DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

06/11/2010

Civilização ou barbárie

A Selva - Wilfredo Lam




Esse é o lema predominante no capitalismo contemporâneo. Universalizado a partir da Europa ocidental, o capitalismo desqualificou a todas outras civilizações como ‘bárbaras”. A ponto que, como denuncia em um livro fundamental, Orientalismo, Edward Said, o Ocidente forjou uma noção de Oriente, que amalgama tudo o que não é Ocidente: mundo árabe, japonês, chinês, indiano, africano, etc. etc. Fizeram Ocidente sinônimo de civilização e Oriente, o resto, idêntico a barbárie.

No cinema, na literatura, nos discursos, civilização é identificada com a civilização da Europa ocidental – a que se acrescentou a dos EUA posteriormente. Brancos, cristãos, anglo-saxões, protestantes – sinônimo de civilizados. Foram o eixo da colonização da periferia, a quem queriam trazer sua “civilização”. Foram colonizadores e imperialistas.

Os EUA se encarregaram de globalizar a visão racista do mundo, através de Hollywood. Os filmes de far west contavam como gesto de civilização as campanhas de extermínio das populações nativas nos EUA, em que o cow boy era chamado de “mocinho” e, automaticamente, os indígenas eram “bandidos, gestos que tiveram em John Wayne o “americano indômito”, na realidade a expressão do massacre das populações originárias.

Os filmes de guerra foram sempre contra outras etnias: asiáticos, árabes, negros, latinos. O país que protagonizou o mais massacre do século passado – a Alemanha nazista -, com o holocausto de judeus, comunistas, ciganos, foi sempre poupada pelos nortemamericanos, porque são iguais a eles – brancos, anglo-saxões, capitalistas, protestantes. O único grande filme sobre o nazismo foi feito pelo britânico Charles Chaplin – O grande ditador -, que teve que sair dos EUA antes mesmo do filme estrear, pelo clima insuportável que criaram contra ele.

Os países que supostamente encarnavam a “civilização” se engalfinharam nas duas guerras mundiais do século XX, pela repartição das colônias – do mundo bárbaro – entre si, em selvagens guerras interimperialistas.

Essa ideologia foi importada pela direita paulista, aquela que se expressou no “A questão social é questão de polícia”, do Washington Luis – como o FHC, carioca importado pela elite paulista -, derrubada pelo Getúlio e que passou a representar o anti-getulismo na politica brasileira. Tentaram retomar o poder em 1932 – como bem caracterizou o Lula, nada de revolução, um golpe, uma tentativa de contrarrevolução -, perderam e foram sucessivamente derrotados nas eleições de 1945, 1950, 1955. Quando ganharam, foi apelando para uma figura caricata de moralista, Jânio, que não durou meses na presidência.

Aí apelaram aos militares, para implantar sua civilização ao resto do país, a ferro e fogo. Foi o governo por excelência dessa elite. Paz sem povo – como o Serra prometia no campo: paz sem o MST.

Veio a redemocratização e essa direita se travestiu de neoliberal, de apologista da civilização do mercado, aquela em que, quem tem dinheiro tem acesso a bens, quem não tem, fica excluído. O reino do direito contra os direitos para todos.

Essa elite paulista nunca digeriu Getúlio, os direitos dos trabalhadores e seus sindicatos, se considerava a locomotiva do país, que arrastava vagões preguiçosos – como era a ideologia de 1932. Os trabalhadores nordestinos, expulsados dos seus estados pelo domínio dos latifundiários e dos coronéis, foi para construir a riqueza de São Paulo. Humilhados e ofendidos, aqueles “cabeças chatas” foram os heróis do progresso da industrialização paulista. Mas foram sempre discriminados, ridicularizados, excluídos, marginalizados.

Essa “raça” inferior a que aludiu Jorge Bornhausen, são os pobres, os negros, os nordestinos, os indígenas, como na Europa “civilizada” são os trabalhadores imigrantes. Massa que quando fica subordinada a eles, é explorada brutalmente, tornada invisível socialmente.

Mas quando se revela, elege e reelege seus lideres, se liberta dos coronéis, conquista direitos, com o avança da democratização – ai são diabolizadas, espezinhadas, tornadas culpadas pela derrota das elites brancas. Como agora, quando a candidatura da elite supostamente civilizada apelou para as explorações mais obscurantistas, para tentar recuperar o governo, que o povo tomou das suas mãos e entregou para lideres populares.

É que eles são a barbárie. São os que chegaram a estas terras jorrando sangue mediante a exploração das nossas riquezas, a escravidão e o extermínio das populações indígenas. Civilizados são os que governam para todos, que buscam convencer as pessoas com argumentos e propostas, que garantem os direitos de todos, que praticam a democracia. São os que estão construindo uma democracia com alma social – que o Brasil nunca tinha tido nas mãos desses supostos defensores da civilização.


Emir Sader, é filósofo e doutor em Ciência Política(USP). Colabora em publicações nacionais e estrangeiras e é membro do conselho editorial do periódico inglês New Left Review. É autor dos livros "A vingança da História" e "Século XX - Uma biografia não autorizada - O século do imperialismo".
Esse artigo foi extraído de agenciacartamaior.com.br

02/11/2010

Olhares...






Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem olhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moínhos
Dom Quixote vê gigantes.


Vê moínhos? São moínhos.
Vê gigantes? São gigantes.



Antonio Gedeão, pseudônimo de Rômulo Vasco da Gama de Carvalho, Lisboa (1906-1997)

28/10/2010

Microcontos

Prometeu Acorrentado
Pus minha mão no fogo.
Me queimei.
Livrai-me dos abutres!
Menashe Kadishman

De Flávio Moreira da Costa



Crepuscular

Pegou o chapéu, embrulhou o sol,
então nunca mais amanheceu.



Antonio Bandeira

De Menalton Braff



Teste de vista

Ler? Não, senhor.
São óculos para descanso.

Gerard Richter

De Moacyr Godoy Moreira




Monólogo com a sombra

Não adianta me seguir.
Estou tão perdido quanto você

Cildo Meireles

de Rogério Augusto
Extraído de "Os cem menores contos brasileiros do século" - Organização de Marcelino Freire - Coleção 5 Minutinhos - Ateliê Editorial

26/10/2010

Eu também não...








Eu não gosto de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto de bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências

Eu não ligo pra conchavos
Eu não suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos


Mas o que eu não gosto
é do bom gosto!

Eu aguento até os modernos
e seus segundos cadernos...
Eu aguento até os caretas
e suas verdades perfeitas...!?


O que eu não gosto
é do bom gosto!


Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldes


Eu respeito tiranias
e compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades


O que eu não gosto
é do bom gosto!

Eu gosto dos que têm fome,
dos que morrem de vontade,
dos que secam de desejo...
Dos que ardem...!



Senhas, de Adriana Calcanhoto
Tela de Antonio Bandeira - Nordeste, 1942

25/10/2010

Poema para Galileu



Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não Galileu! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.





Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria.
Eu sei...Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo, Galilei!
Olha, sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo de tua mão direita num relicário.


Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência, as coisas que me deste.
Eu, e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ía jurar - que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.



Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou um seixo da praia?
Era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.


*******


Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores
deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a ralar pelos espaços
à razão de trinta quilômetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo, Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam
de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Antonio Gedeão, pseudônimo de Rômulo Vasco da Gama de Carvalho, historiador, professor e poeta, nascido em Lisboa (1906-1997)

22/10/2010




VI


porque me doem
os teus olhos?
porque me doem
assim tanto
como se fossem
dongos
flutuando
águas de melancolia
na prata líquida
de um kwanza
estagnado
sem saber a foz
numa louca expressão
quase de morte
e alienação?
porque me dói
assim tanto
a voz dos teus olhos?...


Namibiano Ferreira, poeta angolano, autor do blog http://poesiaangolana.blogspot.com/
Foto: Arnaldo Carvalho

20/10/2010

Reconstrução


















Ouvir pacientemente
a voz da Terra.
Esta voz que ilude o lábio e escapa,
entre dentes,
sincopada,
da garganta cerrada,
do silêncio.


Ouvir a palavra dura,
a dor cuspida
coração afora,
a Esperança sepultada
coração adentro.


Não calar essa voz,
essas mãos,
porque então a Terra
falará pela boca dos vulcões.


E não basta ouvir,
é preciso que a mão
golpeie o leme
e corrija o rumo
mar adentro,
terra adentro,
classe adentro
raça adentro.


Pedro Tierra, pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva, poeta, nascido em Porto Nacional(TO) em 1948. É autor de Poemas do Povo da Noite(menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas, 1977), Missa da Terra sem-males(em parceria com Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento), Água de rebelião, Inventar o Fogo. Foi secretário de cultura do Distrito Federal e é presidente da Fundação Perseu Abramo.