Kyoto, Japão
Sonhamos com uma biblioteca de literatura criada por todos e pertencente a ninguém, uma biblioteca que seja imortal e misteriosamente capaz de conferir ordem ao universo, e entretanto sabemos que toda opção por uma ordem, todo reino catalogado da imaginação supõe uma hierarquia tirânica de exclusões. Toda biblioteca leva à exclusão, uma vez que seu acervo, por vasto que seja, deixa para fora de suas paredes incontáveis prateleiras de literatura que, por razões de gosto, conhecimento, espaço e tempo, não foram incluídas. [...] Das noventa peças de Ésquilo, apenas sete chegaram até nós; dos oitenta e tantos dramas de Eurípedes, apenas dezoito; das 120 peças de Sófocles, meras sete. [...] Toda biblioteca ao mesmo tempo acolhe e rejeita. Toda biblioteca é, por definição, fruto de uma escolha, e de âmbito necessariamente limitado. E cada escolha exclui uma outra, uma opção descartada. O ato da leitura corre infinitamente em paralelo ao ato da censura. A censura implícita começa com as primeiras bibliotecas mesopotâmicas de que temos notícia, no começo do terceiro milênio a. C. À diferença dos arquivos oficiais, destinados a preservar as transações cotidianas e os negócios efêmeros de um certo grupo, essas bibliotecas coligiam obras de natureza mais geral, como as assim chamadas inscrições reais (tabuletas comemorativas de pedra ou metal que relatavam acontecimentos políticos importantes, semelhantes aos cartazes seiscentistas na Europa ou aos best sellers políticos de hoje).
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Os donos do poder banem livros por razões bizarras. Notoriamente, o general Pinochet excluiu das bibliotecas chilenas o Dom Quixote porque considerou que o romance continha argumentos a favor da desobediência civil; anos atrás o ministro da Cultura do Japão fez objeções a Pinóquio por mostrar imagens pouco lisonjeiras de indivíduos deficientes nas figuras do gato que finge ser cego e da raposa que finge ser manca. Em março de 2003, o cardeal Joseph Ratzinger (o futuro papa Bento XVI) afirmou que os livros de Harry Potter "distorcem profundamente a cristandade da alma, antes mesmo que ela possa se desenvolver como é devido". Formularam-se outras tantas razões idiossincráticas para banir todo tipo de livros, do Mágico de Oz (um viveiro de crenças pagãs) a O apanhador no campo de centeio (um modelo perigoso para adolescentes). [...]
Como já disse, toda biblioteca, por sua própria existência, conjura seu duplo proibido ou esquecido: uma biblioteca invisível, mas formidável, feita de livros que, por razões convencionais de qualidade, tema ou volume físico, foram considerados inaptos para a sobrevivência sob esse teto específico.
Alberto Manguel em A biblioteca á noite - Companhia das Letras








