08/05/2021

Letras em pílulas

 



Sem saída


Era tão raivoso que acabou recebendo uma antirrábica.


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No restaurante


Opções de cardápio: mastigado ou triturado?


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Autorretratos


Cara de palhaço ou cara de paisagem


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Quem quer saber


Quem de nós vai viver, qual de vós vai chorar, quantos restarão?

04/05/2021

Dois contos de Robert Walser

 A arvorezinha



Eu a vejo mesmo quando passo por ela sem prestar atenção. Ela não foge, fica parada, quietinha; não é capaz de pensar nem de querer coisa nenhuma; não, ela só consegue crescer, estar no espaço e ter folhas que ninguém toca, que as pessoas apenas contemplam. A sombra que elas dão, os ocupados passam correndo.                                                      Nunca te dei nada? Mas ela não precisa de felicidade. Talvez se alegre quando a acham bonita. Vocês acreditam nisso? Que sagradas inocências expressa. Não sabe de nada, só está ali para me dar prazer.                   Se digo ao bom algo que não lhe é dado ouvir, por que não teria sentido esse meu amor? Ela nunca me vê sorrir em resposta ao cumprimento que me dirige sem o saber. Morrer aos pés desse ser, como aquela figura que Courbet pintou, despedindo-se para sempre!                                  Decerto seguirei vivendo, mas, e de você, o que será?                      



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A Coruja



No muro em ruínas, a coruja disse a si mesma: Ó existência terrível! Qualquer um se horrorizaria, mas eu tenho paciência, baixo os olhos e fico assim, de cócoras. Tudo em mim ou próximo a mim descai em véus cinzentos, mas também sobre minha cabeça brilham as estrelas, e saber disso me fortalece. Espessa plumagem me reveste. Durante o dia, durmo; à noite, fico acordada. Não preciso de espelho para descobrir que aspecto tenho; meu sentimento me diz. É-me fácil imaginar meu rosto estranho.                                                                              Chamam-me de feia. Se soubessem como minha alma irradia risonhas sensações, não se assustariam comigo. Mas não veem dentro de mim, param no corpo, detêm-se nas vestes. Um dia, fui jovem e bonita, eu poderia dizer, mas isso soa como se tivesse saudade de alguma coisa, e não tenho. Aquela que praticava ser grande suporta com tranquilidade o curso e a mudança do tempo, encontra-se em todo e qualquer presente. Dizem-me: "Filosofia". Mas a morte precoce anula a posterior. A morte não é novidade nenhuma para a coruja; ela já a conhece. Parece que sou uma erudita, que uso óculos e que alguém se interessa tanto por mim que vez por outra vem me visitar. Acha-me harmoniosa. Diz que sou alguém que não o decepciona. É certo que também nunca o enfeiticei. Estuda-me em profundidade, acaricia-me as asas, de vez em quando me traz alguma coisa da confeitaria, com o que acredita proporcionar uma alegria à mais séria das mulheres, e tem razão. Estou lendo um poeta que, por sua delicadeza, se presta a ser digerido por uma coruja. Há algo de doce no seu modo de ser, algo de velado, de indefinido; em suma, é-me apropriado. No passado fui graciosa, ria, gracejava pelo azul do dia afora, virei a cabeça de vários jovens cavalheiros. Agora é diferente, calço sapatos furados, estou velha e fico aqui sentada, quieta.


Robert Walser nasceu em Biel (Suíça), em 1878 e faleceu em 1956 durante uma caminhada na neve. Foi achado por crianças. Publicou três romances, vários textos de prosas curtas, além de publicações em jornais e revistas. São de sua autoria Os irmãos Tanner, O ajudante, e Jakob von Gunten, considerado sua obra-prima. 

24/04/2021

Se...

 




Eu poderia enfeitar-me toda de mentiras, se fosse romântica. Escancarar minhas portas internas, abrir todas as janelas do meu sótão, se tivesse uma casa de alicerces sólidos o suficiente para enfrentar vendavais e tempestades. Porém, minha morada não tem teto, é feita de pele transparente onde as palavras voam por asfixia indo pousar no asfalto das ruas mal iluminadas, nas calçadas ocupadas por carros e corpos ao relento, sob olhares indiferentes, apressados e ensimesmados.               Eu poderia rir, e até zombar da desgraça alheia, se o alheio não estivesse entranhado na pele do meu ser; poderia também, cuspir no prato que como, se não soubesse que a porcelana só é bela porque é um pó concentrado, enquanto eu serei apenas poeira um dia...

18/04/2021

Mariposa

 


Fui ali mas não voltei. Quando cheguei lá encontrei-o debaixo de uma mesa. Ziguezagueava, zumbia feito louco em torno da luz até arder em  em chamas!


13/04/2021

Partida





Vi demais. A visão se revia pelos ares.

Tive demais. Sons da cidade, à tarde, e ao sol, e sempre.

Soube demais. As paradas da vida.

 - Ó sons e Visões.

Partida entre afetos e ruídos novos!


Arthur Rimbaud, 1854-1891


***


No alto

 do viaduto o louco colava pedacinhos de céu

na camisa de força

destruindo o horizonte a marteladas

a Morte

é

um refrão no crânio sem janelas.


*

O arco-íris

é o colar do feiticeiro

que apaga o dia

com a mão direita

& inaugura a noite

com a mão esquerda.


Roberto Piva - São Paulo, 1937-2010

04/04/2021

E no entanto...

 


Vivemos à sombra de uma sombra que dá saltos aleatórios, mas persistentes, a zombar de nossas vidas, do nosso desassossego. Do alto, seu olho ciclópico observa, e tenta controlar todos os nossos passos e pensamentos. Embalde. O mundo gira à revelia das sombras, esses espectros fantasmagóricos de um passado de triste memória.

28/03/2021

Dos filhos deste solo




No rés do chão, sob nossos pés habitam seres invisíveis e destrutíveis: os vermes. São a representação e a vociferação da linguagem inferior; o subproduto humano. Macaqueiam sem ser macaco, papagueiam sem ser papagaio. Verme é o nome comumente atribuído a todos os animais invertebrados, com exceção dos insetos. Na espécie humana, o verme é uma pessoa infame e desprezível que habita entre nós de maneira invisível, escorregadia e disfarçada. Circunavega mares, arcos e charcos pantanosos do viver. E quando cai a noite iluminada por uma multidão de estrelas cadentes trazidas pelo vento, nossos olhos, ainda que embaçados pela poeira, juntam-se a ela para sair da escuridão

21/03/2021

Ao Mar




mar tenebroso e sereno

meu coração já não suporta

tamanha dor;

quando contigo sonhava

via castelos e mistérios

hoje vislumbro silêncios

e solidão


Agita-nos!

nossos olhos inundados

cristais de pedras na boca

rochedos de sentimentos

desmoronam

face a tua impetuosidade:

quebra-os

tritura-os

para que voltemos a ver-te

um mar sereno, e melodioso;

banha-nos salga-nos

e nos renova outra vez!

13/03/2021

Das cinzas




Na penúltima hora do último dia de nossas vidas será encontrado um saco cheio de palavras desusadas, deterioradas, misturadas com alguns embriões sobre os ombros de um anônimo caboclo sertanejo: aquele que jamais teve voz nem vez; de olhos arregalados de fome percorre um caminho sob o peso do silêncio, temendo perder sua identidade. A chuva, os rios e peixes, a densa floresta, berço das plantações de feijão, arroz, milho, tudo em vias de extinção. Ele e os seus, tragados e sufocados por esse imenso saco de pandora.                                               Lá fora passa uma noite morna e lenta, sufocante e sem estrelas, enquanto pelo meu corpo escorre um suor quente e salgado; do sangue nas veias por lâminas cortado, transbordam rios de palavras repetidas ad eternum. Acaricio meus cabelos numa tentativa de ativar meus neurônios; não há qualquer resquício de brisa, o vento foi soprar na boca do vulcão, que enfurecido, engole, devora todas as palavras até transformá-las em cinza, para que renasçam outra vez.