12/05/2019

" Ensaio "

David Sale


Já não sabia se um dia fora uma casa um jardim ou um quarto de despejos o seu corpo, seu coração. Saíra dali há tão pouco tempo, e tudo agora transformara-se em imagens recobertas de névoa seca, tudo desaparecendo para dar lugar a outras faces deformadas, sem brilho sem vida. Tentou virar a página para talvez ter uma ideia melhor do lado de fora - tão bom se se pudesse fazer o mesmo com a vida real. Pediu para fazer uma pausa. - Dá licença?
Todos os dias gotejavam lágrimas vindas não se sabe
de onde, quem sabe do movimento das nuvens sobre
nossas cabeças? Formavam pequenos lagos que se transformavam em arquipélagos, ilhas que evaporavam ao sabor dos ventos ou com o calor do sol. E então caminhava até o umbral da porta, oscilando entre avançar ou recuar.
- Vem! Acenavam alguns vultos; outros sugeriam que
permanecesse imóvel.
Finalmente percebeu que não se vira uma página impunemente. Cada uma delas está guardada no  livro da memória, mesmo que não seja lida.
Existirá algo ou alguém com o poder de lavar o horizonte?

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