DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

25/05/2020

Prometeu, Friedrich Füger


No jardim dos aflitos os corações pipocam pra fora do peito; as ilusões perdidas encontram-se agora num grande congresso, onde a realidade bate à porta para que todos acordem desse pesadelo que vem assolando o mundo inteiro e a enfrentem.
Um concerto fúnebre entoa uma melodia para que todos bailem numa dança macabra, que remonta a um passado sombrio e assustador.
Os justiceiros de plantão ameaçam: haverá fogo e baionetas em nome da ordem e do poder. Poder para desmantelar, desmontar tudo, torturar e até matar.
Mas, quem já viveu, e sobreviveu, ao tacão de uma ditadura, sabe que o medo tem múltiplas facetas, podendo desencadear reações imprevisíveis.
A lâmina da lucidez é flexível, e quando amolada tem o poder de tornar-se mais afiada e brilhante nos corações e mentes dos seres humanos!  

20/05/2020

À espera dos bárbaros




O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Konstantinos Kaváfis - Alexandria(Egito) 
1863-1933.

15/05/2020

UMA PEQUENINA LUZ, Jorge de Sena - Catarina Guerreiro


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919 e faleceu em 1978 em Santa Bárbara(EUA) 

13/05/2020




Fui para os bosques viver
de boa vontade
para sugar todo o tutano
da vida...
Para aniquilar tudo
o que não era vida
e para, quando morrer
não descobrir que
não vivi!

Henry David Thoreau, Concord(EUA) 1817-1862

01/05/2020

"Todo homem é uma parte..."




Nenhum homem é uma ilha,
inteiramente isolado, todo homem
é uma parte de um continente,
uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado
pelas águas até o mar, a Europa
ficará diminuída, como se fosse
um promontório, como se fosse
o solar de teus amigos, ou o teu próprio:
a morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti.

Meditação XVII (1623)
John Donne, Inglaterra, 1572-1631

No man is an island,
entired of itself.
Each is a piece of the continente,
a part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thine own
or of thine friend's were.
Each man's death diminushes me,
for Iam involved in man kind.
Therefore, send not to know
for whom the bell tols
It tolls for thee.

27/04/2020

A mesma praça




A praça está vazia de pessoas. Debaixo dos bancos há ninhos de pombos misturados com carcaças de ratos e de pardais. O coreto, que outrora era usado para apresentações de uma banda que ali tocava em dias de festas, hoje está ocupado por uma matilha de cães que brigam entre si pelo o que resta dos ossos do poder. A maior parte da população da cidade assiste assustada, pelas frestas de suas janelas, a esse grotesco espetáculo. Uma pandemia de vírus se abateu sobre o lugar. Não se sabe qual deles é o mais devastador: um deles é invisível, é letal, mas se observadas, rigorosamente, medidas preventivas, muitas mortes poderão ser evitadas. Houve uma aparente mudança no comportamento das pessoas: aquelas que hoje ocupam o coreto, usavam máscaras  antes da pandemia, enquanto a população expunha sua cara de desvalida, de abandonada. As máscaras dos cachorros foram ao chão. Hoje a população recorre ao uso de máscaras para proteger-se de tantos vírus! E os ossos, ah!, os ossos? Quem é que sabe o que poderá acontecer após essa cachorrada?

24/04/2020

De Antonio Cândido *




"Todos sabemos que a nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização." - O direito à Literatura

*Antonio Cândido, sociólogo, crítico literário, escritor, nasceu no Rio de Janeiro em 1918 e faleceu
em São Paulo em 2017. 

17/04/2020

Diário de bordo III





O mar continua revolto, muitas turbulências;tubarões de presas afiadíssimas e famintos de ganância e poder, são cada dia mais numerosos. Estou cansada de remar, de cantar, de dançar no vaivém dessas ondas...Até quando persistirá essa tempestade?

O barco!
Meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não...!

Navegar é preciso
Viver não é preciso

O Barco!
Noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada...!

O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio...!

Navegar é preciso
Viver não é preciso

"Os argonautas", de Chico Buarque de Holanda

06/04/2020

Diário de bordo - II




Meu barco é de papel, tão frágil quanto o momento que atravessamos; tão frágil quanto somos todos, sem exceção. Muitos naufragam antes de concluir a travessia que lhes cabe, outros tentam remar contra
a maré, ignorando sua pequenez, estrebuchando para todos os lados. Em vão.
Vou tentando atravessar essa tormenta que se abateu sobre a humanidade. Dias melhores advirão, quem sabe? Enquanto isso, recorro a música, a poesia, a arte, recorro a ferramentas que podem me  tornar uma pessoa melhor enquanto estou por aqui.

O acorde inicial

Que a palavra se perca num rumor de queda
por indistintos círculo quebrados
e com o ser se dilate no silêncio e no olvido.
Que os instrumentos se apaguem e rasguem as imagens entre a adolescência do mundo e o perfume
do abismo.
Que a cor e a música recrudesçam e se extingam
como se um pincel pulverizado e um violino em cinzas, produzissem o acorde inicial e a junção com
o invisível.
Abandonando o teclado das certezas,
que a palavra roce as espécies desaparecidas
encontrando as fugitivas simetrias
e os frescos tornozelos da nascente.
Que não seja mais que o brilho de uma chave perdida, uma escada de traços que nunca hão de chegar.
Que respirem os elos, que os detritos falem
ao conjunto que se forma nos flancos do vazio.
Que sejam um sopro cego, um oblíquo trajeto na
distância, reunindo o inaceitável e a conivência inaugural, sem que nada perdure, sem que nada pereça, no alvéolo onde repousa a substância salva

Antônio Ramos Rosa, Faro(Portugal)
1924-2013