DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

15/10/2022





Uma densa nuvem de vagalumes sobrevoa os pastores da noite.                          Brasas emergem das cinzas... 

09/10/2022

Luto da Família Silva - Crônica de Rubem Braga *




Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.                                                                    João da Silva - Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da Silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre: nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços.         


                   Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva.           João da Silva - Nunca nenhum de nós esqueceu seu nome. Você não possuía sangue azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho - vermelhinho da Silva. Sangue de nossa família. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, na mata, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telhas de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz de tudo.                                                               Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política...


Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim(ES) e faleceu no Rio de Janeiro em 1990. Essa crônica foi escrita em 1935. Após 87 anos continua atual ! 

04/10/2022

De Jorge Luis Borges

 




Olhar o rio que é de tempo e água,

E recordar que o tempo é outro rio.

Saber que nos perdemos como o rio

E que os rostos passam como a água.


Mas a alma em meio à ruidosa monotonia da vida,

continua a ouvir uma voz que vem nos intervalos.

Continua a chorar ao ouvir uma melodia que não havia.

Continua a ouvir a fala de um estranho que vive em nós,

e que nos visita nos sonhos.

26/09/2022

"Elevação" (trechos)


 


Feliz aquele que pode com uma asa vigorosa

ir em direção aos campos luminosos e serenos.

Aquele cujos pensamentos são como pássaros

em direção aos céus da manhã para um livre voo.

Quem planar sobre a vida, e compreender sem esforço,

a linguagem das flores e das pequenas coisas.


Charles Baudelaire (1821-1867)

16/09/2022

Numa noite de verão

 



Dois ramos de brócolis para dissimular quem está nu.

Uma mansão de sete portas fechadas a sete chaves, sem teto.

Uma imensa tela de imagens coloridas.

Um barco sem velas, encalhado em alto mar de águas escuras, numa 

tarde também escura.

Nado de cachorro para atravessar a covardia do medo:

Não verás nada igual ou semelhante!

04/09/2022

Dedo mindinho, seu vizinho...




É fino o fio que aprisiona nossas ideias; quando soltas esparramam-se sobre o papel. Os cabelos, quando soltos, despenteiam os pensamentos cheios de nós, "acostumados" a não terem suas próprias ideias. São tramas traçadas desde muito cedo, (dis)torcidas em seu nascedouro.               Fure o bolo, cate o piolho...!

"Dedo mindinho, seu vizinho, fura-bolo, cata-piolho. Cadê o bolo que estava aqui?"  As crianças estão indo para onde? O bolo emborolou, a massa está falida, o bolo é para poucos!

23/08/2022

Imaginem !

 Osvaldo Goeldi



Buscar estrelas no espaço celeste, e ver  apenas um quadro branco no quadrado do quarto. No entanto, nem todo quadro é quadrado assim como um quarto não é a quarta parte da casa, mas um enlatado debaixo de um viaduto qualquer, onde os os pássaros de aço cantam durante a noite inteira. Imaginem! Imaginem um sonho esquartejado num quarto de hora, em um quarto a céu aberto... onde as palavras, minúsculas gotículas que respingam sobre a cabeça ribombam como raios, como se estrelas cadentes fossem, deslocando-se pelo espaço cerebral. Imaginem! Palavras soltas, desgarradas, mas que aos poucos vão se juntando, aglomerando-se umas às outras; uma multidão de estrelas, digo sons, falo de pessoas amontoadas, de um grande cordão de corpos desvalidos, chumbados e boquiabertos. Onde encontrar estrelas? 

13/08/2022

Paradoxos




Azuis eram as linhas por onde passava o trem que ía de Caixa Prego a Lugar Nenhum. Até que um dia tentaram passar uma cortina de ferro sobre os trilhos, e tudo ficou na penumbra. Hoje em dia, quem passa por aquela estação vê que tudo não passou de uma ilusão de ótica: o que não parece é exatamente o que é!                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       

05/08/2022

Ai de ti, Copacabana (trechos)




Ai de ti, Copacabana, porque eu já te fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.

Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

Antes de te perder eu agravarei a tua demência - ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus mrros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Rio de Janeiro, 1958


Rubem Braga, Cachoeiro de Itapemirim(ES) - 1913-1990