29/06/2010

"Quitandeira"

foto: br.olhares.com


A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranja boa!


A luz branca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida busca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.


A quitandeira
que vende fruta
vende-se.


- Minha senhora,
laranja, laranjinha boa!


Compra laranjas doces,
compra-me também o amargo desta tortura,
da vida sem vida.


Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para o início.


Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.


E aí vão vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.


Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas,
à beleza das ruas asfaltadas,
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.


Aí vão as laranjas
como eu me oferecí ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.


Tudo tenho dado.


Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-a aos poetas.


Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas, minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.


Talvez vendendo-me eu me possua.


- Compra laranjas!




Antonio Agostinho Neto, Catete (Angola) - 1922-1979

25/06/2010

Arte poética, de Jorge Luís Borges



Mirar el rio hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro rio,

saber que nos perdemos como el rio

y que los rostros pasan como el agua


Sentir que la vigilia es otro sueño

que sueña no soñar y que la muerte

que tiene nuestra carne es esa muerte

de cada noche, que se llama sueño.


Ver en el dia o en el año un símbolo

de los dias del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo


Ver en la muerte el sueño en el ocaso

un triste oro, tal es la poesia

que es inmortal y pobre.


La poesia

vuelve como la aurora y el ocaso.


A veces en las tardes una cara

nos mira desde el fondo de un espejo;

el arte debe ser como ese espejo

que nos revela nuestra propria cara


Cuentan que Ulises, harto de prodigios,

lloró de amor al divisar su Ítaca

verde y humilde. El arte es esa Ítaca

de verde eternidad, no de prodigios.


También es como el rio interminable

que pasa y queda y es cristal de un mismo

Heráclito inconstante, que es el mismo

y es otro, como el rio interminable.

24/06/2010

Olha pro céu, meu amor...!!!

Olha pro ceú, meu amor!

Vê como ele está lindo!

Olha praquele balão multicor,

como no céu vai sumindo...

Foi numa noite igual a esta,

que tu me deste teu coração...

O céu estava assim, em festa,

pois era noite de São João.

Havia balões no ar

xote, baião no salão,

e no terreiro, o teu olhar,

que incendiou meu coração...!!!

Luís Gonzaga/ José Fernandes

21/06/2010

Um conto de Murilo Rubião (1916-1991)





Vinde todos, ajuntai-vos, povos indignos de ser amados.

(Sofonias, II, I)



Uma explosão violenta sacudiu a cidade. Seguiram-se outras - menores e maiores. Desnorteado, o povo corria de um lado para o outro. Alguém que se conservara calmo no meio de tanta desordem gritou:
- Não é o fim do mundo!
Eliminada a pior hipótese, surgiram novas conjeturas:
- Para um bombardeio, faltavam os aviões.
- Exercício de artilharia?
- Muito provável - apoiaram alguns, apressados em explicar o mistério.
- E os canhões? - indagaram os mais lúcidos.
Houve quem falasse de uma invasão misteriosa, para em seguida concordarem todos: D. José estava matando a esposa a dinamite.
Os populares hesitaram em aproximar-se do prédio. Após curto silêncio, vários estampidos foram ouvidos. Um vagabundo, que ainda não se emocionara com os acontecimentos, comentou:
- Será que a dinamite foi insuficiente e ele recorreu ao revólver?
Tornaram-se pálidos os rostos e, ansiosos, aguardaram o final do drama.

1 Tragédia?
Não. D. José estava experimentando fogos de artifício.
Ninguém quis confessar o desapontamento nem o gasto inútil de imaginação que, naquela meia hora de terror, fora exagerado nos espectadores.
- Não a matou desta vez, mas ela não escapará de outra. Seu ódio por dona Sofia é incontrolável!


2 D. José odiava alguém?
Calúnia! Amava a mulher, os pássaros e as árvores. Ela, sim, detestava-o, irritava-se com os animais.
Infelicidade conjugal?
Nunca! Os esposos combinavam admiravelmente bem.
Mas, entre os habitantes do lugar, não havia quem acreditasse nisso.
- Ela finge amá-lo somente pelo seu dinheiro.
Estúpidos! D. José era o homem mais pobre da cidade e tinha uma úlcera no estômago.


3 À mais leve contestação, contrapunham-se novas acusações:
- E os meninos, que choram noite adentro, famintos, espancados?
Falso! D. José perdera os filhos (cinco), vítimas da tuberculose. Agora recordava-se deles manipulando um aparelho que imitava o pranto infantil. E comovia muito mais que qualquer choro de criança.


4 D. José falava sempre de um livro que estava escrevendo. Um livro sobre duendes.
Era um fabulista?
Não. Os duendes habitavam sua própria casa, ao alcance de seus olhos.
Seria a mulher um deles?


5 Um dia encontraram-no enforcado. Disseram imediatamente:
- É só fingimento. O nó está pouco apertado.
- Vejam que cara matreira! Está zombando de nós.
Infâmia! D. José suicidara-se mesmo.
Por quê?
Todo o mundo fingiu não saber.


6 Aos que lhe tomaram a defesa, anos após a sua morte, perguntavam:
- Afinal, o que fazia esse D. José? Se não fumava, não bebia, não tinha amantes?
- Amava o povo.
- E o povo?
- Observava-o com ferocidade.


7 Mais tarde erigiram-lhe uma estátua. Com um dístico: "D. José, nobre espanhol e benfeitor da cidade".
Derradeira mentira. D. José era um pobre-diabo e não possuía nenhum título de nobreza. Chamava-se Danilo José Rodrigues.




"D. José não era", in Murilo Rubião - Obra Completa - São Paulo - Companhia das Letras, 2010.

20/06/2010

Trenzinho do Caipira, com Edu Lobo

Trenzinho caipira



Lá vai o trem com o menino,

lá vai a vida a rodar...

lá vai ciranda e destino,

cidade noite a girar...


Lá vai o trem sem destino

pro dia novo encontrar,

correndo vai pela terra,

vai pela serra, vai pelo mar,

cantando pela serra do luar,


correndo entre as estrelas

a voar, no ar...!
Heitor Villa-Lobos/Edu Lobo

18/06/2010

A Ilha Desconhecida de José Saramago (reeditado)


Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco, A casa do rei tinha muitas portas, mas aquela era a porta das petições.

(...)

Que é que queres, Por que não disseste logo o que querias, pensarás tu que eu não tenho mais nada para fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me
um barco, disse, O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha.
(...)
E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu pudesse dizer, então não seria desconhecida
(...)
E tu quem és, para que eu to dê, E tu, quem és, para que não mo dês, Sou o rei desse reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei inquieto, Que tu sem eles, és nada, e que eles
sem ti, poderão sempre navegar
(...)
Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas (...) Vais à doca, pergunta lá pelo capitão do
porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, leva o meu cartão
(...)
O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar, O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco(..) Disseram-me que já não há ilhas descohecidas, e que mesmo se as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego de seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso
(...)
E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo


Extraído de "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago, escritor português, Prêmio Nobel de Literatura em 1998. É autor de uma vasta obra, entre as quais podemos citar "Caim" (publicada recentemente), "Ensaio sobre a Cegueira", "O Evangelho segundo Jesus Cristo", "Memorial do Convento", "Todos os Nomes".
José Saramago faleceu hoje, aos 87 anos, em sua casa nas Ilhas Canárias.

16/06/2010

África do Sul...


"O Campeonato Mundial é um grande circo. Mas o povo precisa de pão.
Qual será o estado de espírito após o Campeonato Mundial?
É uma coisa estranha. Apesar de haver uma grande excitação acerca do campeonato, experimentamos tremendas dificuldades. Não sou uma desmancha-prazeres, com certeza. O povo precisa de pão e circo, e isto é um grande circo. Deixem-no desfrutar. Mas e o pão?
Será uma coisa boa para a África do Sul? É difícil avaliar qual será o benefício posterior. Tomem-se os estádios - será que realmente precisamos deles? E o que fazer com eles? O dinheiro que está sendo gasto podia proporcionar habitação para muitos que vivem em barracos."



Nadine Gordimer, escritora sul-africana nascida em Johannesburgo(1923- ), com
mais de 30 obras publicadas, entre crônicas e romances, todos abordando a deterioração social que atingiu seu país durante o regime do apartheid. Recebeu o Nobel de Literatura em 1991 e mais recentemente, o Legião de Honra, da França.

Torre de Soweto

Mercado de Soweto



Situado a 24 km de Johannesburgo, foi construída para abrigar(segregar) os negros africanos que até então viviam entre os brancos, mas em áreas designadas pelo governo. Em junho de 1976, há exatos 34 anos, ocorreu em Soweto uma revolta provocada pela determinação do governo de minoria branca: a partir daquela data, os negros estavam obrigados a falar somente o "afrikaner" (uma aglutinação dos idiomas inglês e holandês), e proibidos de falar o inglês (falado pela maioria da população ou outra língua; na África do Sul fala-se pelo menos 15 idiomas. Esse acontecimento provocou a morte de mais de quinhentos negros e Soweto passou a ser o símbolo da luta contra o apartheid, liderado por Nelson Mandela. Em 1961, Mandela foi preso, passando 27 anos na prisão; foi solto em 1992 e em 1994 foi eleito presidente da república.



Soweto, subúrbio de Johannesbourg

Pretória, sede administrativa do governo

Cidade do Cabo, sede do Poder Legislativo


Cabo da Boa Esperança

Montanha da "mesa"

12/06/2010

Quem conta um conto...

Era sábado, e o correio estava fechado. Só faltava essa, pensou, atirando a carta na lata do lixo. Sentou num banco da praça, a esmo. Eu tenho o dobro da idade que tu tinhas quando tinha a idade que tudo tens; falta a segunda equação e, portanto, falta tudo. Quem diabo foi Bartolomeu Mitre? Visconde de Albuquerque? Ataulfo de Paiva?

Antero de Quental? Esta praça poderia muito bem chamar-se Carlos Drummond de Andrade, ora se, mas pouca gente percebeu isso. Estou sem mulher, estou sem discurso, estou sem teogonia, hoje beijo, amanhã não beijo e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Tinha que fazer alguma coisa, em vez de ficar alí, enxugando gelo, e decidiu caminhar até o barbeiro.


Pça. Antero de Quental

- Godô, cabelo e barba, por favor.

- Deixa comigo, doutor .

O barbeiro assumiu a conversa em caráter de exclusividade, falando tudo e coisa nenhuma. Sou Flamengo, no verão as mulheres ficam mais bonitas, não tenho ido a Itaperuna, Barack Obama é diferente de Bill Clinton, que não respeitava nem papagaio embriagado, os melhores chopes são os do Bracarense, Jobi e Clipper e, na cidade, o do Bar Luís, o Ney Matogrosso, que tem tudo para não ser tão modesto, corta cabelo aqui, o João Ubaldo Ribeiro também, o Alceu Valença mora aqui na rua, mas não corta cabelo em lugar nenhum, um dia ainda saberei o que significa crise cambial, a palavra mais sugestiva que conheço é bunda, amanhã vou bater uma bola federal...

- Você joga bola nos domingos?

Jogava. Todos os domingos disputava duas ou três partidas no campinho da Pavuna, tomava dez latas de cerveja, comia duas horas de feijoada com muita caipirinha e dormia até a manhã de segunda-feira. Estevinho ponderou que era um hábito perigoso, bom seria consultar um cardiologista, fazer um teste ergométrico, pois os atletas de fim-de-semana, muitas vezes se surpreendem, vítimas de enfarto, e podem morrer durante o jogo.
- Ora doutor, faço isso desde os 18 anos, estou com 38, nem sei se tenho coração. Esse negócio de médico não é necessário quando o cabra é macho. Meu pai jogou até os 60 anos e mais não joga porque tem um problema no joelho.
Na saída, dei uma gorjeta generosa e ainda acrescentei, alto e bom som:
- Se fosse você, Godô, só jogaria após exame médico e autorização de um cardiologista, pois você pode morrer em pleno campo.
Havia um pouco de show-offismo nas minhas palavras, mas disse aquilo de boa fé. O Godô estava falando sem parar havia vinte minutos, e, eu, absolutamente calado. Sei lá... De vez em quando, é necessário falar também, interessar-se, ser solidário. Mas, diabo...Por que não interrompí quando o assunto foi Bil Clinton? Ney Matogrosso? João Ubaldo era também um tema adequado, pois gosto muito daquela do cachorro que se chamava Logoeudigo. Cachorro ou gato? Podia puxar assunto sobre Claire Danes, Jessica Biel... Mas eu decidí dar conselho, cacete. Na segunda-feira recebí a notícia: Godô faleceu jogando futebol, no domingo. Toda a barbearia e a Rita Ludolf inteira atestaram que o barbeiro não morreu espontaneamente. Jogava desde os 18 anos e nunca tinha acontecido nada. Aí veio o tal de Estevinho e disse: você pode ter um ataque cardíaco em pleno jogo.





Todo mundo ouviu, o Ricardinho, o Miranda, o Ernani, o Pintinho e o Zeca Torres. O Quincas não ouviu porque tinha ido à farmácia. Nossos outros clientes, o doutor Zé Moacir, o Terêncio Marques, o Antonio Maciel, todos, todos mesmo, podem confirmar: ele matou o Godô.

- Agourento de uma figa!

O Quincas garantiu que em Baependi tem um alfaiate que bota mau-olhado: se ele olha um passarinho na gaiola, o passarinho amanhece morto, não há escapatória. Se disser vai chover amanhã, sai de baixo que amanhã vem temporal, enchente, desabamento, aflição e morte. Certa vez o celerado afirmou que era certo faltar carne em Baependí; e no mesmo dia os bois de corte comeram ração envenenada e morreram.

- Gente com essa qualidade gosta de fazer o mal, e somente o mal.

- Olho vivo, seu Venâncio, olho vivo.

Seu Venâncio ficou impressionado e, para salvar o negócio, mandou vir o padre, que benzeu a barbearia e derramou água benta na cadeira do Godô. De mãos dadas, todos rezaram com redobrado fervor um Padre-Nosso e um Salve-Rainha. Depois do episódio, Estevinho mudou de barbearia e não teve mais coragem de passar pela Rita Ludolf. A morte de um ciclista, matar ou morrer, morte em Veneza, morte e vida Severina, os vivos e os mortos, a morte passou por perto, as sete máscaras da morte, a morte do caixeiro-viajante, disque M para matar, quem matou Baby Jane?

- Eu Estevinho Pastasciutta, matei o barbeiro.






"Eu, panaca, matei o barbeiro e havia muitas testemunhas", conto de Remo Mannarino, engenheiro, natural de Muriaé(MG), autor de "O Homem horizontal" (romance) e "Hamlet e Macbeth nasceram em Muriaé" (contos).

09/06/2010

"Sonhe. Tenha até pesadelos, se necessário..."


S. João da Boa Vista(SP), onde nasceu Pagu



Patrícia Rehder Galvão, (1910-1962) ou simplesmente Pagu, como era chamada pelos amigos, completaria 100 anos se ainda estivesse entre nós. Mas teve uma existência abreviada por causa de um câncer. E durante os cinquenta e dois anos que viveu, participou intensamente dos movimentos políticos e sócio-culturais de sua época. De espírito crítico e combatente, fugia aos padrões ditos "femininos", usando saias curtas, blusas transparentes, cabelos revoltos e batons de cores vivas. Já aos 15 anos integrou-se ao movimento antropofágico, do qual faziam parte Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Raul Bopp, entre outros. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro(PCB), participando de várias manifestações, que lhe resultaram em 23 prisões. Foi a primeira mulher a ser presa no Brasil por motivações políticas. Além de jornalista, foi animadora cultural, dirigiu peças de teatro e escreveu dois livros: "Parque Industrial" (sob o pseudônimo de Mara Lobo) e "A famosa revista". Escreveu também alguns contos policiais sob o pseudônimo de King Shelter.
Pagu foi, de fato, uma mulher extraordinária, de muita coragem, que conseguiu enfrentar preconceitos muito mais evidentes contra a mulher, do que os que ainda temos hoje. Com apenas 20 anos viajou sozinha para Buenos Aires, na Argentina, para participar de um Congresso de Poesia. Lá, teve a oportunidade de conhecer o escritor Jorge Luís Borges e o militante comunista brasileiro Luís Carlos Prestes(dirigente do PCB). Viajou por vários países europeus, quando então foi correspondente dos jornais Diário de Notícias e Correio da Manhã. Durante sua permanência em Paris, conviveu com os surrealistas André Breton, Louis Aragón, Paul Éluard. Filiou-se ao Partido Comunista Francês com identidade falsa, e por esse motivo foi repatriada para o Brasil, passando 5 anos na prisão. Após sair da prisão rompeu com o PCB.
Os últimos anos de sua vida foram dedicados ao teatro, atividade que realimentava sua capacidade de sonhar:


" Sonhe. Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe."
Fotos: wikipédia

06/06/2010

Procura da Poesia

Jonathan Callan


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais
não contam.
Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo
e confortável corpo, tão infenso à
efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.


Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem;
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.


Não dramatizes, não invoques,
não indagues.
Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.



Não recomponhas tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.




Carlos Drummond de Andrade, in "A Rosa do Povo" - 21a.edição - Edit.Record - 2000 - São Paulo - SP . Os 55 poemas constantes dessa edição foram escritos entre 1943/1945, enquanto acontecia a Segunda Guerra Mundial.

02/06/2010

...."em seu silencioso coração, moram as reticências."

foto: http://parkerlab.bio.uci.edu/pictures




Os pelicanos são como aves raras, e moram, em seu silencioso coração, as reticências.

Arcar com o severo pesadume do bico é, deles, dos pelicanos, uma insubstituível marca e, de certo modo, um glorioso acinte. Pudessem, não envergariam pela vida afora os bicos como trombas tristes e nem exibiriam as longas melancólicas pernas feito uma humilhação compulsória.

Ah, guardam, no escuro papo guardam uma esmeralda viva e sonham por nós o sonho oblíquo de que sendo sumamente feios de físico e feição, nós, os dois, neste lago merencório, alcancemos soar, quem diria?, perfeitamente escarlates.

Voar não podemos dada a complexidade do corpo contra a magra asa. Assim, jaburu, o nariz e a dilatada marca de teu lábio inchado.




"Pelicanos", texto de Wilson Bueno, cronista e escritor paranaense nascido em Jaguapitã, considerado um dos melhores escritores brasileiros da nova geração. É autor de "Bolero's Bar" (seu primeiro livro publicado), "Ojos de Água", "Manual de Zoofilia", "Cachorros do Céu", Amar te a ti nem sei se com carícias", "Mar Paraguayo", entre outros. Foi assassinado dia 31 de maio passado, em sua própria casa em Curitiba, aos 61 anos de idade.

01/06/2010

"Para mim, a escultura é o corpo..."


Louise Bourgeois e sua escultura preferida, em 1999



"Maman 1999" - foto Nathan Strange/AP




Da série "Maman" - Museu de Arte Moderna (SP)




"Étoile"



"Pregnan woman"




Louise Bourgeois, (1911-2010), nasceu em Paris e mudou-se para Nova York em 1938. Começou sua arte aos 10 anos de idade ajudando seus pais a restaurar tapetes antigos e produziu trabalhos até dois dias antes de ir embora (ontem, dia 31 de maio) Completaria 99 anos em dezembro. "Para mim, a escultura é o corpo, meu corpo é minha escultura", dizia. Mesmo tendo se expressado através de outras formas plásticas, era conhecida principalmente como escultora, cujo trabalho primava pelo simbolismo com forte influência dos surrealistas, com os quais conviveu em Paris durante a guerra. Sua série de esculturas mais famosa leva o título de "Maman" (em homenagem à sua mãe), com aranhas feitas com aço e mármore, de até 9m de altura; encontram-se expostas em várias cidades do mundo, inclusive no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Parque do Ibirapuera.


As fotos das telas foram extraídas do site de Xavier Hufkens