Minhas mãos, meu cérebro, meus pensamentos, o mundo, a multidão, a solidão, e os meus pés, ardem sobre fagulhas de pedras pontiagudas, e furam e perfuram meu estômago, deixando-me em frangalhos... Há muitas pedras no caminho. Caminhar sobre pedras não é fácil, porque elas também caminham, imperceptivelmente, com a ajuda de ventos ou de águas turbulentas. Fecho os olhos em ondas curtas, médias e frequentes, mas não vislumbro sequer um peixe; decerto partiram em busca de outros mares, ou caíram em cadafalsos, ou guilhotinas: todos enforcados! Não sei ao certo por que me veio à cabeça imagens de pedras. Vez em quando, tenho a nítida sensação de que sou um minúsculo grão de areia, uma reles poeira carregada pelo vento. Nascer nas pedras, viver entre pedras, caminhar sobre pedras. .. Será que somos feitos de pedras? Sim e não: de pó, de água da chuva, de sal e sol e vento, de contradições, de sentimentos de amor e de ódio, de dor e prazer, de alegria e de tristeza. Enfim, somos seres vivos, às vezes humanos, noutras, nem tanto...!
DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)
02/07/2022
23/06/2022
O Sobrevivente
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a O jornal que ainda falta muito para atingirmos um
nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
03/06/2022
Tentando sonhar...
A ventania, Anita Malfatti
Olhei para o céu, e vi um grande livro aberto onde as letras eram estrelas formadas por pontos luminosos, que se deslocavam; as fixas constituíam os parágrafos, e as que se moviam, eram as mudanças de páginas. Esse imenso espelho celeste refletia os grandes astros da literatura universal. De repente, ouvi uma voz a perguntar-me: "- O que vais fazer com este espelho?" Um vento forte soprou em minha janela. Acordei. Preciso aprender a sonhar, a compreender melhor o canto das sereias que desafiavam a lucidez de Ulisses; a importância dos moínhos de vento de Dom Quixote, e sobretudo, continuar buscando a ilha desconhecida, da qual nos falou José Saramago.
29/05/2022
22/05/2022
Indagações
Albrecht Dürer
Sentada diante de uma tela em branco tento extrair minúsculas partículas de lucidez para preencher esse vazio que vem insistindo em instalar-se em meu cérebro. Um vazio que surge quando quase tudo já transbordou, ultrapassou os limites do que é possível, porque o vazio, quando excede, enche! Nada, não sai nada; mesmo vendo, sentindo na minha própria carne, na tua, na de milhões de pessoas que habitam essa terra, a carência de alimentos, a fome, a falta de moradias, de saúde, de educação, de bem-estar, de uma vida digna. Uma mistura de sentimentos contraditórios dialogam, e ao mesmo tempo divergem dentro de mim: impotência, medo, covardia, ou hipocrisia ou comodismo? Essa aparente diversidade de sentimentos tem, paradoxalmente, me deixado sentada diante, e não à beira da indiferença. Continuarei indagando enquanto não sair deste labirinto...
16/05/2022
Um poema de Linda Pastan *
Estou aprendendo a abandonar o mundo
antes que ele me abandone.
Já desisti da lua
e da neve fechando minhas cortinas
contra as reivindicações do branco.
E o mundo levou
meus pais, meus amigos.
Abandonei as linhas melódicas das colinas,
passando para uma paisagem plana, desafinada.
E todas as noites eu desisto do meu corpo,
membro por membro, em movimentos ascendentes
através dos ossos, em direção ao coração.
Mas a manhã chega com os pequenos
adiamentos do café, e do canto dos pássaros.
Uma árvore do lado de fora da janela,
que há pouco era apenas uma sombra,
recuperou seus galhos frondosos
ramo por ramo.
E enquanto eu retomo o meu corpo,
o sol pousa mansamente em meu colo
como se quisesse fazer as pazes.
* Linda Pastan é uma poeta norte-americana de origem judia. Nasceu em Nova York, em 1932. No próximo dia 29 de maio completará noventa anos! Já publicou 15 livros de poemas.
09/05/2022
Nem, nem...
Faz frio, mas está quente. Há risos, enquanto todos choram. Um corte no céu; da boca abre-se um rio de lamentos que repercutem pelas costas das encostas. Não cheguei, nem parti. Fui esquadrinhada, esquartejada. Quadricularam-me em bolhas de sabão, e por isso vivo escorregando em cascas de bananas. As bananeiras não têm galhos, mas os macacos vivem pulando, jogando suas cascas para que escorreguemos.
04/05/2022
O medo
Man Ray
Porque há para todos nós um problema sério...Este problema é o do medo
Antonio Cândido, Plataforma de uma geração.
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
de nós, de vós: e de tudo. Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivéssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terras das estradas,
susto na noite, receio de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
Carlos Drummond de Andrade, em A rosa do povo
19/04/2022
Ao Tempo
Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida
A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando, andando, andando.
Tempo, vais para diante ou para trás?
Dante Milano, Rio de Janeiro - 1899-1991
12/04/2022
Perguntas sem respostas...
Decifra-me ou te devoro
Onde está o menino que eu fui?
Está dentro de mim ou se foi?
Sabe que jamais o quis e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo crescendo para nos separarmos?
Por que não morremos os dois quando minha infância morreu?
E se minha alma se foi por que me segue o esqueleto?
( Pablo Neruda, O esqueleto)
*****
Quem fez a primeira pergunta?
Quem fez o mundo?
Quem disse a primeira palavra?
Por que se morre?
Por que se ama?
Por que se odeia?
Por que há o som?
Por que há o silêncio?
( Clarice Lispector, A descoberta do mundo)
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O olho que te vê
Não é olho porque tu o vês.
É olho porque te vê.
Antonio Machado







