20/05/2019

Sonambulismo III




quando me viste
eras como a lua
toda nua
noite escura brilhando
no espelho refletindo
o meu retrato

e eras sol
eras vida

extraíste soluços
da dor
neles me navegaste
hoje teu sonho é
quimera
simulacro da alegria...

12/05/2019

" Ensaio "

David Sale


Já não sabia se um dia fora uma casa um jardim ou um quarto de despejos o seu corpo, seu coração. Saíra dali há tão pouco tempo, e tudo agora transformara-se em imagens recobertas de névoa seca, tudo desaparecendo para dar lugar a outras faces deformadas, sem brilho sem vida. Tentou virar a página para talvez ter uma ideia melhor do lado de fora - tão bom se se pudesse fazer o mesmo com a vida real. Pediu para fazer uma pausa. - Dá licença?
Todos os dias gotejavam lágrimas vindas não se sabe
de onde, quem sabe do movimento das nuvens sobre
nossas cabeças? Formavam pequenos lagos que se transformavam em arquipélagos, ilhas que evaporavam ao sabor dos ventos ou com o calor do sol. E então caminhava até o umbral da porta, oscilando entre avançar ou recuar.
- Vem! Acenavam alguns vultos; outros sugeriam que
permanecesse imóvel.
Finalmente percebeu que não se vira uma página impunemente. Cada uma delas está guardada no  livro da memória, mesmo que não seja lida.
Existirá algo ou alguém com o poder de lavar o horizonte?

08/05/2019

Dois poemas de Júlia Cortines *




Esfinge


Olha!
Levanta agora a pálpebra descida
E o segredo desvenda enfim do teu olhar!
Fala!
Descerra a boca há tanto tempo emudecida
Deixa o segredo enfim da palavra escapar!

***

Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de horror.

Mas sei que por mais forte e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz, inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer,
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem de um transitório ser.

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno a solidão,
Esse grito, que a dor de uma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?
(Vibrações)

Júlia Cortines nasceu em Rio Bonito(RJ)em 1868 e faleceu em 1948. Publicado em Escritoras Brasileiras
do Século XIX - Vol. II - Organização de Zahidé Lupinacci Muzart - Ed. Mulheres


01/05/2019

A Mulher *




A mulher que toma a pena
Para em lira a transformar,
É, para os falsos sectários,
Um crime que os faz pasmar!
Transgride as leis da virtude;
A mulher deve ser rude,
Ignara por condição!
Não deve aspirar à glória!...
Nem um dia na história
Fulgurar com distinção!

Mas eu que sinto no peito,
Dilatar-me o coração,
Bebendo as auras da vida,
Na sublime inspiração:
Eu que tenho uma alma grande,
Uma alma audaz que s'expande
No espaço a voejar,
Não posso curvar a fronte,
Nesse estreito horizonte
E na inércia ficar!

Não posso! Gritem sofistas,
Digam tudo o que quiser!
Chamem tênue, duvidosa
A virtude da mulher
De fantasia arrojada;
Que minh'alma extasiada
Nas harmonias do Céu,
Ficará indiferente,
Ao que a malícia invente
P'ra manchar o brilho seu!

* Luísa Amélia de Queirós Nunes Brandão, considerada a primeira poetisa piauiense, nasceu em
Piracuruca em 26.11.1838 e faleceu em Parnaíba, cidade do mesmo estado, em 12.11.1898. Publicou vários poemas em jornais e revistas. Publicou dois livros em pleno século XIX - Flores incultas e Georgina ou os efeitos do amor - época em que a mulher era bastante cerceada, principalmente no interior do nordeste brasileiro. Luísa Amélia de Queiroz é patrona de uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras, da Academia Parnaibana de Letras e da Academia de Letras da Região de Sete Cidades.
Poema extraído do livro Escritoras brasileiras do século XIX - Vol.II - Coordenação Zahidé Lupinacci Muzzart - Editora Mulheres

22/04/2019

Mensagem do Sol


Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
deixai-me por os pés na vossa casa humilde.

Entro com ramos de flores douradas,
entro com a fragrância da floresta,
entro com a luz e o calor,
entro com o corpo molhado de orvalho.

Levantai-vos depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
abri os olhos estremunhados,
para presenciar a minha chegada.

Abri-me o coração, casa humilde,
construída de tábuas.
Abri-me as janelas há muito fechadas,
deixai-me encher teu coração de flores,
fragrâncias, luz, calor e orvalho.

***
Muro

um muro, como uma lâmina
a cortar uma cidade em metades
uma a leste
uma a oeste

qual a altura do muro?
tem qual espessura?
tem qual alcance?
e alto, e espesso e longo
e não é mais alto, mais espesso, mais longo
do que a grande muralha

mas também uma ruína da história
trauma das etnias
ninguém gosta deste tipo de muro
três metros de altura são como nada
cinquenta centímetros de espessura são como nada
quarenta quilômetros de alcance são como nada
 mil vezes mais alta
mil vezes mais espessa
mil vezes mais longa
e ainda como poderia parar
as nuvens celestiais, o vento, a chuva,
os raios, o sol?
e ainda como poderia impedir
as asas das aves e o canto do rouxinol?

e ainda como poderia impedir
o fluxo das águas e dos ares?
e ainda como poderia impedir milhões de pessoas
com pensamentos ainda mais livres que o vento?
com uma vontade ainda mais profunda que a terra?
com as aspirações mais duráveis que o tempo?

Ai Qing (1910-1996), pseudônimo de Jiang Zhenghan, nasceu na província de Zhijiang, sudeste da China. Poeta, editor de periódicos e diretor do departamento de literatura da Universidade de Yucai de Chongqing.

16/04/2019

A lei agradecida




O bom negociante do lugar notava sempre com tristeza que a estrada que lhe passava nas portas
estava cheia da buracos, inconveniente fácil de remediar.
Pediu a um amigo que se dava nos jornais o favor de
chamar a atenção das autoridades competentes para
fato tão escandaloso. Os jornais falaram, mas as tais autoridades competentes, muito interessadas em dotar Botafogo de mais um "refúgio", não se incomodaram com os buracos da Estrada Real.
Entretanto, essa velha azinhaga presta imensos serviços. Por ela se faz um trânsito intenso da lenha, do carvão, dos produtos hortícolas que os arredores do Rio produzem.
O bom negociante olhava os buracos e tinha pena. Arranjou um abaixo-assinado e levou-o às autoridades competentes. Elas não se moveram, e ele continuou a considerar com tristeza o lamentável estado da via pública. Foi ainda ao amigo e pediu que
reclamasse pelos jornais. Não houve nada.
Certo dia, o seu aborrecimento foi imenso ao ver que
um dos burros de uma carroça de carvão quebrara as
pernas e ficara a arquejar na margem da estrada, a espera de ser abatido. Pensou em fazer gratuitamente os reparos; e teve até aquela ideia luminosamente feudal dos legisladores de São Paulo:
achou de boa ideia que o governo tornasse obrigatório, em certos dias da semana, para os habitantes de certas localidades, prestarem gratuitamente determinados serviços públicos. Era a corvée medieval, mas ele não sabia disso. Pôs mãos à obra e alugou trabalhadores, carroças, barro, etc.
Aplainou aqui, aterrou ali, e o trecho que lhe passava
às portas ia ficando uma lindeza. Quando ia acabando o serviço, apareceu uma "autoridade competente" e intimou o benfeitor:
- Está multado.
- Por quê?
- Não pode escavar a via pública.
E o bom negociante pagou a multa sem tugir nem mugir, travando conhecimento com a gratidão da lei.

Lima Barreto - Revista Careta de 14.08.1915

Obs: Os tempos mudaram, mas a história continua a
mesma!

06/04/2019

Sonambulismo II




Um quarto dentro de outro quarto: quartos, e mais quartos. Quartel, quartéis. Esquartejamentos, enforcamentos um dia após outros dias. Fragmentos quebras divisões. Desunião desmoronamento turvação...
A noite fugirá a contragosto para dar lugar ao sol que
surgirá para um novo dia!

02/04/2019

As coisas



achava que as coisas dentro dos livros
eram mais verdadeiras do que fora
que as coisas nos livros e as pessoas
estavam no lugar certo e se destoavam
era só para depois retomarem o lugar
exato em que deveriam estar 


Magritte

Dor

a dor preza as cartilagens
os interstícios e vãos
o debrum da alma mais exposto
à noite
o nervo mais lúcido
a veia mais mansa
o mais dúctil segmento
do músculo

Vera Lúcia de Oliveira é uma poetisa que nasceu em Cândido Mota(SP)e vive atualmente na Itália. Em 2005 recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo livro "A chuva nos ruídos". Tem publicados os livros "Entre as junturas dos ossos", "Vou andando sem rumor", entre outros.

24/03/2019

Desenho




Passava dias traçando linhas noites percorrendo corpos com as mãos ía até os pés - caminhava pela cabeça contornava o rosto arqueava as sobrancelhas parava nos olhos difíceis de penetrar.
Torneava a cintura parava nos mamilos e escorregava no sexo
sem conseguir entrar na misteriosa caverna. Deu forma a figuras
que se tornaram imaginárias...
E, de tanto insistir nesse exercício suas mãos deformaram-se adoeceram de dor de cansaço. Tentando dar vida a criaturas inanimadas perdeu seu principal instrumento de trabalho: parte de
seu corpo foi incorporado àquelas linhas...
Dizem que existem abismos que nos fazem criar, outros nos paralisam.