27/11/2010

O real e seu duplo

" Se o real me incomoda e se desejo livrar-me dele, me desembaraçarei de uma maneira geralmente mais flexível, graças a um modo de recepção do olhar que se situa a meio caminho entre a admissão e a expulsão pura e simples: que não diz sim nem não à coisa percebida, ou melhor, diz a ela ao mesmo tempo sim e não. Sim à coisa percebida, não às consequências que normalmente deveriam resultar dela."
Clément Rosset
Gerard Richter




"O rapaz e o leão pintado" ( fábula de Esopo)


Um ancião timorato tinha um filho único cheio de coragem e apaixonado pela caça: sonhou que este morreria nas garras de um leão. Temendo que o sonho se realizasse, mandou construir um palácio custoso e magnífico para servir de morada ao filho. Para distraí-lo, mandara pintar nas paredes, animais de todo tipo, entre os quais figurava um leão. Mas a visão de todas essas pinturas só fez aumentar o desgosto do rapaz. Um dia, aproximando-se do leão, exclamou: "Fera cruel, foi por sua causa e por causa do sonho mentiroso do meu pai que me trancaram nesta prisão para mulheres." Com estas palavras, bateu com a mão na parede para arrancar o olho do leão. Mas um prego se cravou na sua unha causando-lhe uma dor violenta e uma inflamação que resultou num tumor. A febre que então ardia logo fez com que passasse da vida para a morte. Embora fosse pintado, o leão não deixou de matar o rapaz, para quem o artifício do pai de nada valeu.

25/11/2010

Corpo Urb

"Adão e Eva...!?
Caminhando pelas ruas da cidade os meus cabelos são fios de alta tensão, conduzindo uma energia perfumada que conecta-se às narinas tomadas que levam ao cérebro e processa a imagem flor.
Meu pé aralepípedo calçado no site alfalto pisoteia o que ainda resta da terra batida.
E desvia dos que descalços, ainda pisam na terra batida.
O caos perpassa e se instala em meu ventre. Dentro, entre um órgão e outro ocupa espaço me fazendo arrotar palavrões do caralho, puta que pariu, não aguento mais tudo isso!
Erguida, na copa Eu-máquina bebo do óleo preto que me refaz funcionar de novo.


Mariane Bigio, Olinda-PE, participante do 4º Prêmio Internacional Poesia ao Vídeo, promovido pela Festa Literária Internacional de Pernambuco, ocorrida em Olinda.

24/11/2010

Uma Capa

Pudor, de Antoine Corradine






Uma capa fiz do meu canto
De baixo a cima bordada
de antigas mitologias;
mas tomaram-na os tolos
para exibí-la ao mundo
como se para eles fora lavrada
Deixa, canto, que a tomem
pois maior feito existe
em andar nú


William Butler Yeats, Irlanda (1865-1939)

Tradução de José Agostinho Baptista

23/11/2010

A Visita



Como faço todas as tardes, tomei um banho, botei um vestido bem leve, me maquiei, passei perfume, ajeitei os cabelos com gel, fui até a sala, chamei um taxi, descí no elevador, cumprimentei o porteiro, peguei o taxi; dei a volta no quarteirão, saltei, tornei a cumprimentar o porteiro, subí no elevador, parei em frente à porta e toquei a campaínha.

Ninguém abriu.

Insistí, uma, duas, três, quatro vezes. Nada. Não adianta. Não estou. E fico aqui parada, diante da porta, na dúvida:
deixo um bilhete para mim?


Haiconto de Alice Barreira, Barura(Amapá), extraído de http://cesarcar.blogspot.com/

21/11/2010

Noites do Sertão - que saudades...!

Da mandioca quero a massa e o beijú, do mundéu quero a paca e o tatú;
da mulher, quero o sapato, quero o pé: - quero a paca, quero o tatú, quero o mundéu...
Eu, do pai, quero a mãe, quero a filha: também quero casar na família.
foto: Pedro Martinelli

Quero o galo, quero a galinha do terreiro,
quero o menino da capanga do dinheiro...


foto: ribeiraopequeno.com.br


Quero o boi, quero o chifre,
quero o guampo do cumbuco, do balaio, quero o tampo.
Quero a pimenta, quero o caldo, quero o molho
- eu, do guampo quero o chifre, quero o boi.
Qu'é dele, o doido, qu'é dele, o maluco?
Eu quero o tampo do balaio, do cumbuco...
João Guimarães Rosa

Música Popular Brasileira das boas!

20/11/2010

20 de Novembro - Dia da Consciência Negra!

Carla Peairo - Angola




Neste dia em que relembramos o dia do assassinato do líder negro ZUMBÍ DOS PALMARES, ocorrido em 1695, quero deixar registrado o meu abraço fraterno e solidário a todos os negros do Brasil e do continente africano, que ainda hoje são vítimas do preconceito de cor e da discriminação social e econômica. Embora tenha havido avanços no sentido de acabar com tudo isso, ainda temos muito a caminhar...

17/11/2010

As coisas

Portrait Robo, de Mozart-Arman


A bengala, as moedas, o chaveiro, a dócil fechadura,
as tardias notas que não lerão os poucos dias
que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
violeta, monumento de uma tarde
sem dúvida inesquecível e já esquecida.
O rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora. Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
nunca saberão que já nos fomos.




Jorge Luís Borges (1899-1986)

16/11/2010

Permanência

foto: trekeart






Minha pele não vê
a superfície da luz oculta
e o tato toca o corpo
sem sentir
o tom das tuas mãos.


Meu nariz não respira
o cair da tua presença
como sombra de meus passos
nem o olfato fala
teu cheiro de flores do campo.


Meus olhos não degustam
a grama da cama macia
e o paladar mastiga os lábios
sem engolir o gosto
dos beijos de açúcar.


Mas a pele, o nariz, os olhos em meu coração, poesia.


Dilson Lages Monteiro, Barras de Marataoã-PI

14/11/2010

O gramático arrependido

Jerusalém




Havia na cidade de Sijistán um senhor que estudava gramática. Certo dia, ele disse ao filho:
- Sempre que você quiser falar alguma coisa, consulte sempre a sua inteligência, pense a respeito com muito cuidado a fim de retificar a frase e somente então pronuncie as palavras, corretas e muito bem medidas.
Então, certo dia de inverno, enquanto ambos estavam sentados juntos diante de uma fogueira crepitante, uma brasa caiu no manto de seda com o qual o pai se cobria; ele estava distraído, mas o filho, que viu o ocorrido, calou-se por alguns instantes, pensativo, e depois disse:
- Papai, quero dizer uma coisa, o senhor me autoriza?
O pai respondeu:
- Se for verdade, fale.
O filho disse:
- Creio que seja verdade.
O pai disse:
- Fale.
O menino disse:
- Vejo algo vermelho.
O pai perguntou:
- O que é?
O menino respondeu:
- Uma brasa que caiu em seu manto!
Então o pai olhou para o manto, do qual uma parte já se queimara. Perguntou ao filho:
- E por que não me falou depressa?
O menino respondeu:
- Refletí a respeito como o senhor ordenou, em seguida retifiquei as palavras, e só então as pronunciei!
O pai jurou solenemente que nunca mais falaria sobre gramática.



Extraído de Histórias para ler sem pressa, escolhidas e traduzidas do árabe por Mamede Mustafa Jarouche, que obteve o Prêmio Jabuti pela tradução de "As mil e uma noites", diretamente do árabe para português.

12/11/2010

Espelho, espelho meu...!

Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me ví.
Não ví nada. Só os campos, liso, às vácuas, aberto como o sol,
água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo.
Eu não tinha formas, rosto?
Apalpei-me em muito. Mas o invisto. O ficto.
O sem evidência física. Eu era - o transparente contemplador?
Tirei-me. Aturdí-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona.
De "Primeiras Estórias", de João Guimarães Rosa

11/11/2010

Oscilação...




A cada oscilar do pêndulo

algo se apaga

ou para nós termina.


De segundo em segundo,

algo germina

ou para nós floresce...


Helena Kolody, Paraná (1912-2004)

09/11/2010

As Nuvens



Jalapão, Tocantins - foto: skyscrapercity




As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos da cantora muda;


são estátuas em voo

à beira de um mar;

a fauna e a flora leves

de países de vento;

são o olho pintado

escorrendo imóvel;

e a mulher que se debruça

nas varandas do sono;


são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados;

a medicina branca!

Nossos dias brancos.



João Cabral de Melo Neto

O tico-tico tá comendo...!?

Composição de Zequinha de Abreu (José Gomes de Abreu), paulista de Santa Rita do Passa Quatro(SP) - 1880-1935





O tico-tico tá, tá outra vez aqui,
o tico-tico tá comendo o meu fubá!
Se o tico-tico tem que se alimentar,
que vá comer umas minhocas no pomar...!

O tico-tico tá, tá outra vez aqui
o tico-tico tá comendo o meu fubá,
eu sei que ele vem viver no meu quintal
e vem com ares de canário e de pardal

Mas por favor, tire esse bicho do celeiro
porque ele acaba comendo o fubá inteiro!
Tira esse bicho de lá, de cima do meu fubá
tem tanta fruta que ele pode pinicar...

Eu já fiz tudo pra ver se conseguia,
botei alpiste pra ver se ele comia,
botei um gato, um espantalho e um alçapão
mas ele acha que o fubá é que é a boa alimentação...!

07/11/2010

Amazônia - a alternância das águas...

A seca
ou vazante
(descida das águas)




Encontro do rio Negro com o rio Solimões
O rio Amazonas nasce do encontro desses rios...




foto: Ana Cláudia Jatahy


foto: bbc.co.uk


foto: Alberto César Araújo





E a floresta em toda a sua plenitude...






rio Amazonas


Encontro do rio Negro com o rio Solimões
as águas crescendo, enchendo





Centro de Manaus
isolando e...




invadindo tudo...


06/11/2010

Civilização ou barbárie

A Selva - Wilfredo Lam




Esse é o lema predominante no capitalismo contemporâneo. Universalizado a partir da Europa ocidental, o capitalismo desqualificou a todas outras civilizações como ‘bárbaras”. A ponto que, como denuncia em um livro fundamental, Orientalismo, Edward Said, o Ocidente forjou uma noção de Oriente, que amalgama tudo o que não é Ocidente: mundo árabe, japonês, chinês, indiano, africano, etc. etc. Fizeram Ocidente sinônimo de civilização e Oriente, o resto, idêntico a barbárie.

No cinema, na literatura, nos discursos, civilização é identificada com a civilização da Europa ocidental – a que se acrescentou a dos EUA posteriormente. Brancos, cristãos, anglo-saxões, protestantes – sinônimo de civilizados. Foram o eixo da colonização da periferia, a quem queriam trazer sua “civilização”. Foram colonizadores e imperialistas.

Os EUA se encarregaram de globalizar a visão racista do mundo, através de Hollywood. Os filmes de far west contavam como gesto de civilização as campanhas de extermínio das populações nativas nos EUA, em que o cow boy era chamado de “mocinho” e, automaticamente, os indígenas eram “bandidos, gestos que tiveram em John Wayne o “americano indômito”, na realidade a expressão do massacre das populações originárias.

Os filmes de guerra foram sempre contra outras etnias: asiáticos, árabes, negros, latinos. O país que protagonizou o mais massacre do século passado – a Alemanha nazista -, com o holocausto de judeus, comunistas, ciganos, foi sempre poupada pelos nortemamericanos, porque são iguais a eles – brancos, anglo-saxões, capitalistas, protestantes. O único grande filme sobre o nazismo foi feito pelo britânico Charles Chaplin – O grande ditador -, que teve que sair dos EUA antes mesmo do filme estrear, pelo clima insuportável que criaram contra ele.

Os países que supostamente encarnavam a “civilização” se engalfinharam nas duas guerras mundiais do século XX, pela repartição das colônias – do mundo bárbaro – entre si, em selvagens guerras interimperialistas.

Essa ideologia foi importada pela direita paulista, aquela que se expressou no “A questão social é questão de polícia”, do Washington Luis – como o FHC, carioca importado pela elite paulista -, derrubada pelo Getúlio e que passou a representar o anti-getulismo na politica brasileira. Tentaram retomar o poder em 1932 – como bem caracterizou o Lula, nada de revolução, um golpe, uma tentativa de contrarrevolução -, perderam e foram sucessivamente derrotados nas eleições de 1945, 1950, 1955. Quando ganharam, foi apelando para uma figura caricata de moralista, Jânio, que não durou meses na presidência.

Aí apelaram aos militares, para implantar sua civilização ao resto do país, a ferro e fogo. Foi o governo por excelência dessa elite. Paz sem povo – como o Serra prometia no campo: paz sem o MST.

Veio a redemocratização e essa direita se travestiu de neoliberal, de apologista da civilização do mercado, aquela em que, quem tem dinheiro tem acesso a bens, quem não tem, fica excluído. O reino do direito contra os direitos para todos.

Essa elite paulista nunca digeriu Getúlio, os direitos dos trabalhadores e seus sindicatos, se considerava a locomotiva do país, que arrastava vagões preguiçosos – como era a ideologia de 1932. Os trabalhadores nordestinos, expulsados dos seus estados pelo domínio dos latifundiários e dos coronéis, foi para construir a riqueza de São Paulo. Humilhados e ofendidos, aqueles “cabeças chatas” foram os heróis do progresso da industrialização paulista. Mas foram sempre discriminados, ridicularizados, excluídos, marginalizados.

Essa “raça” inferior a que aludiu Jorge Bornhausen, são os pobres, os negros, os nordestinos, os indígenas, como na Europa “civilizada” são os trabalhadores imigrantes. Massa que quando fica subordinada a eles, é explorada brutalmente, tornada invisível socialmente.

Mas quando se revela, elege e reelege seus lideres, se liberta dos coronéis, conquista direitos, com o avança da democratização – ai são diabolizadas, espezinhadas, tornadas culpadas pela derrota das elites brancas. Como agora, quando a candidatura da elite supostamente civilizada apelou para as explorações mais obscurantistas, para tentar recuperar o governo, que o povo tomou das suas mãos e entregou para lideres populares.

É que eles são a barbárie. São os que chegaram a estas terras jorrando sangue mediante a exploração das nossas riquezas, a escravidão e o extermínio das populações indígenas. Civilizados são os que governam para todos, que buscam convencer as pessoas com argumentos e propostas, que garantem os direitos de todos, que praticam a democracia. São os que estão construindo uma democracia com alma social – que o Brasil nunca tinha tido nas mãos desses supostos defensores da civilização.


Emir Sader, é filósofo e doutor em Ciência Política(USP). Colabora em publicações nacionais e estrangeiras e é membro do conselho editorial do periódico inglês New Left Review. É autor dos livros "A vingança da História" e "Século XX - Uma biografia não autorizada - O século do imperialismo".
Esse artigo foi extraído de agenciacartamaior.com.br

02/11/2010

Olhares...






Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não veem olhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns veem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns veem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moínhos
Dom Quixote vê gigantes.


Vê moínhos? São moínhos.
Vê gigantes? São gigantes.



Antonio Gedeão, pseudônimo de Rômulo Vasco da Gama de Carvalho, Lisboa (1906-1997)