Envolvi-me com pedras; sentei, deitei e rolei com elas. Apalpei-as, senti o seu cheiro, sua transpiração, e sua indiferença à minha presença. Ouvi o ruído do vento, seu farfalhar sobre as folhas, sobre os telhados. O vendaval, feito um torpedo, não se deteve diante dos destroços por ele provocados. Brinquei com pedras, joguei-as para cima e para baixo. De tanto misturar-me transformei-me numa delas. Hoje sou manipulada: jogam-me contra os pássaros, contra os animais, contras as pessoas. Sou pedra fria feita da poeira acumulada através dos tempos. Entretanto, posso tornar-me um rochedo, que enfrenta a brutalidade e a insensatez das marés humanas.
CIRANDEIRA
CABACEIRAS - PB
DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)
12/08/2026
12/07/2026
"...Bolha não tem opinião..." *
"- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver a água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.
- Bem; a opinião da bolha...
- Bolha não tem opinião..."
* Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908)em Iaiá Garcia (1889)
27/06/2026
Luzia do Brasil *
algo, um resto,
uma sobra,
luzia da terra,
luzia enterrada
essa migalha,
se do passado
ou futuro
não se sabe,
mas segue-se
dando nomes
luminosos
a façanhas
e ossadas dessa terra,
a brasa
na lama,
a luz
no fundo
da terra,
cava-se
até não restar,
e eis
que aqui
jaz
luzia, osso
ou caroço,
resíduo
ou semente,
não
se sabe
será cálcio
ou caule
num sulco
ou túmulo,
mas ainda
luzia luzia,
a primeira,
a primeira que restou
a última
que sobrou,
seus restos
os primeiros,
os últimos
do solo
que se fez
território
a que um dia
dariam outro nome
luzidio,
brasil, a luzia
que certo
não
sonharia
essa nação
de trapos
e bagaço
e lama
e detritos
e pó
que se chamou
colônia,
império,
república
estado-
nação,
não
sonhou
brasil
nenhum,
quiçá
brasil
seja tão
só
o pesadelo
repetindo-se
no vão
do tempo
dentro
do crânio
de luzia
* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977- . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),
07/06/2026
Fragmentos de...(?)
Lendo e escrevendo sobre um Eu em busca de si mesmo, um Eu povoado de Nós, de Ela, de Eles; um Eu que insiste em não desaparecer sendo impessoal, e que se transforma em palavras. Uma tentativa autoficcional de sobrevivência da escrita. Quantas máscaras, quantos fantasmas, quantos personagens estarão submersos ou disfarçados? Múltiplas identidades podem vir à tona em uma só página em poucas linhas...
26/05/2026
A Queda

Aquele azul atravessou o oceano, caiu no deserto e ávido e impetuoso saltou das órbitas e mergulhou não se sabe onde. À procura de quê?
03/05/2026
Apesar de...
Descobri que tenho um museu de palavras contido em minha imaginação, e que embora a imaginação faça parte de mim nem sempre posso acessá-la livremente para expô-la publicamente. Contém poemas, contos e até histórias passadas ao longo de toda uma existência.
Dispondo dessa ferramenta essencial para a arte e a criação humana poderíamos pensar de antemão que escrever um conto ou um romance, pintar um quadro seria uma tarefa fácil de realizar não fosse a urgência a que estamos submetidos nesses tempos de tecnologias avançadas e de "inteligência". artificial. Braços pernas mãos e pés acima e abaixo, andarilham perambulam gesticulam manipulam tamborilando conexões e desconexões. E assim a máquina vai seguindo ora criando, ora destruindo mundo afora. Pode até não lhes parecer assim, porém, nem tudo que parece é, nem tudo que perece desaparece... !
09/04/2026
25/03/2026
Palavras que andarilham
Palavras trôpegas tropeçam pelas ruas da linguagem. Andarilham ao relento; como curtos-circuitos, desencapam fios, desconectando a chave geral da comunicação. Obscuridade. Caminham num arquejar de soluços cansados; cambaleiam entre as linhas que equilibram seu corpo frágil. É preciso resistir para que outras venham auxiliá-las, a despeito de máquinas ou avatares. Pássaros sobrevoam telhados para criar seus ninhos. Palavras voam à procura de vozes que as representem; seus pelos se eriçam, saltam, transpiram, transbordam no suor que desliza sobre o fio da imaginação... E imaginação é uma capacidade, um direito,e a disponibilidade para voar tão ou mais alto do que os pássaros; não tem fronteiras, nem barreiras que a impeçam de ir além das coisas comezinhas, de preconceitos e falsos moralismos. Antes das palavras, a imaginação já andarilhava embrionariamente no líquido amniótico que a gerou. Talvez seja por isso que as palavras têm força; sua matriz é o começo de tudo, é a própria vida, e sobreviverá ad infinitum...!
11/03/2026
Tempesta...
O dia chegou com a noite mas a coruja não apareceu; a passarada nem cantou, mal chegou e já bateu asas! Por onde andará o vento que não chega para dar passagem ao tempo, esse tempo de escombros e de ossos? Uma vontade louca de falar sobre coisas bonitas, de falar sobre amor, de amar mar adentro, mas o mundo está cheio de ondas violentas e é preciso colecionar pedras, criar rochedos. As pérolas estão submersas, as palavras estão desgastadas: as bolhas, os clichês, os algoritmos...ora bolas!
22/02/2026
É o que mais falta...
Enquanto o boi dormia o berro do boiadeiro ecoou pelos campos impedindo o sono tranquilo das vacas que assustadas contraíram seus úberes, impedindo que o leite jorrasse de suas tetas para as bocas dos seus bezerros. O berro do vaqueiro ampliou-se fazendo coro com o dos filhotes. Do leite que não derramou extraiu-se o açúcar que provoca reações intestinais adversas em várias pessoas. Falta leite para os bezerros, para os filhos do vaqueiro e para os adversos. Nos campos não há mais poesia...







