24/07/2021

Fantasmagoria




Voou, voou, pluft! Não era um fantasminha, era uma fantasmagoria. Um bloco de concreto, e na mão uma pena molhada de sangue; e a cada movimento um corte, uma hemorragia de vidas ceifadas. Leviatã?              Uma sociedade mergulhada no medo da morte, um povo que abre mão de sua liberdade em prol de uma falsa segurança.

18/07/2021

Vestida de Noite



Ana Hatherly



A palavra sempre vem vestida de Noite sem estrelas. Tem seu corpo envolto numa capa tosca na forma, que de tão fina se desmancha nos poros azuis do infinito. A mãe do verbo vem perdendo seus significados nos dicionários; as regras gramaticais caíram da árvore sobre o solo do abandono, diante da banalidade da vida: corpo, folhas e frutos apodrecem nos beirais das ruas entulhadas de carros, de lixo. Sob olhares indiferentes, passos apressados para o vazio.                            O saber transformou-se numa caixa preta?

12/07/2021

Troca-troca



Troquei as máquinas de lavar roupas e louças por um triturador de ervas daninhas. Não foi uma operação muito fácil de realizar, em decorrência das semelhanças entre os entes envolvidos: trigo-falso, discordantes, psicopatas, inseguros, repulsivos, odiosos, execráveis, falsos moralistas, ladrões, fundamentalistas, fanáticos religiosos, estavam todos juntos e misturados. Mesmo assim, resolvi correr o risco; estão agora em processo de centrifugação; vamos ver no que vai dar. Não me surpreenderei com o lixo e a lama que será expelida pelo cano da máquina. Quem sabe ainda restará um rebotalho de esperança...(nem seja!)

02/07/2021

Reflexões

 




Uma pétala uma pata uma porta: o ferro o ferreiro a ferramenta e a fechadura; o dia o sol a luz o pensamento e a razão; a noite a escuridão o sentimento e a reflexão. Um desencontro entre duas ou mais pessoas: solidão. A queda do muro que te protege apaga tua memória, impede que refaças o caminho de volta. Tijolos amontoados a céu aberto formam um bloco de concreto em teu peito. A casa caiu, o chão se abriu para a boca de uma onça, e muitos correm para ela acreditando ser o paraíso. A mão desobedece, a fenda difunde-se - sangramento das veias  na orla do mar; suas ondulações dançam em sobressaltos, uma pororoca de pensamentos, de ideias que ora se contrapõem, ora se unem. Teu olho burila tua consciência: visões que transbordam num piscar de olhos o nascimento de pequenas flores selvagens.                                          A casa caiu e já não sabes por onde recomeçar. 

Quem és tu?

25/06/2021

Ramargens

 




Brotos que se desprendem das mãos escapam pelos dedos, desmembrando-se em galhos; formam ramos de palavras entrelaçadas de uma árvore quase esquecida. Páginas amarelecidas pela voragem do tempo, folhas secas entre palavras enredadas em longos talos a exibirem espinhos pontiagudos; reproduzem-se em direções opostas. Seu tronco largo e profundo possui raízes que se bifurcam pelo interior da terra; privadas da luz do sol, crescem desordenadamente, formando verdadeiros hieróglifos incompreensíveis, impenetráveis: uma teia de sombras, um tapete transparente, quase invisível. Imagens caleidoscópicas que ofuscam os olhos diante de tanta clareza.                                        A àrvore-Mãe, majestosa e soberana um dia, está isolada de seus filhos; desgarrados de suas origens, tornaram-se vulneráveis e vítimas de aventureiros gananciosos, predadores por excelência. Assim, também as mãos já não conseguem controlar o nascimento dos brotos de palavras: desordenadas e rebeldes diante de tantas ervas daninhas, transformaram-se em ramos, à margem...

17/06/2021

Atalho



Ao passar por uma transversal de palavras escolheu um atalho para alinhar alguns vocábulos de asas caídas. Estavam bastante machucados, cheios de hematomas, devido a uma discussão que tiveram com um grupo de expressões vulgares. Após alojá-los convenientemente num caderno, arrancou-lhes as penas ensanguentadas, envolveu-os com uma fina camada de vocativo carinho, para, em seguida, derramar sobre eles um balde de adjetivos demonstrativos, afim de protegê-los da vulgaridade de certos compêndios virtuais tão em voga nas redes "sociais". 

08/06/2021

Criaturas mínimas



Subiu o morro como quem não quer nada. Queria arrebentar a cara do Sol, que andava de caso com a Lua em plena luz do dia! Um meteoro caiu sobre a face da Terra estilhaçando as vidraças do planeta. Foram cacos por todos os lados; bocas foram fechadas, línguas arrancadas, corações despedaçados.                                                                                    Quando olhou lá do alto, percebeu a enorme pequenez da cidade, a miniaturização das criaturas. Uma densa névoa atravessou os  seus olhos, não viu mais nada...! 

03/06/2021

Da incompletude

 



Todos sabemos que a nossa época é profundamente

bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao

máximo de civilização. 

Antonio Cândido em O direito à Literatura


Com a cara achatada nos polos e dilatada no equador, arredondo os dias para não cair no planisfério dos obtusos; os olhos tentam ampliar cada vez mais sua visão de mundo, perscrutando a diversidade de ângulos que a vida oferece a este planeta. Tenho pensado no como ocorrem as conexões sinápticas do cérebro com o ambiente que nos rodeia. Por que existem alguns seres que são totalmente destituídos de cérebro, incapazes de raciocinar, de refletir sobre qualquer coisa ou situação?      A diversidade planetária é infinita. Por exemplo, o parasita é um organismo(ou indivíduo), que se nutre do sangue ou da seiva de outro ser; é aquele que vive às custas dos outros; a ameba, é um protozoário unicelular, sem cérebro, e que, não tendo capacidade para produzir seu sustento, alimenta-se de seres vivos. Nas sociedades constituídas de seres humanos supostamente pensantes, podemos também encontrar criaturas completamente desprovidas de cérebros. Um bom exemplo disso, é o psicopata, indivíduo perverso, que sofre de distúrbios psíquicos que afetam sua forma de interagir socialmente. Seu comportamento é irregular e antissocial; em sua aparência física, apresenta as mesmas características dos outros, mas em suas atitudes atuam como os vírus, agentes infecciosos, acelulares; invisíveis a olho nu, são capazes de destruir toda a colônia de células saudáveis. Sob uma aparência "normal", o psicopata é capaz de conduzir toda uma sociedade à morte, ao caos social. 

31/05/2021

Machado de Assis e as vacinas




Crônica, 9 de dezembro de 1894

“Tudo tende à vacina. Depois da varíola, a raiva; depois da raiva, a difteria; não tarda a vez do cólera-morbo.

O bacilo-vírgula, que nos está dando que fazer, passará em breve do terrível mal que é, a uma simples cultura científica, logo de amadores, até roçar pela banalidade. (…)

Todas as moléstias irão assim cedendo ao homem, não ficando à natureza outro recurso mais que reformar a patologia.

Não bastarão guerras e desastres para abrir caminho às gerações futuras; e demais a guerra pode acabar também, e os próprios desastres, quem sabe? obedecerão a uma lei, que se descobrirá e se emendará algum dia.


Sem desastres nem guerras, com as doenças reduzidas, sem conventos, prolongada a
velhice até às idades bíblicas, onde irá parar este mundo? Só um grande carregamento, ó doce mãe e amiga Natureza; só um carregamento infinito de moléstias novas.


Mas a vacina não se deve limitar ao corpo; é preciso aplicá-la à alma e aos costumes, começando na palavra e acabando no governo dos homens.

Já a temos na palavra, ao menos, na palavra política. Graças às culturas sucessivas, podemos hoje chamar bandido a um adversário, e, às vezes, a um velho amigo, com quem tenhamos alguma pequena desinteligência. Está assentado que bandido é um divergente. Corja de bandidos é um grupo de pessoas que entende diversamente de outra um artigo da Constituição.

Quando os bandidos são também infames, é que venceram as eleições, ou legalmente, ou aproximativamente. (…)

Conhecido o princípio, sabido que tudo deriva de um micróbio, inclusive o vício e a virtude, obtém-se pelo mesmo processo a eliminação de tantos males.

O boato tem sido descomposto de língua e de pena, é um monstro, um inimigo público, é o diabo, sem advertirem os autores de nomes tão feios, que o boato é a cultura atenuada do acontecimento. Daqui em diante a história se fará com auxílio da bacteriologia.


As eleições, – uma das mais terríveis enfermidades que podem atacar o organismo social, – perderam a violência, e dentro em pouco perderão a própria existência nesta cidade, graças à cultura do respectivo bacilo.

Aposto que o leitor não sabe que tem de eleger no último domingo deste mês os seus representantes municipais? Não sabe. Se soubesse, já andaria no trabalho da escolha do candidato, em reuniões públicas, ouvindo pacientemente a todos que viessem dizer-lhe o que pensam e o que podem fazer. (…)”

26/05/2021

Fragmentos provisórios

 




Cíclope ciclópico utópico bucólico...síndrome de lamentos jazzísticos pendurados nas árvores pelo pescoço....Aranha, aranha, caranguejeira, a bicha é feia mas é faceira, foi no doutor se receitar, o doutor disse: - é melhor morrer! Telêmaco Thelonius Andrômaco Andrômeda Stanislau Rabelais - não seja cruel, seu Manuel, abra a boca e feche os olhos...Ô mundo cão da gota serena, tá parecendo com os tempos idos de Gilgamesh, e olha que já lá se vão milênios... Mas é isso mesmo o tempo é como a roda da desfortuna: de tempos em tempos roda ao contrário, empaca e descompassa - passa passando sem passar, mas não para, cheio de contratempos...                                                                                  Eh vida velha besta, a gente pensa que se renova e cresce pra baixo, feito cabelo que se estica quando puxamos mas quando solto encolhe de novo! Mergulha submerge afunda e emerge entre algas protozoários hydras e cobras e lagartos verdes e amarelos e roedores implacáveis...    Conversas fiadas tecidas por dias e noites nos palácios, nas casernas e masmorras - castelos que desmoronam, fortalezas reconstruídas, ascensão e queda de supostos impérios invencíveis. Apesar dos cães, o sol há de avermelhar este céu escuro que ainda paira sobre nós.