DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

03/04/2022

Ora, bolhas!




O ovo criou asas e voou, para ver a uva! Coitada, ficou viúva porque não via nada à sua volta. The book is on the table, pero ceci n'est pas un crayon; os livros não são mais escritos a bico de pena ou a lápis, viraram a mesa, ninguém mais senta-se em torno dela. Quem será que virou a mesa? As cabeças que outrora supunha-se pensantes, estão curvadas, hipnotizadas diante do seu objeto de desejo: o smartphone. Tudo indica que esse aparelhozinho é mesmo inteligente. Realizar tal façanha não é tarefa para qualquer um: - não me vejo, não te vejo, não olho para a frente, muito menos para trás ou para os lados. Ora, bolhas...!?

27/03/2022

Noite/Dia

 Ana Hatherly




Chuva a cântaros

choro a rios

abrolham

cachoeiras deságuam

nas encostas da alma

somente a dor conhece.

Tudo é silêncio

a natureza cerra os olhos

e dorme.

Se somos feitos de sonhos

como disse o poeta maior,

que nos juntemos a Morfeu para

quem sabe dormir uma noite

de verão

e acordar com o dia

trazendo o sol.

A chuva azuleja os dias

esfiapa o sol

sombreia a vida.

Noite e Dia - e os pensamentos

jogados na água escura dos rios.

19/03/2022

Pesquisa *

  "Divindade a água" - Adriana Varejão




Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.

Novalis


A gaivota determinada mergulha na água

verde. Há um tempo para o peixe

e um tempo para o pássaro

e dentro e fora do homem

um tempo eterno de solidão.

Muita vezes, fixando o meu olhar no morto,

vi espaços claros, bosques, igapós,

o sumidouro de um tempo subterrâneo

(patético, mesmo às almas menos presentes).

Vi, como se vê de um avião,

cidades conjugadas pelo sopro do homem,

a estrada amarela, o rio barrento e torturado,

tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.

Senti o hálito do tempo doando melancolia

aos que envelhecem no escuro das boates,

vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo

com uma tensão de nervos feridos, e corações espedaçados.

Se acordamos e ainda não é madrugada,

sentimos o invisível fender do silêncio,

um tempo que se ergue ríspido na escuridão.

Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.

O tempo goteja

como o sangue.

Os cães discursam nos quintais, e o vento,

grande cão infeliz,

investe contra a sombra.

O tempo é audível;

também se pode ouvir a eternidade.


* Paulo Mendes Campos, jornalista, cronista e poeta.

Belo Horizonte(MG), 1922-1991

12/03/2022

Carta Anônima

 



Esta é mais uma das inúmeras cartas, ou chartas, (do Latim) ou, se quiserem, khartes(do grego), que escrevo entre os relógios que o Tempo costuma quebrar, e as bússolas que desorientam. Vai para as nuvens que se deslocam através do vento; como uma folha amarelecida que cai da árvore da vida; que a ampulheta da história, ou os papiros do Egito registraram, já lá vão muitos séculos, até milênios, quem sabe?

Não se trata de uma troca, tampouco de uma comunicação ou esperança de obter uma resposta, pois sei que essas práticas estão cada vez mais em desuso nos dias de hoje. Trata-se, isto sim, de um livro aberto escrito nas estrelas que se desloucam permanentemente para a Terra, constituído de parágrafos caleidoscópicos, e que se espalham no cotidiano dos humanos. Um imenso espelho que nos mostra as múltiplas faces e facetas que usamos para negar a realidade que nos cerca. Como já escrevi em outras oportunidades, são "palavras ao vento, ao léu, como sementes que tentamos plantar, na expectativa de que pelo menos uma germine. Um livro aberto, sem começo e sem fim, ad infinitum. E qual é exatamente o propósito desta missiva? - Ora, direis! Mire-se no espelho, no seu próprio exemplo como criatura humana, e assuma o que é capaz ou incapaz de fazer. Dispa-se da veste moralista, arranque a máscara da hipocrisia, e da indiferença aos seus semelhantes! 

04/03/2022

"Que fizeste das palavras?"

 




Que fizeste das palavras?

Que contas darás tu dessas vogais

de um azul tão apaziguado?

E as consoantes, que lhes dirás,

ardendo entre o fulgor

das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás, quando

te perguntarem pelas minúsculas

sementes que te confiaram?


Eugênio de Andrade(José Fontinhas Rato)

Póvoa de Atalaia(Portugal) 1923-2005.

21/02/2022

Dos olhos que "arquipelagam-se"

 





Os olhos mergulham em águas lacrimosas como serpentes que deslizam num leito de rio à procura de alimento: saem das órbitas, arregalam-se. A boca cerra os dentes, e quase engole a língua - emudece. A mão caminha sobre a página em busca de palavras, mas os pés se metem entre elas para atrapalhar o caminho da linguagem. Lá do alto, o cérebro, que tudo comanda, vai liberando a mente e os pensamentos, transformando os olhos em pequenas ilhas de pedras que se metamorfoseiam em caminhos: arquipelagam-se!

19/02/2022

O Espelho: três autores sobre o mesmo tema (trechos)




Charles Baudelaire - Paris, 1821-1867


Um homem pavoroso entre e mira-se no espelho:

"Por que você se olha no espelho, já que não se pode ver senão com desespero?"

O homem pavoroso respondeu: "Meu senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em seus direitos; portanto possuo o direito de me contemplar, com prazer ou desgosto, isso não diz respeito senão à minha consciência."

Em nome do bom senso, eu tinha, sem dúvida, razão; mas do ponto de vista da lei, ele não estava errado.


*****


Machado de Assis, Rio de Janeiro, 1839-1908


[...] 

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros.(...) Olhava para o espelho, ia de um lado a outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...



*****



João Guimarães Rosa, Cordisburgo(MG)1908-1967


(...) Um dia...Desculpe-me, não viso a efeitos de ficcionista, inflectindo de propósito, em agudo, as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era - o transparente contemplador?...Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona.

Com que, então, durante aqueles meses de repouso, a faculdade, antes buscada, por si em mim se exercitara! Para sempre? Voltei a querer encarar-me. Nada. E, o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me espelhavam nem eles! 

12/02/2022

Aporia



Fosse fosso, fosse foz, fossem nozes que caíssem sobre as cabeças de um bom bocado de gente, talvez a casa não demorasse tanto tempo para cair. Talvez seja por isso que as raposas escorregam cada vez mais nos rios temporários, abundantes em porcos-espinhos!

04/02/2022

Desloucura, ou aporeticamente falando

 



Liberdade é ter asas de origami disfarçada de pássaro; é poder soltar gritos aprisionados nas catacumbas, nos porões das catedrais medievais cujos sinos emudeceram. São as garras da quimera enterradas no horizonte; é uma chita estampada em muitas cores entrelaçadas com fios pretos, dourados, prateados, forrada com estopa. Liberdade é pau, é preto, é pedra, é branco, amarelo, é pardo, é o verde das matas; é correr, é dançar, cantar, chorar e sorrir, espernear, é protestar. É ter a cabeça cheia de sonhos revelados, lembranças esquecidas; é ter pesadelos que se tornam realidade. É violência, espancamentos, perversão, racismo e xenofobia. Liberdade é o escancaro da porta da caixa de Pandora, é o salve-se quem puder! É o fardo ancestral que supõe-se amar, mas que em nome dela matamos. É fartura para uma minoria, e fome para a maioria.

29/01/2022

Virá a morte e terá os teus olhos *

 



Virá a morte e terá os teus olhos,

esta morte que nos acompanha

de manhã até à noite, insone,

surda, como um remorso antigo

ou um vício absurdo. Os teus olhos

serão uma palavra inútil,

um grito reprimido, um silêncio.

Assim os vês todas as manhãs

quando sozinho te inclinas

diante do espelho. Ó cara esperança,

nesse dia saberemos também

que és a vida e és o nada.

Virá a morte e terá os teus olhos,

será como abandonar um vício,

como ver no espelho

ressurgir um rosto morto,

como escutar lábios fechados.

Mudos, desceremos ao abismo.

(tradução de Rui Caeiro)


***


E então, nós, covardes


E então, nós, covardes

que amávamos a noite

sussurrando, as casas,

os cursos dos rios,

as luzes  rubras e sujas,

de tais lugares, a dor

adocicada e quieta -

nós rasgamos as mãos

da viva corrente

e calamo-nos, mas nossos corações

estremeceram-nos com sangue,

e não mais houve doçura,

e não mais abandonamo-nos

ao curso dos rios -

não mais servos, soubemos

estar sozinhos e vivos.


*Cesare Pavese, poeta, escritor, tradutor e crítico literário, nasceu em Turim (Itália). 1908-1950