algo, um resto,
uma sobra,
luzia da terra,
luzia enterrada
essa migalha,
se do passado
ou futuro
não se sabe,
mas segue-se
dando nomes
luminosos
a façanhas
e ossadas dessa terra,
a brasa
na lama,
a luz
no fundo
da terra,
cava-se
até não restar,
e eis
que aqui
jaz
luzia, osso
ou caroço,
resíduo
ou semente,
não
se sabe
será cálcio
ou caule
num sulco
ou túmulo,
mas ainda
luzia luzia,
a primeira,
a primeira que restou
a última
que sobrou,
seus restos
os primeiros,
os últimos
do solo
que se fez
território
a que um dia
dariam outro nome
luzidio,
brasil, a luzia
que certo
não
sonharia
essa nação
de trapos
e bagaço
e lama
e detritos
e pó
que se chamou
colônia,
império,
república
estado-
nação,
não
sonhou
brasil
nenhum,
quiçá
brasil
seja tão
só
o pesadelo
repetindo-se
no vão
do tempo
dentro
do crânio
de luzia
* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977- . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),

