24/03/2019

Desenho




Passava dias traçando linhas noites percorrendo corpos com as mãos ía até os pés - caminhava pela cabeça contornava o rosto arqueava as sobrancelhas parava nos olhos difíceis de penetrar.
Torneava a cintura parava nos mamilos e escorregava no sexo
sem conseguir entrar na misteriosa caverna. Deu forma a figuras
que se tornaram imaginárias...
E, de tanto insistir nesse exercício suas mãos deformaram-se adoeceram de dor de cansaço. Tentando dar vida a criaturas inanimadas perdeu seu principal instrumento de trabalho: parte de
seu corpo foi incorporado àquelas linhas...
Dizem que existem abismos que nos fazem criar, outros nos paralisam.

16/03/2019

Guerra

Mariana(MG), 2015



Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidas na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...
- e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
- tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-1964) em
Mar absoluto



09/03/2019

Hora de voar




O poema depois de pronto
ainda luta com o poeta
e vai crescendo na gaveta,
onde não cabe uma esperança.

Cresce em seguida no meu bolso,
muito menor para contê-lo.
O poema, depois de pronto,
quer-se mostrar, como as crianças.

Fica assustado no casaco
e parece que tem meus olhos.
(Eu lhe acendi o último fósforo
às duas horas da manhã.)

Dentro de mim se move alguém
sempre a julgar-se muito alto,
mas fica na ponta dos pés
quando procura ser notado.

Salva-me na Terra este grande
pudor de mostrar o poema,
como se fosse uma das partes
mais verdadeiras do meu corpo.

*****

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,
uns jõoes batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, jornalista, sociólogo e poeta. Jaboatão dos Guararapes(PE)1942-2007.

18/02/2019

"Ai de ti, Copacabana" (trechos)



Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
Ai de ti, Copacabana, porque te chamaram a Princesa
do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.


Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.



Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante
o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de
suas ondas.
Grandes são os edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar; mas eles se abaterão.
[...]
Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.
Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
Antes de te perder eu agravarei a tua demência - ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra o teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
[...]
A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto 5, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis tudo passará.
[...]
Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Crônica escrita em 1958 por Rubem Braga - Cachoeiro de Itapemirim(ES), 1913-1990. 

16/02/2019

De Sophia de Mello Breyner Andresen




Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

10/02/2019

Jardinagem




Plantei um pé-de-conversa
no céu da boca.
Nas noites de lua cheia
há concertos musicais
e saraus de poesia!

03/02/2019

De ossos e carcaças




Quanto mais se vive mais se morre. Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo. E, à medida que os dias passam perdemos nosso tempo nesse planetinha habitado por uma infinidade de criaturas insignificantes, mesquinhas, mas sobretudo, dotadas de ideias megalomaníacas. Os ossos do corpo tornam-se frágeis para suportar o peso de tais cabeças entupidas de egoísmo, de ganância e de sede de poder.
Os ossos do ofício tornam-se oficiosos, ofídicos, ordinários. São como panos de limpar o chão: chega um tempo em que é obrigatório jogá-los fora, sob pena de contaminação de toda a nossa casa. Carcaças ambulantes, engravatadas, tentam conduzir
os destinos do país. A coluna vertebral, o alicerce da sociedade está contaminado pelo câncer, que avança
a passos largos sobre todos os membros desse alicerce.
Quantos gritos desesperados de dor, de fome, de injustiças e de mortes, serão necessários para que pratiquemos um exercício tão simples, mas fundamental, que é o movimento, a mudança desse estado de coisas, a troca de ideias, o intercâmbio, o
debate? 
Tomaram de assalto nossa Casa Maior, que é o Congresso Nacional, enxovalharam a Constituição Federal, não querem mais "largar o osso", porque a
mamata é muito boa, é da grossa. E o pior de tudo:
é paga por nós, o povo brasileiro!

28/01/2019

O maior trem do mundo




O maior trem do mundo
leva minha terra
para a Alemanha
leva minha terra para o Canadá
leva minha terra para o Japão

O maior trem do mundo
puxado por 5 locomotivas a óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição

O maior trem do mundo transporta a coisa mínima do mundo,
meu coração itabirano.

Lá vai o trem maior do mundo
vai serpenteando, vai sumindo
e um dia, eu sei não voltará
pois nem terra nem coração existem mais.

(publicado no jornal Cometa Itabirano-1984)

Vila da utopia

Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres
cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que aprendi contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem marítima:
eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro.

Lira Itabirana

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

A dívida interna.
A dívida externa.
A dívida eterna.

Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

(Publicado no jornal Cometa Itabirano - 1984)

Carlos Drummond de Andrade - 1902-1987

22/01/2019

O Azul do Nada

Iberê Camargo


sobre o azul
dos meus olhos
passa uma cortina
encobre o teu rosto
mascara as palavras

no raso da água rasgo
meus olhos para
te ver
mas nada: as palavras
nadam

meus olhos sombras
sob o azul Nadir

15/01/2019

O galo e a raposa




No meio dos galhos de uma árvore bem alta um galo estava empoleirado e cantava a todo o volume. Sua voz esganiçada ecoava na floresta. Ouvindo aquele som tão conhecido, uma raposa que estava caçando se aproximou da árvore. Ao ver o galo lá no alto, a raposa começou a imaginar algum jeito de fazer o outro descer. Com a voz mais boazinha do mundo, cumprimentou o galo dizendo: - Ó  meu querido primo, por acaso você ficou sabendo da proclamação de paz e harmonia universal entre todos os tipos de bichos da terra, da água e do ar? Acabou essa história de ficar tentando agarrar os outros para comê-los. Agora vai ser tudo na base do amor e da amizade. Desça para a gente conversar com calma sobre as grandes novidades! O galo, que sabia que não dava para acreditar em nada do que a raposa dizia, fingiu que estava vendo uma coisa lá  longe. Curiosa, a raposa quis saber o que ele estava olhando com ar tão preocupado. -  Bem –  disse o galo –,  acho que estou vendo uma matilha de cães ali adiante. -  Nesse caso é melhor eu ir embora – disse a raposa.   -  O que é isso, prima? – disse o galo. – Por favor, não vá ainda! Já estou descendo! Não vá me dizer que está com medo dos cachorros nesses tempos de paz?!   -  Não, não é medo – disse a raposa –,  mas ... e se eles ainda não estiverem sabendo da proclamação?

Fábula de Esopo -  Tradução de Heloísa Jahn. São Paulo. Companhia das Letrinhas.