos: parecem reais, mas quando acordamos já se foram, vestem-se diferente;
aliás, eles sempre se apresentam despidos, nós é que tentamos vesti-los, mas aí já é tarde, foram-se!
Enquanto fechamos os olhos tudo flui às  maravilhas, mas fugiu não está mais aqui - ela - ao abanar leque, num átimo de segundo mudou completamente. Eu nem tinha imaginado...

Dia claro noite escura; sol e chuva pedra e água. É areia e barro e pó!

20/05/2019

Sonambulismo III




quando me viste
eras como a lua
toda nua
noite escura brilhando
no espelho refletindo
o meu retrato

e eras sol
eras vida

extraíste soluços
da dor
neles me navegaste
hoje teu sonho é
quimera
simulacro da alegria...