13/07/2018

As "anedotas de abstração", de Guimarães Rosa

Guimarães Rosa entre sertanejos, 1952


Em um dos prefácios de Tutameia, último livro que G.Rosa escreveu, logo de cara somos impactados(as)com o título: Aletria e hermenêutica. Segundo ele, "a estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota". Após discorrer um pouco sobre o tema, Rosa nos apresenta uma pequena antologia do anedotário popular dignos de nota, como os exemplos que se seguem:

Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua empurrando sua carrocinha de pão, quando alguém lhe grita: - "Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!..." Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai,
toma a barca, atravessa a Baía quase...e exclama:
- "Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa..."
De natureza análoga, nos apresenta aquela do cidadão que viajava de bonde, sendo o único passageiro, num dia de chuva, e, como estivesse sentado debaixo de uma goteira, perguntou-lhe o condutor por que não trocava de lugar. Ao que ele respondeu: - "Trocar...com quem?"

- "O açúcar é um pozinho branco, que dá muito muito mau gosto ao café, quando não se lho põe..."

"Sobre uma escada um dia eu vi
Um homem que não estava ali;
Hoje não estava à mesma hora.
Tomara que ele vá embora."

"O O é um buraco não esburacado.
O avestruz é uma girafa; só o que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia."

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo(MG) em 1908 faleceu em 1967. 
 

01/07/2018

Canto dos emigrantes




Com seus pássaros
ou com a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou com a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou com a lembrança de seu povo,
todos emigram

de uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o corpo de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

****

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo,
noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, Jaboatão dos Guararapes(PE) - 1942-2007

24/06/2018

Vent du Nord-Est




L'homme n'a pas encore commencé son travail: il est encore à preparer ses outils. Quand le temps sera venu, à peine gardera-t-il ce nom d'homme...
(Le grand vent qu'il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)
- Quelle acquisition, la mémoire!...
Quand l'homme aura reconnu qu'il n'est rien, alors cela pourra commencer.
Alors l'intelligence pourra ou disparaître, ou tout remplacer? Elle commencera
à bâtir.
Les questions, les énigmes nécessaires auront été avalées. Naître, souffrir, mourir ne feront plus de difficultés. Il y aura longtemps que l'énergie, les
matières, les êtres vivants auxiliaires seront à disposition. Le commerce, l'industrie, ne seront plus. Il y aura une seule scienceet ele sera presque
innée.
La terre ne sera qu'une ville. Rien ne sera plus naturellement...c'est-à-dire aveuglément

Paul Valéry, em Poésie perdue (1916) - Paris Gallimard, 2000


Vento do Nordeste

O homem ainda não começou seu trabalho: está ainda preparando suas ferramentas. Quando chegar o momento, conservará apenas o nome de homem...
(O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidades.)
- Que aquisição, a memória!...
Quando o homem tiver reconhecido que é nada, então poderá começar. Poderá então a inteligência desaparecer ou tudo substituir? Ela começará a construir.
As questões, os enigmas necessários terão desaparecido. Nascer, sofrer, morrer
não serão mais problemas. Haverá um tempo que a energia, as matérias, os seres vivos auxiliares estarão disponíveis. O comércio, a indústria, não existirão. Haverá apenas uma ciência e ela será quase inata.
A terra será apenas uma cidade. Nada mais será feito de forma natural - isto é,
às cegas.                                                                                         

18/06/2018

Poema dum funcionário cansado





A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita a cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
 com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só.
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado num dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
flor rapariga amigo menino irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só.

Antônio Ramos Rosa, Faro(Portugal) 1924-2013

12/06/2018

ASPIRAÇÃO

Adalgisa Nery por Ismael Nery


Desejo de desmontar meu corpo
E atirá-lo aos quatro ventos do mundo,
De enfrentar a luz do sol
Até que seu calor pulverize meus ossos,
De atirar-me no oceano
Até que o batimento de suas águas
Transforme meus cabelos em algas perdidas,
De gritar contra as montanhas
Até que o eco se ausente de minha voz,
De matar a consciência de mim mesma
Até que eu possa viver.

*****
PATRIMÔNIO

Pesam nos meus ossos
Os meus pensamentos
Choram nos meus olhos,
As visões neles crescidas,
Soluçam no torpor das minhas carnes
Ancestrais desalentos.
Sangram os meus pés
Na inútil andança
Da imaginação liberta.
Pulveriza o meu espírito
A solidão do suicida ignorado
E cresce assustadoramente dentro de mim
A calmaria que precede o fim.

Adalgisa Nery (Rio de Janeiro, 1905-1980)Autora de dois romances, várias crônicas, e sobretudo, vários livros de poemas. Foi eleita deputada três vezes tendo os direitos cassados em 1969. Foi casada com o pintor Ismael Nery e com o jornalista
Lourival Fontes. Entre livros publicados podemos destacar os de poemas, A mulher ausente, Ar do deserto, Cantos de angústia, As fronteiras da quarta
dimensão; os romances A imaginária e Neblina; e um livro de crônicas, Retrato sem retoque. 

04/06/2018

O preço da democracia




Doris Haddock, trabalhadora aposentada, caminhou de Los Angeles
até Washington: uma tartaruga atravessou os Estados Unidos,  de
costa a costa.
Ela se pôs a caminhar para denunciar a venda da democracia aos milionários que pagam as campanhas dos políticos, e caminhando, a cada passo, a cada etapa, seus discursos iam atraindo mais e mais
gente. Estava já há mais de um ano caminhando, frita pelos sóis, congelada pelos frios, voada pelos ventos, quando a neve a paralisou. Uma tremenda tormenta de neve despencou sobre as montanhas do oeste da Virgínia.
No povoado de Cumberland, Doris festejou seu aniversário. Noventa velinhas. E continuou a viagem de esqui.
Enquanto viajou através da neve, o último mês inteiro.
Enquanto nascia o século vinte e um, chegou à cidade de Washington. Uma multidão acompanhou-a até o Capitólio. Lá trabalham os legisladores, a mão de obra política das grandes empresas que retribuem seus serviços.
Da escadaria, Doris pronunciou um discurso lacônico. Apontando
para o pórtico do Capitólio, disse:
- Isso aqui está se transformando numa casa de putas.
E foi-se embora.


O voto e o veto

Corria o ano de 1916, ano de eleições na Argentina. 
No povoado de Campana, votava-se nos fundos do armazém de armarinhos.
José Gelman, carpinteiro de profissão, foi o primeiro a chegar. Ía votar pela primeira vez na vida, e o dever cívico inchava-lhe o peito. Naquela manhã, aquele imigrante que não havia conhecido
outra coisa além do despotismo militar na longínqua Ucrânia iria
ingressar na democracia.
Quando José estava ponto seu voto na urna, voto pelo Partido Radical, uma voz rouca paralisou sua mão:
- Você está se enganando de pilha - advertiu a voz.
E através da grade da janela surgiu uma carabina. O cano apontou
a pilha correta, onde estavam as células do Partido Conservador.

Eduardo Galeano( 1940-2015)  em Bocas do tempo.

28/05/2018

SOLIDÃO AO SOL



palavras em brasa queimam
o solo da garganta;
fagulhas de vocábulos espraiam-se
corpo adentro devastando
brotos incipientes desenraizados

solidão a pino corroendo o subsolo
da língua vibrante que estremece
entre vozes exangues

sol diluidor de palavras que
se evaporam no vendaval
de lembranças, tantas

solidão, areia
faca de amolar pedras

*****

Mergulho imperfeito

mergulho em ti
afogo meus desertos
na extensão de uma
língua curta e calada

sou tragada
pelas areias movediças
pelas águas escuras
da solidão

meu olhar desdobra-se
em espelhos quebrados
que refletem antigas quimeras
no lusco-fusco dos dias

*****

Por um fio

a faca
o fio afiado
água-lâmina
mãos que amolam
acariciam a navalha
cortam as entranhas
da carne em agonia

morte em sépia
arrastada pela dor
a espreitar da janela

o olhar cai sobre
um passado de sombras recicladas

Postado por cirandeira

23/05/2018

A POESIA ME PEDE A MÃO


Peça perdão a seus leitores pelas trevas de sua ignorância. E aconselhe-os a preencherem as lacunas
do silêncio com os voos da fantasia.



A poesia me pede a mão
sussurrando ao pé do ouvido:
pega caneta e folha.
Tira a roupa que te atrapalha.
Joga fora a máscara diária.
Vamos ao recôndito reino
lá pelas ínvias estradas
do soterrado labirinto
onde ardem tuas fogueiras
e tristes se amoitam sombrias.
Liberta, vem desbravar
matas afundar em rios
penetrar grutas e estradas.
Depois contempla o papel:
lá encontrarás em palavras
teus infernos e teus céus.

Baínha aberta

Cava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

Modo de amar

Amor como tremor de terra
abalando montanhas e minérios
nas entranhas da minha carne.
Amor como relâmpagos e sóis
inaugurando auroras
ou atirando faíscas e incêndios
nas trevas da minha noite.
Amor como açudes sangrando
ou caudais tempestades
despencando dilúvios.
E não me falem de ruínas
nem de cinzas, nem de lama.

Astrid Cabral - Manaus (AM), 1936 -  


19/05/2018

EXÍLIO




Privaram-me de tudo quanto podiam privar-me.
A pátria, a casa, a tua companhia,
mas meu talento ainda me acompanha e me deleita:
nenhum direito pode ter César sobre ele.
Com gládio cruel, qualquer um pode tirar-me a vida.
Meu renome, contudo, há de sobreviver.
Enquanto das colinas Roma olhar, marcial e ovante,
o mundo inteiro conquistado, eu serei lido.

Ovídio (Roma, 43 a.C.- 18 d.C.)em Poemas da carne e do exílio