DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

27/06/2026

Luzia do Brasil *

 




algo, um resto,

uma sobra,

luzia da terra,

luzia enterrada

essa migalha,

se do passado

ou futuro

não se sabe,

mas segue-se

dando nomes

luminosos

a façanhas

e ossadas dessa terra,

a brasa

na lama,

a luz

no fundo

da terra,

cava-se

até não restar,

e eis

que aqui

jaz

luzia, osso

ou caroço,

resíduo

ou semente,

não

se sabe

será cálcio

ou caule

num sulco

ou túmulo,

mas ainda

luzia luzia,

a primeira,

a primeira que restou

a última

que sobrou,

seus restos

os primeiros,

os últimos

do solo

que se fez

território

a que um dia

dariam outro nome

luzidio,

brasil, a luzia

que certo

não

sonharia

essa nação

de trapos

e bagaço

e lama

e detritos

e pó

que se chamou

colônia,

império,

república

estado-

nação,

não

sonhou

brasil

nenhum,

quiçá

brasil

seja tão

o pesadelo

repetindo-se

no vão

do tempo

dentro

do crânio

de luzia


* Poema de Ricardo Domeneck, poeta e artista visual - Bebedouro(SP) 1977-  . Atualmente vive em Berlim (Alemanha),   

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