23/02/2021

Onde estamos?

 




Estávamos no terraço de um lugar qualquer.                                                    

 - Agora vamos para Roma.

E ela:

- Onde fica Roma?

- Em Roma, ora!

Você entendeu alguma coisa, leitor? Nem eu, foi somente um sonho daqueles em que a gente acorda com o som de nossa própria voz e nos perguntamos: "onde estou?", só então percebemos que estamos deslocadas(os), à margem, numa terra estranha em nossa própria casa. E que não foi um sonho. É um pesadelo!

15/02/2021

Monólogo




Há quem diga que as paredes têm ouvidos; que quem não se manifesta se esconde ou concorda com o que está posto. Também dizem que falar sozinho é sinal de loucura. Tanta coisa é dita por esse desmundo...             Nesses tempos de pandemia e pandemônios muitos castelos (de areia) estão desmoronando. Se estás a sós entre quatro paredes, o que te resta senão conversar com elas? Se te escutam não sei, pois nada dizem - ecoam em teus ouvidos repetidas vezes para, quem sabe, encontrares uma resposta por esforço próprio. O silêncio pode, num primeiro momento, ser assustador. Nem sempre calamos por vontade deliberada, por opção; calamos para melhor refletir, ouvir a si mesmo ou a outrem. E, quando por motivos alheios à nossa vontade, dialogamos a sós, temos a rara oportunidade de trocar ideias com nosso múltiplos eus, de perceber como somos contraditórios e cheios de imperfeições. Nossos eus podem ser comparados aos livros que lemos; estabelecemos uma ampla conversação com seus autores, seus personagens, sem interagir vivamente com eles. E como podemos aprender... Tenho uma infinita legião de amigos com quem posso monologar à vontade!  

08/02/2021

Um dia mortos


                              Um dia mortos, gastos voltaremos

 a viver livres como os animais. 

E mesmo tão cansados floriremos

 irmãos vivos do mar e dos pinhais.


O vento levará os mil cansaços

 dos gestos agitados, irreais

 e há-de voltar aos nossos membros lassos

 a leve rapidez dos animais.


Só então poderemos caminhar

 através do mistério que se embala

 no verde dos pinhais, na voz do mar.

E em nós germinará a sua fala.

                            




Os poetas


Solitários

pilares dos céus pesados,

poetas nus em sangue, ó destroçados

anunciadores do mundo

que a presença das coisas devastou.

Gesto, de forma em forma vagabundo

que nunca num destino se acalmou.





Pirata


Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

tigres e ursos que amarrei aos remos,

e o meu desprezo reina sobre o mar.


Gosto de uivar no vento com os mastros

e de me abrir na brisa com as velas,

e há momentos que são quase esquecimento

numa doçura imensa de regresso.


A minha pátria é onde o vento passa,

a minha amada é onde os roseirais dão flor,

o meu desejo é o rastro que ficou das aves,

e nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


Sophia de Mello Breyner Andresen - Porto(Portugal) 1919-2004

29/01/2021

Metamorfoses




E se o rio que banha tua aldeia tivesse suas águas transformadas em leitosa lama condensada e não pudesses mais beber, comer, banhar-se, nadar, navegar em seu leito, o que farias?                                                                          E se de repentemente acordasses um dia transformado num jacaré, sem poder movimentar-se para capturar uma mosca sequer para tua sobrevivência? Implorarias a uma ema para que ela te desse uma bicada? A espécie humana sempre se considerou superior às  outras. Será que é por isso que tem medo de ser transformada num réptil que se arrasta para obter seu alimento? O medo é um sentimento capaz de subjugar qualquer ser vivo. Talvez seja por isso que hoje se vê tantos sabichões se arrastando pelo palácio em busca de umas migalhas de poder, seu alimento preferido.                                                              E tu, leitor, tens mais medo do que ou do quem, hein?  

23/01/2021

Às avessas

 



Retalhei minhas mãos, virei-as pelo avesso; troquei a posição dos pés, mudei o rumo do meu caminho. A cabeça deu um giro de trezentos e sessenta graus, - passei a ver em minúcias coisas que até então não percebia: buracos de fechaduras, cantos de paredes onde aranhas se escondem para tecer seus fios invisíveis e pegajosos para atrair suas presas; escorpiões misturados com gêneros de primeiras necessidades. Enfim, passei a ter uma visão tridimensional das coisas e das pessoas que me rondam e/ou me rodeiam.                                                              O mundo é grande, mas minha aldeia ainda é pequena; e quanto menor, mínimo é seu universo, ínfimas serão suas possibilidades de raciocínio, de perceber as múltiplas facetas de seu próprio ser. Em situações adversas tudo parece girar ao contrário, mas quando isso ocorre temos a oportunidade de ver o que antes nos parecia imutável.

17/01/2021

Mundo, mundo!?



 


Mundo, mundo mudo, sem fronteiras, sem eira nem beira; povoado de criaturas, como se donas fossem de ti. Enquanto permaneces dormente, elas ressurgem furibundas, devastando florestas, engolindo vidas em ondas gigantescas e vorazes. Enquanto te iludes com aglomerações incomunicáveis em busca de prazeres fugazes e falsa liberdade, tais criaturas invisíveis tratam cuidadosamente do teu extermínio. Fora da bolha em que tentas viver, milhares de pessoas estão morrendo asfixiadas por falta de oxigênio justamente naquela porção de terra que é considerada o pulmão do planeta! Gritos e sussurros saídos dos interstícios de seres em agonia ecoam pelo universo num esforço sobrehumano pela vida. Não te iludas, mundo, porque eles se propagarão como o som em fúria através dos tempos, deixando marcas e crateras profundas de espanto e indignação.

10/01/2021

Desassossego





Ver a linha da vida desmanchar-se nas mãos do tempo sem saber quem é Dona Felicidade, aquela que engana a todos com seus gestos gastos e dissimulados...                                                                                       - Antes de entrar, dispa os pés, tantos micróbios: o nariz, a boca, os ouvidos, todos desembocam no mesmo labirinto das sete portas para desaguar nas vísceras recheadas de trilhões de bactérias que disputam com os neurônios o tempo de validade de todos nós. Reina um silêncio    ensurdecedor; todos se foram apressados, em busca de sabe-se lá o quê. Carregam, sem saber, a linha que costura o tempo. E o tempo é o responsável por torná-la a cada dia mais tênue, quase transparente, mas cheia de emaranhados nós, impossível desmanchá-los. Tentam ignorá-la, talvez por isso a pressa, esse desejo desesperado de recuperar o tempo perdido: voltas e mais voltas, vaivéns intermináveis. O novelo torna-se mais e mais robusto e disforme; a linha do tempo vai encurtando, o desejo e a curiosidade diminuindo, e o desespero aumentando...                                                          

Salve-se quem puder! 

03/01/2021

Patacoadas

Gralhas



 O pato pactua com outros patos (com ou sem penas), suas patacoadas, que não existiriam sem as gralhas. São elas que ecoam pelo mar as dissonâncias do pato. Enquanto isso, a pata choca em seu ninho ovos de serpentes de mil e uma cabeças: de corvos, carcarás e gaviões.

28/12/2020

O nome dela

 



Ela chega de cara luminosa às seis horas e o seu nome é Manhã. Quando chove sacode os cabelos, retira a poeira das noites perambuladas e mal dormidas. Um mar vaza dos olhos, cai no solo formando ilhas sobre o rosto, e, nessa travessia é prazeroso ouvir seus esgares, a natureza em convulsão; os movimentos ondulares do coração separam as grandes marés que se alternam entre a noite e o dia.


***


Como se o teto fosse no chão

as estrelas se apagassem no firmamento

o coração galopasse pelas pradarias do corpo

em chamas

e tudo fosse silêncio

num alvoroço de línguas estranhas

e universais


Uma densa nuvem precipitou-se

levando consigo os andaimes de

uma catedral de papel

cujos sinos dobram-se em origamis

sob um céu que

não é azul.

24/12/2020

Canto Final ou Agonia de uma Noite Infecunda

 Como a flor cortada rente e desfolhada

ou os olhos vazados da criança

e o seu fio de pranto tênue e impotente

assim a noite caminha com os astros todos em vertigem

até que se atinge o ponto da mudez

a pesada mó triturando a sílaba

a garganta com as cordas dilaceradas

e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida


Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro

tanto assim que a flor desfeita

não embala o coração do poeta

oh não

porque a flor defunta

se voa

não sobe nunca

e só dura

o espaço breve duma nota


Assim o canto se detém imóvel como se a flauta

falhando súbito

na boca do poeta

ficasse o hiato

ou a saliva

de um tempo devassado por insectos cor de cinza


A voz suspensa e negada

cede a vez à letra amorfa

inscrita no silêncio

com seu peso

de chumbo e olvido acaba o poema

e um ponto final selando tudo.


Armênio Vieira, jornalista, e poeta ganhador do Prêmio Camões, nasceu em Cabo Verde, em 1941.