20/09/2018

Disritmia poética





Os ombros suportam o mundo


Chega um tempo em que não se diz mais meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
( Carlos Drummond de Andrade em Sentimento do mundo )

*****

Sobre o vosso jazigo
- Homem político -
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
Dos homens.

Sobre os vossos filhos
- Homem político -
A desventura
Do vosso nome.

E enquanto estiverdes
À frente da Pátria
Sobre nós, a mordaça.
E sobre as vossas vidas
- Homem político -
Inexoravelmente, nossa morte.

( Hilda Hilst, em Poemas aos homens do nosso tempo)

*****

Poema do aviso final

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo;
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma coisa atraia
a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.
( Torquato Neto em Torquatália: Do lado de dentro.

12/09/2018

"Eu sou o que eu escrevo"




A realidade fala. Todo o tempo, sem parar, sem me dar sossego. A realidade é uma voz que se espalha em torno de mim. É tagarela, insistente, incansável. Mais que uma voz: ela é um amontoado de letras, intransigentes, intragáveis, intoleráveis, que formam palavras atrás  de palavras e não me deixam descansar. Dizem, denunciam, acusam, protestam, elevam-se. A realidade fala e tem dito coisas terrí­veis. Ainda mais agora que encontro um espelho em Atiq Rahimi (foto), o escritor afegão nascido em Cabul em 1962, de quem leio A balada do Cálamo (Estação Liberdade).

A realidade anda difí­cil, mas o que a salva é a letra - é o sentido. A letra que é ela própria, num emaranhado de carne e espí­rito, de coração e invenção, de sopro e fala. Na página 98 do livro de Rahimi, encontro um capí­tulo decisivo, que resume tudo o que tento, de modo vacilante, dizer: "Não sou senão uma letra", o capítulo­ se chama. Trata-se de uma reflexão sobre o pertencimento. A quem devo minha vida? De onde venho? Onde exatamente estou? Para o escritor afegão, essas perguntas se resumem em uma só: "A que civilização eu pertenço?"

Sim, porque a civilização nada mais é que a letra feita carne. E a resposta que Rahimi nos oferece é ainda mais difí­cil, embora mais óbvia e também mais amorosa: "A todas, mas sobretudo àquela que me empresta suas letras". Ecoam as palavras de Pessoa: "Minha pátria é minha lí­ngua. Ou ao contrário? "Minha língua é minha pátria". Tudo se confunde e se alimenta; sem a lí­ngua não há pátria, não há fala, tampouco há o Ser; sem a lí­ngua, nada, infelizmente nada.

Resume o afegão: "O que quer que eu faça, aonde quer que eu vá, no que quer que eu me torne, eu sou o que eu escrevo, o que eu leio, o que eu vejo!" Eu sou o que eu escrevo, eu sou essas palavras mesmas que agora aqui anoto, isso - e nada mais - sou eu. Aqui eu me guardo, aqui guardo meu segredo mais antigo, aqui respiro." E não vejo senão letras, Rahimi conclui. Tudo é letra, tudo fala, tudo se articula e se expressa. Mesmo o silêncio é uma letra perdida, uma letra - em uma longa caravana de palavras - deixada, há muito, para trás.

Por isso, não adianta, é impossí­vel, não "ter posição". A letra sempre me dá uma posição, me dispõe de uma maneira, me exibe numa perspectiva, ela sempre me recorta e me faz falar. Não sei o que dizer, dizemos tantas vezes, no desespero ou no susto, mas mesmo assim já estamos dizendo. Lembra Rahimi de Roland Barthes, que afirmava sofrer de uma doença, uma terrí­vel doença, que assim resumia: "Ver por todos os lados a linguagem".Ver a linguagem é ouvi-la falar. Habitar a linguagem, como todos habitamos, é nela ocupar um lugar. Este, e não aquele. Assim, e não de outra maneira. Ser é estar: aqui, ali, acolá, muito longe, ou muito perto. Não há  escapatória.
É por isso que também Rahimi vê (como todos nós, se olharmos bem) letras por todos os lados. Letras nas rochas rebeldes das montanhas. Letras nas águas turvas, nas nuvens errantes, em cada gota de chuva. Ali onde menos se espera, esbarramos em uma letra e em uma direção. O mundo nos obriga a lê-lo todo o tempo. Somos, antes de tudo, leitores. E, ao ler, nos situamos. Antes mesmo de viver, ou "para viver", lemos. O olhar da mãe, os seios da mãe, a grande nuvem em torno: a letra está em todo lugar. Não há escapatótia.

Continua Rahimi: "Letras na pele da terra, em suas entranhas... Letras, letras, letras... Ainda somos essa criança que se assustou diante do mundo,desse mundo feito de letras, ainda que indecifráveis - sou eu também, somos todos nós. Sigo as palavras do afegão: "Sim, sou ainda esta criança, infans, que se põe repentinamente e com zelo a aprender, a falar, a ler, a escrever. Sou (somos) esse infante que balbucia, e é esse gaguejar, essa hesitação constante e atroz, que lhe dá acesso ao mundo e que o tornará homem. Sou aquele que sempre contempla as letras e brinca com elas.

Na infância, a letra é jogo -  é pura emoção. É uma dança, na qual nos engajamos para respirar e viver. Desde o primeiro "Ah! " que gritamos para mãe, até  o "Ah!" vacilante do último suspiro, a letra se embrenha por todos os lados. Acontece que o infante se recusa a se submeter Às  amarras da letra: gramáticas, morfologias, sintaxes, conjugações, nada disso o interessa. Ele quer a alegria da letra pura, a letra que é música e que não se deixa aprisionar em sentidos fixos. A letra da liberdade. Naquela dança de letras, todos nós nascemos.

Conclui Rahimi, assombrado com as próprias palavras: "Eu nasci do verbo. Religiosamente. Socialmente". Talvez por isso nos inquietemos com as pessoas que falam demais: elas sofrem da impressão de que as letras podem acabar e por isso devem ser ditas logo. Também por isso nos inquietamos com as pessoas que se recusam a falar: elas falam para dentro e simplesmente não nos deixam ouvir. Por isso “ no cotidiano, na polí­tica, na arte -  o mundo exige de nós que não deixemos de falar. Que não deixemos de ser. Que ocupemos um lugar no banquete da vida.

Não importa se falamos confusamente, ou com clareza; o que menos importa ése somos entendidos, ou não; aliás, o mal-entendido é, em nosso mundo áspero, a regra. Ele nos massacra. As letras são trocadas, amassadas, deturpadas, dizimadas - mas serão, sempre, letras a nos advertir e a nos ensinar. O verbo: estamos presos a ele, somos seus filhos. Mesmo em silêncio absoluto, nosso pensamento se agita e fala. Rahimi: "Por mais que eu tente escapar, dele não posso me desfazer".

Por isso -  atenção - é impossí­vel, é mesmo uma estupidez, desejar " não ter posição". Sempre, até fisicamente, em alguma posição estamos: sentados, ajoelhados, curvados, de pé, deitados, entortados. Seja como for, estamos em algum lugar e de algum jeito. A palavra é esse lugar. O verbo é uma grande manta sobre a qual rolamos, fugimos, nos encolhemos, mas sempre estamos.

"Eu retorno ao verbo, como para retornar ao meu paí­s de nascimento, Atiq Rahimi resume. Estamos sempre em posição de retorno. Tudo nos traz de volta ao verbo e  às palavras. Nunca escapamos. Prisioneiros da linguagem, é nela que conseguimos, também, nossa liberdade. Só existem homens livres porque existem grilhões a serem rasgados.



* José Castello é escritor, jornalista e crítico literário. É autor de, entre outros, Inventário das sombras


Extraído de  www.suplementopernambuco.com.br


07/09/2018

Discurso da Servidão voluntária




[.....]

Os próprios tiranos achavam estranho que os homens
pudessem suportar um homem que os maltratasse. Por isso se cobriam de bom grado com o manto da religião e, se possível, queriam tomar emprestada alguma amostra da divindade para manter sua vida malvada. Assim Salmoneu*, por ter zombado do povo querendo passar-se por Júpiter, encontra-se agora no fundo do inferno, segundo a sibila de Virgílio, que o viu

Sofrendo os tormentos, por querer imitar
os estrondos do Olimpo e os raios de Júpiter.
Puxado por quatro cavalos e agitando uma tocha,
atravessava os povos da Grécia e a cidade no centro da Élida.
Triunfante e pedindo para si as honras divinas.
Pobre louco, simulava os trovões e o raio inimitável
com a trompa de bronze e o tropel dos cascos dos cavalos.
Mas Júpiter lançou seu raio entre as nuvens densas,
não tochas nem as chamas fumegantes de um tição,
e o precipitou de cabeça no abismo profundo.
(Virgílio, Eneida, VI)

Se aquele que quis simplesmente fazer-se de tolo está sendo agora tão bem tratado, creio que aqueles
que abusaram da religião para fazer o mal se encontrarão em situação ainda pior.

Étienne de La Boétie - Sarlat (França), 1530-1563

* Segundo a mitologia grega, Salmoneu era filho de Éolo e irmão de Sísifo. Tentou igualar-se a Zeus, imitando seus raios. Quis que seus súditos lhe atribuíssem honras divinas e oferecessem sacrifícios.
Foi atirado no inferno por Zeus.

04/09/2018

Como pode...?




A minh'alma chorou tanto
que de pranto está vazia
não há pranto sem saudade
nem amor sem alegria
Como pode um peixe
vivo
viver fora da água fria?
(Domínio público)
*****

As coisas

as coisas não acontecem
como a gente quer
nem mesmo como
a gente não quer
as coisas nunca pedem
a nossa opinião


A solução

daqui a cem anos
todos os nossos problemas
nos terão resolvido

Horácio Dídimo - Fortaleza(CE) 1935-2018

*****

Tenho tudo
guardo sempre
vem o tempo
leva tudo
nada fica
a vida é ingrata
mas talvez seja eu a mais ingrata
gosto do meu tudo
me apego com carinho
assim é o tempo que passa
a vida segue trazendo na alma
a juventude perdida
que um dia não amei e nem zelei
hoje gosto do meu tudo
e guardo com carinho

Lindacy Meneses ex-diarista, moradora da favela
da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro.

26/08/2018

"Ciranbeirando-me"...( !? )




Ando pelas beiradas, em forma de círculos, como numa ciranda que ora se abre em roda para dar lugar a mais um, e vez em quando se fecha para poder dançar. A roda não é da fortuna. Tampouco é um moínho de ventos. Ela gira, balança, cai, mas refaz-se porque é de muitos. E não é de ninguém. Pode haver os que supõem ser "a casa da mãe Joana", a querer modificá-la ou dirigí-la; outros a ignorá-la, passando ao largo, como se ela fosse invisível. Diria que se trata de uma roda transparente, translúcida: ora colorida, ora sombria, como a vida. Não é uma pousada, muito menos uma "casa de apoio". Quem anda pela margem não tem pretensões de ensinar a ninguém, de fazer proselitismos de qualquer natureza, até porque não creio em "salvadores" e muito menos em "milagres". Nada acontece por acaso, para tudo existe uma explicação, mesmo que não possamos entender no momento em que acontece. Não podemos entender de tudo na vida. Isso é humanamente impossível. Nem por isso temos o direito de afirmar categoricamente se algo é verdadeiro ou falso, muito menos ainda de querer que todos pensem da mesma forma, tenham todos a mesma crença ou ideologia. Respeito, eis aqui a palavra-chave para a coexistência pacífica. Nada de "invasões", seja em domicílios residenciais ou em domicílios cibernéticos. Isso é incompetência dos bárbaros da idade da pedra, que por não disporem de recursos físicos e mentais apelam para atitudes as mais absurdas possíveis. Vou tentando seguir a vida da forma que me é possível, embora às vezes, até o possível se torna impossível, faz parte da vida. Não tenho pressa, porque a vida possui seu próprio curso, segue à revelia do que programamos ou desejamos. Hoje em dia os castelos se transformaram em peças de museus que visitamos, não para enaltecê-los, mas
para que tenhamos uma visão crítica do que foram, do que fizeram à sociedade de seu tempo!

19/08/2018

De François Rabelais




"O mundo está repleto de homens sábios, mestres eruditos e vastas bibliotecas: e tenho por verdade que nem nos tempos de Platão, de Cícero ou de Papiniano houve tanta oportunidade de estudar como há hoje. [...] Vejo ladrões, carrascos
flibusteiros, taverneiros, cavalariços e que tais, a própria escória da plebe, mais eruditos que os doutores e pregadores do meu tempo."

François Rabelais nasceu nas proximidades de Chinon (França) em 1494. Sua casa era chamada de "La devinière" ou A adivinha; o nome original era Les cravandières - de cravant, "ganso selvagem". Os gansos eram usados para prever o futuro. Adivinhadores ou não, o fato é que esse pequeno trecho escrito por Rabelais continua atualíssimo mesmo decorridos cinco séculos! Nesses tempos bicudos, no auge da virtualidade sem nenhuma virtude, quantos arautos
e donos da verdade têm proliferado, quantos leitores de "orelhas de livros" se consideram intérpretes de obras complexas; quantos "âncoras" vêm tentando afundar o navio da nossa história a partir de falsas notícias? 
Rabelais sabia latim, grego, italiano, hebraico, árabe e vários dialetos franceses;
estudou teologia, direito, medicina, arquitetura, botânica, arqueologia e astronomia; enriqueceu a língua francesa com mais de oitocentas palavras, muitas delas ainda usadas na academia canadense. É autor de Gargantua e Pantagruel, Fatos e ditos heroicos do Bom Pantagruel (4 volumes).

12/08/2018

Da violência contra a mulher negra







Maria

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
A palma de umas de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.
Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?
Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.
Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.
(Olhos d'água p. 39-42).

Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte (MG). É mestra em Literatura Brasileira e doutora em
Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. É autora de Ponciá Vicêncio, Becos da Memória, Insubmissas lágrimas de mulheres, Olhos
d'água(contos), Histórias de leves enganos e parecenças, Poemas da recordação e outros movimentos.

06/08/2018

As Catilinárias de Cícero




Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!


As Catilinárias de Cícero são uma série de quatro discursos pronunciados por Marco Túlio Cícero, cônsul do senado romano em 63 a.C.
O primeiro e o último destes discursos foram dirigidos ao senado de Roma; os outros dois foram proferidos diretamente ao povo romano. Todos quatro foram compostos para denunciar explicitamente o senador Lúcio Sérgio Catilina, que planejava com seus seguidores, derrubar o governo republicano para obter riqueza e poder.

Marco Tulio Cícero advogado, orador, escritor e filósofo romano (63 a.C.- 43 a.C.). Foi morto e esquartejado: suas mãos e sua cabeça foram exibidas no Fórum Romano, por ordem do imperador
Marco Antônio, seu inimigo político.

31/07/2018

O homem do mar




O homem do mar era uma construção serena
peixe fresco
corda
alcatrão
e a lembrança de velhos poderes imperiais no Canal

O nosso foi um fogo que queimou sem nos queimar
morreu na praia
estátuas silenciosas de sal
virávamos páginas em branco
a velha pergunta transbordando sempre
de cada livro no alto da biblioteca de alto preço
de cada escultura construída no além-mar

O mau fado me deixou a ver navios
ressaca impronunciável e alheia
falsas falésias
falácias
enseada escura
e canoa furada

Sou

verso ou reverso
par ou ímpar
yin ou yang
prosa ou verso
sim ou não
nunca um talvez

Encontro

poço turvo, escuro
negro espaço em que me recolhi
sem me dar conta jamais
Estranha, absurda caverna
fui, sou, serei sempre
sua mais fiel, eterna
residente

[Sem título]

Transitoriedade da alma
o que isso significa? Não sei,
deve ser que ela está aqui de passagem.
Só pode. Faz sentido.
Tem gente que vem a trabalho,
eu vim a passeio - e não gostei -
o resplandecer da alma é efêmero.

Hilda Machado fez mestrado em Artes(USP), doutorado em História Social pela Universidade Federal Fluminense e professora nessa mesma Universidade; estudou direção de cinema em Cuba, atuando posteriormente como pesquisadora em várias universidades do Brasil e do exterior; recebeu o prêmio de melhor direção nos festivais de cinema de Gramado(RS), Recife e Rio de Janeiro em 1987 pelo curta-metragem Joilson marcou. Os poemas apresentados acima, foram extraídos do livro Nuvens
organizado pela autora e datado de julho de 1997, publicado somente agora, em 2018.
Hilda Machado faleceu em São Paulo, 2007.  

24/07/2018

A baleia azul




Nos idos de 1960/70 a literatura latino-americana passou por uma efervescência fabulosa; autores como G. G. Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, José Maria Arguedas, Juan Carlos Onetti e Juan José Arreola nos presentearam com verdadeiras obras primas!
Uma delas é a  de Arreola, que transcrevo abaixo:


Interview

- Por fim, os leitores gostariam de saber em que está trabalhando
atualmente. Poderia dizer?
- Na noite passada ocorreu-me uma ideia, não sei...não sei...
- Diga assim mesmo.
- Seria alguma coisa como uma baleia. É a esposa de um jovem poeta, digamos, um homem simples e comum...
- Ah, sei! A baleia que engoliu Jonas.
- Sim, sim, mas não somente Jonas. Uma espécie de baleia total,
que carrega dentro de si todos os peixes que se entredevoram, é claro, sempre o maior comendo o menor, e começando pelo infusório microscópico.
- Muito bem, muito bem! Quando era criança eu também imaginei
um animal assim, masque era talvez um canguru em cuja bolsa...
- Bem, na verdade não vejo inconveniente algum em substituir a imagem da baleia pela do canguru. Simpatizo com os cangurus,
com essa grande bolsa em que o mundo pode caber completamente
Apenas, você sabe, tratando-se da esposa de um jovem poeta, a imagem da baleia é muito mais sugestiva. Uma baleia azul, se prefere, para não deixar de lado a elegância.
- E como lhe surgiu a ideia?
- Foi um presente do próprio poeta, marido da baleia.
- Como é isso?
- Num dos seus mais belos poemas ele se concebe a si mesmo como
uma rêmora pequenina aderida ao corpo da grande baleia noturna, a esposa adormecida que o conduz em seu sonho. Essa enorme baleia feminina significa mais ou menos o mundo, do qual
o poeta só pode cantar um fragmento, uma nesga da doce pele que
o alimenta.
- Receio que suas palavras desconcertem os leitores. E o diretor, sabe como é...
- Nesse caso dê uma interpretação tranquilizadora das minhas ideias. Diga simplesmente que a baleia tragou a todos nós, eu, você, os leitores da revista e o diretor. Que vivemos nas suas entranhas, que ela nos digere lentamente, e lentamente vai nos atirando ao nada...
- Muito bem. Não precisa acrescentar coisa alguma: é perfeito, está dentro do estilo da nossa revista. Apenas uma coisa mais: pode ceder-nos uma fotografia sua?
- Não. Prefiro dar uma visão panorâmica da baleia. Todos nós estamos representados nela. Com um pouco de esforço posso ser
distinguido perfeitamente - não recordo bem onde - envolto numa
pequena auréola.


 Juan José Arreola em Confabulário total - Jalisco (México), 1918-2001.