DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

02/07/2023

O ovo *

 


Eu tenho uma galinha que põe cem ovos por mês, mas não consigo entender por que vem três de cada vez. No meu quintal tinha cinquenta mil galinhas e vendi tudo pra vizinha Mariquinha. Agora só fiquei com um pintinho novo e comecei tudo de novo com o ovo.



Geraldo Vandré
( Geraldo Pedroso de Araújo Dias) João Pessoa(PB)1935-

17/06/2023

Da natureza das coisas *





Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.

Fragmento ajusta-se a fragmento

e as coisas assim crescem.

Até que as conhecemos e as nomeamos.

Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos.

Formados dos átomos que caem velozes ou lentos

vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem; é certo 

que a natureza está em nós

até mais do que nossa consciência sobre nós mesmos.


Tu também, ó Terra, teus impérios, países e mares,

a menor de todas as galáxias,

também formada assim,

também tu te irás, ó Terra,

e hora a hora vais indo, ó Terra.


Nada subsiste. Teus mares desaparecerão em névoa;

as areias abandonarão o seu lugar,

e onde hoje se acamam outros mares

abrirão com suas foices de brancura, outras baías.


* Tito Lucrécio Caro poeta romano(96 a.C. - 55 a.C.)

Poema escrito no século I a.C. - Tradução de Antonio José de Lima Leitão (1787-1856)

07/05/2023

Re[FLUXO DE CONSCIÊNCIA]





Se eu não fosse eu não seria como tu que vives como um tatu, fuçando as entranhas da terra para alimentar-se dos vermes.

Não canto. Não rio. Não choro. E chove muito. Vejo cristais refletindo um mundo sendo estilhaçado frenética e friamente. Há vislumbres de novas configurações geopolíticas no ar, no planeta Terra. Tudo que nasce um dia morre, para que a vida possa continuar... 

17/04/2023

Balada do amor através das idades

 



Eu te gosto, você me gosta

desde tempos imemoriais.

Eu era grego, você troiana

mas não Helena.

Saí do cavalo de pau

para matar seu irmão.

Matei, brigamos, morremos.


Virei soldado romano,

perseguidor de cristãos.

Na porta da catacumba

encontre-te novamente.

Mas quando vi você nua

caída na areia do circo

e o leão que vinha vindo,

dei um pulo desesperado,

e o leão comeu nós dois.


Depois fui pirata mouro

flagelo de Tripolitânia.

Toquei fogo na fragata

onde você se escondia

da fúria do meu bergantim.

Mas quando ía te pegar

e te fazer minha escrava,

você fez o sinal da cruz

e rasgou o peito a punhal.

Me suicidei também.

Depois(tempos mais amenos)

fui cortesão de Versalhes,

espirituoso e devasso.

Você cismou de ser freira...

Pulei muro de convento

mas complicações políticas

nos levaram à guilhotina.


[.....]


Agora vamos para o cemitério

levar os corpos dos desiludidos

encaixotados competentemente

(paixões de primeira e segunda classe)


Os desiludidos seguem iludidos

sem coração, sem tripas, sem amor.

Única fortuna, os seus dentes de ouro

não servirão de lastro financeiro

e cobertos de terra perderão obrilho

enquanto as amadas dançarão um samba

bravo, violento, sobre a tumba deles.


Carlos Drummond de Andrade, em Alguma poesia. 1930.

02/04/2023

Fingir que está tudo bem *





fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com a roupa passada a ferro, restos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer? pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga. 


* José Luís Peixoto - Ponta do Sor (Portugal) - 1974-

09/02/2023

Beta *


O homem de sete cores  - Anita Malfatti


 


"Estive doente

doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.

Dos olhos que viram mulheres formosas

da boca que disse poemas em brasa

dos nervos manchados de fumo e café.

Estive doente

estou em repouso, não posso escrever.

Eu quero um punhado de estrelas maduras

eu quero a doçura do verbo viver."


* De um "louco" anônimo

28/01/2023

O caminho branco




Vou por um caminho branco.

Viajo sem levar nada.

Minhas mãos estão vazias.

Minha boca está calada.

Vou só com o meu silêncio

e a minha madrugada.

Não escuto, entre os barrancos,

a voz do galo estridente

que na treva do terreiro

anuncia as alvoradas.

Nem mesmo escuto a minha alma:

não sei se ela vai dormindo

ou me acompanha acordada,

se ela é vento ou se ela é cinza

ou nuvem rubra raiante

no dia que se levanta

como vela desdobrada

em nave que corta as vagas.

Não sei nem mesmo se é alma

ou apenas sal de lágrimas.

Vou por um caminho branco que parece a Via Láctea.

Só sei que vou tão sozinho

que nem sequer me acompanho,

como se eu fosse um caminho

pisado por vulto estranho.

Não sei se é dia ou se é noite

o que surge à minha frente

se é fantasma do passado

ou vivente do presente.

 Não sei se é torrente clara

da água que corre entre pedras

ou se um gavião me espreita

oculto no nevoeiro,

espantalho prometido

ao meu dia derradeiro.

Atravessando barrancos

e plantações de tomates

e ouvindo o canto escarlate

de airosos galos polacos,

vou por um caminho branco:

brancura de bruma e prata.

Entre tufos de carqueja

há constelações de orvalho

e um chão de meio-dia

cega a minha madrugada.

Vou como vim, sem saber

a razão da travessia.

Nem sequer levo na boca

o gosto de água salgada

que relembra a minha infância

feita de mar e de mangue.

Nem sequer levo nos meus olhos de menino

- a mancha rubra de sangue

deixada pelo assassino

que vi certa madrugada.

Vou por um caminho branco

e nada levo nem tenho:

nem ninho de passarinho

nem fogo santo de lenho.

Só vou levando o meu nada.

Foi tudo quanto juntei para oferecer a Deus

nesta madrugada.


Ledo Ivo - Maceió (AL) 1924-2012

20/12/2022

A máquina e o corpo

Delphine Chevrot 



Numa sociedade onde os mais velhos são tratados como crianças; as crianças como cachorros; e os cachorros como seres humanos, o que lhe resta, além da estupidez ou o nome que se lhe dê? A voragem da solidão atua com toda sua força criando ilhas nas entranhas do próprio ser!

A máquina desnuda o corpo e a mente de suas defesas.