27/06/2012

Um céu e nada mais




Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
ímplodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais -que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.



Ana Luísa Amaral
de Às Vezes o Paraíso

25/06/2012

A saudade


A saudade está queimando na panela.
Impotente, assisto ao espetáculo.
Alguém bateu à porta.
O cheiro sobe pelos telhados,
Invade tudo.
A saudade está queimando lá dentro,
Arrebentando as narinas,
Punindo a consciência de hoje,
De tudo que poderia ter sido.
A vizinhança acode,
A vizinhança faz fila,
A vizinhança quer apagar o fogo,
Quer entender minha letargia,
Meu pânico passivo,
Minha impunidade auto-afirmativa,
Minha lição de recolhido silêncio,
Minha música instrumental,
Meu show da vida,
Meu afogamento em cheiros,
Em arrogância de panela queimada.
A saudade, assombrada,
Foge evaporada em negrumes,
Despede-se entre a multidão,
E os nomes vagam em lumes negros,
Despertando a curiosidade das mulheres
Que arrastam filhos pelas saias.
A saudade vai embora de vez,
E me deixa na paz das panelas vazias,
Dos dias sem vizinhança desperta.
Eu, quieta num canto da cozinha,
Vejo-me na ociosidade dos espaços ocupados.
Raspo a panela queimamda, passo bombril, areio,
Areio, depois de brilhosa, ponho na janela pra secar ao sol.
E sigo: vez ou outra, a panela volta pra queima.
E a vizinhaça se alegra.
Rita Santana, em Tratado das veias . Ritinha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, é natural de Ilhéus(BA). Além desse Tratado que reúne vários dos seus poemas, essa talentosa poeta também tem puclicado o livro de contos Tramela . Também participa com outras poetas da Bahia de uma coletânea de poemas e contos do livro Mão cheia.
É editora do blog http://barcacas.blogspot.com

16/06/2012

Afinal, o que é inteligência?

Quando eu estava no exército, fiz um teste de aptidão, solicitado a todos os soldados, e consegui 160 pontos. A média era 100. Ninguém na base tinha visto uma nota dessas e durante duas horas eu fui o assunto principal. (Não significou nada - no dia seguinte eu ainda era um soldado raso da KP - Kitchen Police)

Durante toda minha vida consegui notas como essa, o que sempre me deu uma ideia de que eu era realmente muito inteligente. E eu imaginava que as outras pessoas também achavam isso.

Porém, na verdade, será que essas notas não significam apenas que eu sou muito bom para responder um tipo específico de perguntas acadêmicas, consideradas pertinentes pelas pessoas que formularam esses testes de inteligência, e que provavelmente têm uma habilidade intelectual parecida com a minha?

Por exemplo, eu conhecia um mecânico que jamais conseguiria passar em um teste desses, acho que não chegaria a fazer 80 pontos. Portanto, sempre me considerei muito mais inteligente que ele.

Mas, quando acontecia alguma coisa com o meu carro e eu precisava de alguém para dar um jeito rápido, era ele que eu procurava. Observava como ele investigava a situação enquanto fazia seus pronunciamentos sábios e profundos, como se fossem oráculos divinos. No fim, ele sempre consertava meu carro.

Então imagine se esses testes de inteligência fossem preparados pelo meu mecânico. Ou por um carpinteiro, ou um fazendeiro, ou qualquer outro que não fosse um acadêmico. Em qualquer desses testes eu comprovaria minha total ignorância e estupidez. Na verdade, seria mesmo considerado um ignorante, um estúpido.

Em um mundo onde eu não pudesse me valer do meu treinamento acadêmico ou do meu talento com as palavras e tivesse que fazer algum trabalho com as minhas mãos ou desembaraçar alguma coisa complicada eu me daria muito mal.


A minha inteligência, portanto, não é algo absoluto mas sim algo imposto como tal, por uma pequena parcela da sociedade em que vivo.

Vamos considerar o meu mecânico, mais uma vez.

Ele adorava contar piadas.

Certa vez ele levantou sua cabeça por cima do capô do meu carro e me perguntou:

"Doutor, um surdo-mudo entrou numa loja de construção para comprar uns pregos. Ele colocou dois dedos no balcão como se estivesse segurando um prego invisível e com a outra mão, imitou umas marteladas. O balconista trouxe então um martelo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente e apontou para os dedos no balcão. Dessa vez o balconista trouxe vários pregos, ele escolheu o tamanho que queria e foi embora. O cliente seguinte era um cego. Ele queria comprar uma tesoura. Como o senhor acha que ele fez?"

Eu levantei minha mão e "cortei o ar" com dois dedos, como uma tesoura.

"Mas você é muito burro mesmo! Ele simplesmente abriu a boca e usou a voz para pedir"

Enquanto meu mecânico gargalhava, ele ainda falou:

"Tô fazendo essa pegadinha com todos os clientes hoje."

"E muitos caíram?" perguntei esperançoso.

"Alguns. Mas com você eu tinha certeza absoluta que ia funcionar".

"Ah é? Por quê?"

"Porque você tem muito estudo doutor, sabia que não seria muito esperto"

E algo dentro de mim dizia que ele tinha alguma razão nisso tudo.
Isaac Asimov, escritor e bioquímico, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica.
(1920-1992) - Tradução livre do livro "What is intelligence, anyway?"

15/06/2012

Economia dos mares terrestres

A queixa
comprimida na garrafa
quer escapar
reunir os povos
dizer a Matilde que lhe perdoa
organizar a vida dos índios,
a queixa
no vácuo
lembra uma queixa menor.
Dir-se-ía, na chama, uma sombra,
não arde, também se destrói.
A queixa mínima
já não pede ao vento que se cale
aos estudantes que estudem, a Elza
que deposite flores sobre o retrato enterrado.
Limita-se
à contemplação metódica da mosca
fora da garrafa
(mas já são outros problemas).


Carlos Drummond de Andrade, em A rosa do povo

13/06/2012

07/06/2012

Pedragulhadas na língua


Acordou nicotinada de angústia de catarros urdidos na madrugada. Entonces, wake up!
- Pero yo no sé nada, te lo juro que sou inocente...
- Es verdad verda verd verde que nunca brotou matéria-prima matéria bruta.
- Estúpida!
- Abra a boca
- Ah...
- Diga:
um B com A...
- Beabláblá-blá
- 'Stá rindo de quê?
- Já disse que sou inocente nada direi!
- Pois então, ora pois não
reclame mais tarde...
Ó flor do Lácio impura e verdadeira quem te cria ou te criou assim a um só tempo tão escandalosamente escrachada? Me doem as entranhas de tuas vísceras saem vocábulos nauseantes nenúfares bolorentos. Olho pro chão e espremo o caroço de mão na face:
- Toc, toc, toc
Risos esgarçados vozes indistintas e a dor ao lado de outras horas sonolentas. Passos amparados:
- Toc, toc, toc
- Boa tarde!
A musiquinha da caixinha de música passa como um relâmpago e o silêncio entredentes permanece tentando despir a língua da palavra.

03/06/2012

Vocabulário

Rota de Huila, Angola


Áridas palavras,
Refratárias, secas
Arestas de fragas
Secretando uma água
Morosa, suada,
Que não mata a sede.


São pedras na boca.
Rolam balbuciantes
Buscando um sentido.
Uma quer ser beijo.
Outra quer ser lágrima.


Não basta dizê-las.
Elas querem ser
Mais do que palavras.


Como captarei
A ideia sem fim
(Não sei de onde vem)
Que tenta exprimir-se...


Áridas palavras
Para as bocas ávidas.



Dante Milano, Rio de Janeiro. (1899-1991)

02/06/2012

Vaidade


          Sonho que sou a Poetisa eleita,
  Aquela que diz tudo e tudo sabe,
  Que tem a inspiração pura e perfeita,
  Que reúne num verso a imensidade!
  Sonho que um verso meu tem claridade
  Para encher todo o mundo!
 E que deleita
  Mesmo aqueles que morrem de saudade!
  Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
  Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
  Aquela de saber vasto e profundo,
  Aos pés de quem a Terra anda curvada!
  E quando mais no céu eu vou sonhando,
  E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ...
 E não sou nada!


...
Florbela Espanca, em   "Livro de Mágoas"