23/04/2014

O Livro



 
 

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou e só não me atacou com raiva porque
 a corrente de ferro o impediu.
Ao fim da tarde, depois de ler em voz baixa poemas
 numa cadeira preguiçosa do jardim
regressei pelo mesmo caminho e o cão não me ladrou
 porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em pontapeá-lo,
 a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho, o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente de ferro
 em redor do pescoço depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta: tinha perdido o livro de poesia.
 
GONÇALO M. TAVARES

Um comentário:

  1. Belo poema como aliás tudo aqui neste blogue.
    Bom dia do Livro.
    Namibiano

    ResponderExcluir