28/12/2020

O nome dela

 



Ela chega de cara luminosa às seis horas e o seu nome é Manhã. Quando chove sacode os cabelos, retira a poeira das noites perambuladas e mal dormidas. Um mar vaza dos olhos, cai no solo formando ilhas sobre o rosto, e, nessa travessia é prazeroso ouvir seus esgares, a natureza em convulsão; os movimentos ondulares do coração separam as grandes marés que se alternam entre a noite e o dia.


***


Como se o teto fosse no chão

as estrelas se apagassem no firmamento

o coração galopasse pelas pradarias do corpo

em chamas

e tudo fosse silêncio

num alvoroço de línguas estranhas

e universais


Uma densa nuvem precipitou-se

levando consigo os andaimes de

uma catedral de papel

cujos sinos dobram-se em origamis

sob um céu que

não é azul.

24/12/2020

Canto Final ou Agonia de uma Noite Infecunda

 Como a flor cortada rente e desfolhada

ou os olhos vazados da criança

e o seu fio de pranto tênue e impotente

assim a noite caminha com os astros todos em vertigem

até que se atinge o ponto da mudez

a pesada mó triturando a sílaba

a garganta com as cordas dilaceradas

e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida


Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro

tanto assim que a flor desfeita

não embala o coração do poeta

oh não

porque a flor defunta

se voa

não sobe nunca

e só dura

o espaço breve duma nota


Assim o canto se detém imóvel como se a flauta

falhando súbito

na boca do poeta

ficasse o hiato

ou a saliva

de um tempo devassado por insectos cor de cinza


A voz suspensa e negada

cede a vez à letra amorfa

inscrita no silêncio

com seu peso

de chumbo e olvido acaba o poema

e um ponto final selando tudo.


Armênio Vieira, jornalista, e poeta ganhador do Prêmio Camões, nasceu em Cabo Verde, em 1941.

14/12/2020

Aos que não (re)nascem



[...E foi então que, um dia, inopinadamente, sem razão nem porquê(?), esqueceu tudo, perdeu a memória. Teve que começar do zero uma outra vida. Chorou a cântaros! Sentiu uma dor profunda. A fonte havia secado. E a dor teve que buscar outro recurso para sobreviver, porque não há lágrima que lave uma dor, esse instrumento involuntário usado como defesa em situações aflitivas. Teve uma vertigem, tudo girava ao redor - ou seria uma miragem, um delírio? Uma alucinação, quem sabe? Adjetivos e substantivos se alternavam: e se fosse uma inundação, um maremoto? Talvez fosse um terremoto, porque tudo desmoronava; em questão de segundos todas essas imagens passaram por sua cabeça: civilizações inteiras submergidas pelas águas, pelas cinzas de vulcões... Atlântida, Pompeia, e tantas outras muito mais antigas...? Foram destruídas pela força da Natureza. Mas, e Hiroshima e Nagasaki, que foram destruídas deliberadamente por conflitos beligerantes humanos? Como conseguiram reconstruir-se? A Natureza tem suas próprias leis, que a natureza dos homens tenta passar por cima delas numa luta incessante de superação. E la nave va...] 

05/12/2020

Repeticão

 Vladimir Kush



O olho cai e

da janela a morte espreita:

o passado se repete

sob dores e sombras


Tempos difíceis

de sorumbática tecnologia

que amealha cabeças

ameaça vidas

guilhotina ideias multiplicando

a solidão


Cada era tem o seu pensar

todo passado é uma semeadura

que floresce na estreita faixa

da escrita como franjas

de palavras que navegam

através da História

27/11/2020

Finício

Berna Reale


 


Quase tudo passa através do fio da vida que vai ligando e desligando os pontos que tecem a trajetória da humanidade; passam a primavera, o outono, o inverno e o verão. Pragas, incêndios, devastações, que são arrastadas com a força dos ventos e a inoperância dos poderes constituídos. Volare, cantare pero no mucho. O ar que respiramos está contaminado. Désolée, il faut aller à la recherche du temps perdu. Mas, que nada!, o tempo não para, ele voa e não volta, "é pau, é pedra, é o fim do caminho", cantou Tom Jobim; quando pensamos entrar no navio ele já partiu, e ficamos a ouvir o apito do trem, a última chamada pelo autofalante do aeroporto. Porca miséria! O navio estava cheio de ratos, dizemos, como dizia a raposa sobre as uvas, estavam verdes...Há males que vêm para o bem. Será? Mehr licht, mais luz! Mesmo que seja no fim do túnel. As cavernas são objetos de estudos para os arqueólogos e cientistas. É assim que tem sido o fim e o começo de tudo na história do planeta e da humanidade. Negar a realidade dos fatos é querer apagar a luz do sol. O velho e o novo se amalgamam para dar vida a outro ser, dando continuidade à convivência existencial.

23/11/2020

Prometeu



 Encobre o teu céu, ó Zeus

com nebuloso véu e,

semelhante ao jovem que gosta

de recolher cardos,

retira-te para os altos do carvalho ereto.

Mas deixa que eu desfrute a Terra,

que é minha, tanto quanto esta cabana

que habito e que não é obra tua

e também minha lareira que,

quando arde, sua labareda me doura.

Tu me invejas!


Eu, honrar a ti? Por quê?

Livraste a carga do abatido?

Enxugaste por acaso as lágrimas do triste?

(...)

Por acaso imaginaste, num delírio,

que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo

por alguns dos meus sonhos se haverem frustrado?


Pois não: aqui me tens

e homens farei segundo minha própria imagem:

homens que logo serão meus iguais

que irão padecer e chorar, gozar e sofrer

e, mesmo que sejam párias,

não se renderão a ti como eu fiz.


Johann Wolfgang von Goethe, Alemanha (1749-1832)             

20/11/2020

Dia Nacional da Consciência Negra


Pierre Verger




Encontrei minhas origens


Encontrei minhas origens em velhos arquivos... livros

encontrei em malditos objetos troncos e grilhetas

encontrei minhas origens no leste, no mar em imundos tumbeiros

encontrei em doces palavras...

cantos em furiosos tambores...ritos

Encontrei minhas origens na cor de minha pele

nos lanhos de minha alma, em minha gente escura

em meus heróis altivos encontrei

Encontrei-as enfim

me encontrei


Oliveira Silveira, (1941-2009) poeta gaúcho, formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dedicou sua vida à luta contra o racismo; foi o fundador da Associação Negra de Cultura em Porto Alegre, e um batalhador junto ao Congresso Nacional para que o dia 20.11. fosse o Dia Nacional da Consciência Negra. Tem vários livros publicados, entre eles, Banzo, Saudade Negra, Pele Escura, Anotações à Margem.


P.S. : Quero deixar registrado o meu repúdio e a minha indignação diante do crime cometido ontem, contra o cidadão negro João Alberto Silveira Freitas nas dependências do supermercado Carrefour, em Porto Alegre. 

12/11/2020

Do sentimento trágico da vida (trechos)

 Ismael Nery



Há, sem dúvida, algo de tragicamente destrutivo no fundo do amor, tal como se nos apresenta na sua forma animal primitiva, nesse instinto irresistível que leva o macho e a fêmea a confundir as suas entranhas, num estreitamento furioso. Aquilo mesmo que une os corpos, separa sob certos aspectos, as almas; ao abraçarem-se, odeiam-se tanto como se amam, e sobretudo lutam, lutam por um terceiro, que ainda não vive. O amor é uma luta, e há espécies animais em que o macho, ao unir-se com a fêmea, maltrata esta; e outras espécies há em que a fêmea devora o macho logo que este a fecundou.                                                 Tem-se dito que o amor é um egoísmo recíproco. E, de fato, cada um dos dois amantes procura possuir o outro; e se ele procura por este outro, sem nisso pensar, nem propor a sua própria perpetuação, procura portanto, o seu prazer. Cada um dos dois amantes é para o outro, diretamente,, um instrumento de prazer, e indiretamente, de perpetuação. E assim, são tiranos e escravos; cada um deles é ao mesmo tempo, tirano e escravo um do outro.


Miguel de Unamuno, Bilbau (Espanha) - 1864-1900 

04/11/2020

Palavras ao léu

 


Vou selecionar umas palavras para lançá-las ao léu, ao vento, aos crédulos e aos incréus. - Para que? - Para nada, nelhures de pitibilhures, afinal de contas, as palavras podem ser apenas nonadas, ninharias que se acumulam nos ninhos que não são de pássaros, mas que precisam criar asas, voar...Nestes tempos de alta tecnologia tornou-se comum a expressão "viralizou nas redes". Quem surgiu primeiro, os vírus ou as redes? Eis aí uma pergunta de difícil resposta; cá com meus botões, faço apenas algumas suposições, partindo da ideia de que a partir da proliferação das bactérias entre os seres vivos, ocorreu o aparecimento dos vírus. As redes, por sua vez, foram se formando quase que automaticamente para estabelecer conexões ou encadeamentos com esses "indivíduos". O desenvolvimento da tecnologia aconteceu pari passu ao da sociedade, criando as possibilidades para a expansão dos vírus. Tecnologia e pandemia passaram a caminhar de mãos dadas. Hoje o que "cai na rede" já não é apenas peixe, mas também um intricado sistema de (in)comunicação, (des)informação, bem como interligações de computadores para compartilhamentos e intercâmbio de dados. Aquela rede criada pelos índios para pescar ou descansar após seu dia de labuta está em vias de extinção. E as palavras, embora num primeiro momento nos pareçam sem sentido, vão adquirindo novos significados, ampliando seu emprego, voando para outros continentes, quiçá para outras galáxias! 

30/10/2020

Cada uma...!?


 

Até parece um bicho de sete cabeças. E é mesmo. Uma serpente cuja cabeça ao ser cortada se multiplica em várias, simultaneamente. Já que não se sabe qual direção tomar para atingir o alvo desejado, qualquer tentativa serve, não é mesmo? Mas, vender terrenos que estão na lua é desejar o máximo de confinamento para as pessoas. Aparentemente tudo não passa de um engano, mas as cabeças hidrófobas vão se multiplicando, se espalhando sorrateiramente, como quem não quer nada, e querendo. Se colar, colou. Bingo! Constroem-se cortinas de fumaça para embaçar a visão dos desavisados, para desviar a atenção do real objetivo que se deseja alcançar. Estaremos voltando à época da mitologia, ao tempo das cavernas? Peneiras jamais conseguirão tapar a luz do sol. Bicho de sete cabeças, lobisomem, capiroto ou quaisquer outros tipos de avatares sempre serão criados para ludibriar as pessoas. No entanto, mais dia, menos dia, às vezes até séculos podem passar, a história real prevalecerá.

19/10/2020

OLHARES

 



Um dia sementes de ideias brotaram na imaginação para hoje se espalharem em folhas de papel. Meus olhos vislumbraram caminhos até então desconhecidos; mostraram-me pontos obscuros inundados de sombras movediças. Não era noite nem era dia, e tudo era atemporal. Águas jorravam velozes e tenazmente, como cavalos selvagens quando perseguidos. Tateando no escuro abri portas, arrastei-me pelas paredes, mergulhei em pântanos e emergi insone. Rasguei as malhas de uma cortina de renda escura feita de medo e solidão.

Dois olhos - um triste, outro alegre - tentam caminhar juntos; um olho caído e ferido, o outro desdobrando-se atento. Olhares de soslaio a espreitarem pelos cantos, pelas esquinas do rosto. A ampulheta do tempo vai liberando rapidamente uma fina camada de areia: tudo arde e dói, e tudo se torna irremediavelmente seco em volta do olho ferido.

O vento sopra e a malha da renda balança num vaivém de contradições depositadas nesse minúsculo oceano de emoções imprevisíveis. Dois olhos boiam numa bacia de água; flutuam em câmera lenta. Como disse Paul Klee, "um olho vê, o outro sente", e quando um deles não vê, o outro sente ainda mais. Um mergulho no escuro é como mergulhar em si mesmo, se é que me faço entender. Eu mesma ainda estou tentando entender-me. 

12/10/2020

Serventia

 




caminho imóvel,

minha voz é emudecida;

mesmo com todas as portas e janelas

fechadas sinto um cheiro

podre no ar;

vejo a fumaça de olhos fechados,

um rio de sangue além fronteiras

espalhando-se nas ruas

das cidades.

ai! até arderam meus pulmões.


tantas línguas são faladas no mundo,

quantas vozes são ouvidas?

Sherazade é o símbolo da poesia

iraquiana onde também viveram

os quarenta ladrões, hoje espalhados

mundo afora...


uns criam a guerra

outros tentam abafar o estrondo

dos canhões; genocídios, holocaustos,

erros repetidos, lições

não aprendidas


o quê fazem os poetas

com a sua poesia?

08/10/2020

De sabiás e palmeiras

 



Em territórios de cipós e terra seca o chicote come solto o lombo dos desavisados. Em terras de sabiás e juritis, sempre tem um gavião que os carrega pelo bico para o abismo do silêncio.

Em terras onde sabiás ainda cantam em palmeiras, existem homens que têm cara de cavalo e dão coices com esporas. O sertão já foi mar um dia. Estaria se transformando em deserto?

Dizem que "quem canta seus males espanta", mas os cara de cavalo estão devastando as florestas para acabar com o canto dos passarinhos.

29/09/2020

Às escuras




Amanhece. Nada é igual, tudo difere, mas nada mudou. De qualquer forma, aquele galo que cantava ao anunciar a aurora, e mandava nas galinhas, desapareceu por falta de quintais. Já as galinhas, tiveram um aumento exponencial. Nem por isso têm vez ou voz, ao contrário, são geradas em chocadeiras e socadas vinte e quatro horas por dia, ininterruptamente. O galo, aparentemente invisível, não canta mais, só dá ordens aos galinheiros do país.  

22/09/2020

Canção de outono



As pulsações dos violinos outonais

fazem o ser esmorecer sempre iguais.

E todo arfando pálido,

quando soa a hora,

minha alma invade

velha saudade

e após chora.


Se eu assim vago,

vento pressago

me transporta

ao deus-dará

semelhante à

folha morta.


Paul Verlaine, França 1844-1896

13/09/2020

Mãos

Jano, deus do Tempo


as mãos de alguns
(muitos)
estão sujas de sangue
(de) terra lodo lama

 o suor das mãos
do sal que escorre das lágrimas
e se esvai em sangue é a mesma
que escreve em vermelho
a lixiviação da mente

na lavoura diária
a lama espalha-se
sobre a vida de povos
vulneráveis e indefesos

mãos que torturam
atiram pedras e balas
de borracha e pólvora
mãos lavadas
no lixo da História

05/09/2020

Re[Fluxo de (in)Consciência]




Se jabuti fosse tatu e se a Terra fosse ainda o "paraíso", qual bicho serias tu? Se cobra voasse e fosses um pássaro, em qual tipo de galho pousarias?
Sóssocando o sono para transformá-lo em sonho.
Delírio-delivery. Rio porque é preciso, senão afogo-me nos olhos d'agua do marasmo, asma, almas mortas todas tortas nas ruas, direita, volver! Veremos quão veraz é a veracidade da feroz cidade. Cantar no entanto, é preciso gritar, uivar, urrar, grunhir, zunir;é preciso que chamemos os lobos, os tolos, as gaivotas, os doidos, os animais canibais, mamelucos tupinambás,carajás, caiapós, tupiniquins, guajajaras...Rio, rio, canoa, balsa, barco, rio, rio... Atravessemos cachoeiras, cordilheiras rioabaixo, rioacima, rio, rio naveguemos, porque é urgente urgentíssimo. Jangadas ao mar, à vida, à luta, ao amor, ao sonho! Resistir quem não há de? Não importa se como farsa ou se como tragédia, importa
é que a fome é grande e o que vier  traçamos, para não ter um troço por aí, com uma folha de saudade debaixo do braço, mutatis mutandis, o avesso de tudo é a realidade nua e crua nessa pandêmica panamérica anêmica do sul, que de maravilhosa quase nada tem.
Deixemo-nos ir, precisamos andar, correr, ver o sol;  renascer, sair desse labirinto, desse ziguezague interminável. Deixemo-nos ir aos trancos e troncos e barrancos, aos vômitos. Regurgitando, transbordando tentemos saltar desse navio-fantasma encalhado. Fluxo, refluxo de (in)consciência. Rioriorio, transbordo, gargalho aos borbotões de rosas, de blusas e de calças. Descalça e nua como a lua vista de um alpendre. Não há escolha quando não se tem opção.
 Mas tu, anônimo leitor, não és obrigado a ler o que escrevo, até porque sou um oxímoro, uma ilustre desconhecida. E rio..., como gosto de rir, apesar de tudo! 

31/08/2020

Vira-lata & "vira-latas"




Expressar o que se vê. Falar sobre o aqui e o agora, sem rodeios, como quem amola uma faca ou lava uma roupa suja, demanda coragem força e decisão. É verdade que o sol brilha lá fora, que ainda existem pássaros que cantam, mas que também existem aves
de rapina, papagaios que arremedam discursos, e pombos, centenas de milhares que espalham suas
fezes venenosas pelas ruas, praças e "palácios" do
mundo inteiro. E o que fazemos? Alimentamos esses
supostos símbolos da Paz!
O que digo aos meus botões não digo às margaridas,
muito menos aos "espadas de são jorge"; e aos coqueiros então? Nem pensar! Eles tudo propagam através dos ventos que batem em suas palmas distorcendo o som, misturando alhos com bugalhos.
Suspiro profundo! "Ovos em ponto de neve". O sol se
foi. Sua majestade, a Noite, chegou...
Assim como Baleia, a vira-lata de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, resta ainda um desejo de dormir
e acordar feliz, "num mundo cheio de preás, gordos,
enormes", ao contrário de muitos brasileiros "vira-latas", que "sonham" com um país cheio de pesadelos.
Corre alta a severina noite...

22/08/2020

Dos segredos abismais do Homem e do mar




Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Sois todos os dois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou o fundo dos teus abismos,
Ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas,
Tão ciumentos que sois de guardar vossos segredos!

Charles Baudelaire, 1821-1867

18/08/2020

(Des)construindo sonhos

Heitor dos Prazeres


Sonhei ter sonhado um sonho que havia sido um pesadelo dentro de outro sonho do dia anterior. Mas o sonho não era sonho, era a amarga realidade que se transformava em algodão doce.
Considerei os sonhos, o algodão doce, a amargura real e acordei ao som de um sonho valsa!

12/08/2020

Pandemia & pandemônios




Cansada doída angustiada dilacerada, e lúcida; quanto mais morro masmorra, mais revivo em lucidez. O corpo tem acompanhado os movimentos
peristálticos e tectônicos da Terra, que treme e explode pelo mundo afora como resposta ao que alguns "sapiens" lhe fazem. 
Quantas madrugadas insones a aguardar a aurora
que teima em não aparecer? Nuvens de gafanhotos,
erupções vulcânicas, queima de florestas e desmatamentos, corrupções, epidemias generalizadas, e um silêncio pandemônico, a devastar o planeta!
Até quando as mentiras disfarçadas, simulacros de verdades serão usados contra bilhões de seres humanos?
Vanglórias, fogueiras de vaidades se alastram pelo espaço sideral numa corrida desenfreada pelo poder,
o pior de todos os vírus. Enquanto isso, aumenta o
cemitério de valas comuns onde são jogados centenas de milhares de corpos anônimos ao arrepio da lei e da dignidade humana!

31/07/2020

Fragmentos de escrita





Escrever e morrer. Morrer e não escrever?
A chuva cai sobre a terra; suas águas placentárias
semeiam sobre um solo arrasado tufões imprevisíveis.
Escrever para não morrer, para acalmar o desespero
da palavra; pelo simples prazer de reconhecer-se inacabado, incompleto, imperfeito. A busca constante pelo lado oposto e os outros lados possíveis da vida -
a busca pelo o que é diferente, diverso.
Fragmentos que surgem para dar algum sentido aos abismos insurgentes entre o ser e o nada. 

24/07/2020

Dos recicladores de vidas




Aqui temos um homem - ele tem que recolher na capital o lixo do dia que passou. Tudo o que a cidade grande jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que desprezou, tudo o que destruiu, é reunido e registrado por ele. Compila os anais da devassidão, o cafarnaum da escória; separa as coisas, faz uma seleção inteligente; procede como um avarento com seu tesouro e se detém no entulho que, entre as maxilas da deusa indústria, vai adotar a forma de objetos úteis e agradáveis.

Walter Benjamin, filósofo, ensaísta e crítico literário, nasceu em Berlim em 1892 e faleceu em 1940.

16/07/2020

Noitário

Abaporu, Tarsila do Amaral


Um rio de águas turvas atravessa a noite das cidades. Corpos inanimados são levados pela correnteza das corredeiras; redemoínhos que deságuam em labirintos escondem as vítimas de uma tragédia anunciada. Todos estão à deriva neste barco cujo timoneiro é desprovido de sanidade.
Com um caco de vidro preso entre os dedos e um tinteiro de sangue, a mão se retorce tentando alongar-se para melhor desenhar as palavras; nas paredes do quarto onde vive uma solidão silábica, muralhas de vocábulos e frases espreitam os corpos que desfilam ao som de uma marcha fúnebre rumo ao Hades. O texto alonga-se para não ser embalsamado como aqueles mortos na horizontal. Cochichos pelos cantos, censuras veladas a exigirem dele mais compostura, mais elegância. Ele finge que dorme; a noite já vai alta.
Lá fora respingam as primeiras gotas de orvalho anunciando o amanhecer de um novo dia.

10/07/2020

Da Saudade





dos bandos de borboletas que nasciam
casulos e voavam à procura
do mel das abelhas;
do canto dos pássaros nos jardins
melros bem-te-vis e sabiás;
das tartarugas que enterravam
seus ovos na praia e depois
corriam para o mar;
das bibliotecas com seus corredores
labirintos silenciosos repletos
de prateleiras de livros que
nos sussurravam palavras saídas
do bico dourado de um papagaio
dando asas à imaginação;
do marulhar das ondas
do mar
e dos barcos ao longe
que nos levavam a uma ilha
desconhecida...
Ah, saudade.

06/07/2020

A uma passante


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz...e a noite após! -
Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez.
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Charles Baudelaire

26/06/2020

Fazer carreira




Fazer carreira
é sair correndo por fora
- como um ladrão -
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo - subindo ou ao contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?

Armando Freitas Filho, Rio de Janeiro 1940-

20/06/2020




A palavra final

Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

Onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.

Lêdo Ivo - Maceió(AL)- 1924-2012

14/06/2020

De como se deve evitar ser desprezado e odiado


[...] Um dos mais poderosos remédios de que um príncipe pode dispor contra as
conspirações é não ser odiado pela maioria, porque quem conjura sempre pensa
que, com a morte do príncipe, irá satisfazer o povo, mas, quando percebe que
com isso irá ofendê-lo, não se anima a tomar semelhante partido, mesmo porque as dificuldades para os conspiradores são infinitas. [...]
Concluo portanto, que um príncipe deve dar pouca importância às conspirações
se o povo lhe é benévolo; mas quando os cidadãos adversos o odeiam, deve
temer a tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis procuram com toda a diligência não desesperar os grandes e satisfazer o povo,
conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de um príncipe. [...]
Novamente concluo que um príncipe precisa estimar os grandes, mas não se fazer odiado pelo povo.
Nicolau Maquiavel (Florença 1469-1527), trechos de O Príncipe

09/06/2020

SEMPRE





Sempre essa sensação de inquietude
de esperar mais.
Hoje são as borboletas,
amanhã é a tristeza inexplicável,
o tédio ou a atividade desenfreada
de arrumar esse ou aquele quarto,
de costurar, de ir ali ou acolá
cumprir ordens enquanto o tempo
tapar o universo com um dedo.
Fazer minha felicidade com ingredientes
de receita de cozinha,
lambendo os dedos às vezes,
e às vezes sentindo que nunca
poderei me satisfazer;
que sou um barril sem fundo
sabendo que não me conformarei
nunca! Mas buscando absurdamente
me conformar, enquanto meu corpo
e minha mente se abrem, se estendem
com poros infinitos onde se aninha
uma mulher que gostaria de ser
pássaro, mar, estrela, ventre profundo
dando à luz novos universos reluzentes.
E ando estourando pipocas de milho
em meu cérebro, brancos tufinhos
de algodão, rajadas de poemas
que me assaltam o dia inteiro e
me fazem querer inflar como um balão
para ocupar o mundo, a natureza,
para encharcar-me em tudo e estar
em todos os lugares, vivendo uma
em mil vidas diferentes.
No entanto, hei de lembrar que estou aqui
e que continuarei ansiando,
agarrando pitadinhas de claridade,
fazendo eu mesma meu vestido
de sol, de lua, meu vestido verde
da cor do tempo, com o qual
uma vez sonhei viver em Vênus.

Gioconda Belli,  Manágua(Nicarágua)- 1948 

25/05/2020

Prometeu, Friedrich Füger


No jardim dos aflitos os corações pipocam pra fora do peito; as ilusões perdidas encontram-se agora num grande congresso, onde a realidade bate à porta para que todos acordem desse pesadelo que vem assolando o mundo inteiro e a enfrentem.
Um concerto fúnebre entoa uma melodia para que todos bailem numa dança macabra, que remonta a um passado sombrio e assustador.
Os justiceiros de plantão ameaçam: haverá fogo e baionetas em nome da ordem e do poder. Poder para desmantelar, desmontar tudo, torturar e até matar.
Mas, quem já viveu, e sobreviveu, ao tacão de uma ditadura, sabe que o medo tem múltiplas facetas, podendo desencadear reações imprevisíveis.
A lâmina da lucidez é flexível, e quando amolada tem o poder de tornar-se mais afiada e brilhante nos corações e mentes dos seres humanos!  

20/05/2020

À espera dos bárbaros




O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis - Alexandria(Egito) 
1863-1933.

15/05/2020

UMA PEQUENINA LUZ, Jorge de Sena - Catarina Guerreiro


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919 e faleceu em 1978 em Santa Bárbara(EUA) 

13/05/2020




Fui para os bosques viver
de boa vontade
para sugar todo o tutano
da vida...
Para aniquilar tudo
o que não era vida
e para, quando morrer
não descobrir que
não vivi!

Henry David Thoreau, Concord(EUA) 1817-1862

01/05/2020

"Todo homem é uma parte..."




Nenhum homem é uma ilha,
inteiramente isolado, todo homem
é uma parte de um continente,
uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado
pelas águas até o mar, a Europa
ficará diminuída, como se fosse
um promontório, como se fosse
o solar de teus amigos, ou o teu próprio:
a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti.

Meditação XVII (1623)
John Donne, Inglaterra, 1572-1631

No man is an island,
entired of itself.
Each is a piece of the continente,
a part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
or of thine friend's were.
Each man's death diminushes me,
for Iam involved in man kind.
Therefore, send not to know
for whom the bell tols
It tolls for thee.