DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

18/10/2015

Os Homens ocos

Foto: Misha Godim



Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III
 
 
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqi as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
 
 
IV
 
 
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos partidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na prais do túrgido rio.
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
 
 
V
 
 
[.........]
 
 
Assim acaba o mundo
Assim acaba o mundo
Assim acaba o mundo
Não com um estrondo,
mas com um gemido.
 
 
 
T. S. Eliot


Um comentário:

  1. Y así arrastrados al valle de la muerte caminan los hombres con los ojos vueltos hacia adentro, ciegos, tanteando, olvidando, hombres indiferentes, sin alma, todos arrastrados a un mundo de tinieblas.

    Los últimos versos junto con la maravillosa foto me dejan sin habla, Cirandella.
    Un sólo gemido de impotencia. Hermoso en la manera de exponerlo y terrible el contenido.

    Un beso,

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