14/02/2013

Poema-Orelha


 
 
Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
           ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta inda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas.
 
 
Carlos Drummond de Andrade, em  Antologia Poética - José Olympio Editora, 1983

3 comentários:

  1. Maravilhoso, não? :-) A imagem é fantástica também. Beijos, Ci!

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  2. Notícias humanas...

    Muito bom estar aqui... Sempre! Bjo!

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