DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

16/04/2019

A lei agradecida




O bom negociante do lugar notava sempre com tristeza que a estrada que lhe passava nas portas
estava cheia da buracos, inconveniente fácil de remediar.
Pediu a um amigo que se dava nos jornais o favor de
chamar a atenção das autoridades competentes para
fato tão escandaloso. Os jornais falaram, mas as tais autoridades competentes, muito interessadas em dotar Botafogo de mais um "refúgio", não se incomodaram com os buracos da Estrada Real.
Entretanto, essa velha azinhaga presta imensos serviços. Por ela se faz um trânsito intenso da lenha, do carvão, dos produtos hortícolas que os arredores do Rio produzem.
O bom negociante olhava os buracos e tinha pena. Arranjou um abaixo-assinado e levou-o às autoridades competentes. Elas não se moveram, e ele continuou a considerar com tristeza o lamentável estado da via pública. Foi ainda ao amigo e pediu que
reclamasse pelos jornais. Não houve nada.
Certo dia, o seu aborrecimento foi imenso ao ver que
um dos burros de uma carroça de carvão quebrara as
pernas e ficara a arquejar na margem da estrada, a espera de ser abatido. Pensou em fazer gratuitamente os reparos; e teve até aquela ideia luminosamente feudal dos legisladores de São Paulo:
achou de boa ideia que o governo tornasse obrigatório, em certos dias da semana, para os habitantes de certas localidades, prestarem gratuitamente determinados serviços públicos. Era a corvée medieval, mas ele não sabia disso. Pôs mãos à obra e alugou trabalhadores, carroças, barro, etc.
Aplainou aqui, aterrou ali, e o trecho que lhe passava
às portas ia ficando uma lindeza. Quando ia acabando o serviço, apareceu uma "autoridade competente" e intimou o benfeitor:
- Está multado.
- Por quê?
- Não pode escavar a via pública.
E o bom negociante pagou a multa sem tugir nem mugir, travando conhecimento com a gratidão da lei.

Lima Barreto - Revista Careta de 14.08.1915

Obs: Os tempos mudaram, mas a história continua a
mesma!

06/04/2019

Sonambulismo II




Um quarto dentro de outro quarto: quartos, e mais quartos. Quartel, quartéis. Esquartejamentos, enforcamentos um dia após outros dias. Fragmentos quebras divisões. Desunião desmoronamento turvação...
A noite fugirá a contragosto para dar lugar ao sol que
surgirá para um novo dia!

02/04/2019

As coisas



achava que as coisas dentro dos livros
eram mais verdadeiras do que fora
que as coisas nos livros e as pessoas
estavam no lugar certo e se destoavam
era só para depois retomarem o lugar
exato em que deveriam estar 


Magritte

Dor

a dor preza as cartilagens
os interstícios e vãos
o debrum da alma mais exposto
à noite
o nervo mais lúcido
a veia mais mansa
o mais dúctil segmento
do músculo

Vera Lúcia de Oliveira é uma poetisa que nasceu em Cândido Mota(SP)e vive atualmente na Itália. Em 2005 recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo livro "A chuva nos ruídos". Tem publicados os livros "Entre as junturas dos ossos", "Vou andando sem rumor", entre outros.

24/03/2019

Desenho




Passava dias traçando linhas noites percorrendo corpos com as mãos ía até os pés - caminhava pela cabeça contornava o rosto arqueava as sobrancelhas parava nos olhos. Difíceis de penetrá-los.
Torneava a cintura parava nos mamilos e escorregava no sexo
sem conseguir entrar na misteriosa caverna. Deu forma a figuras
que se tornaram imaginárias...
E, de tanto insistir nesse exercício suas mãos deformaram-se adoeceram de dor de cansaço. Tentando dar vida a criaturas inanimadas perdeu seu principal instrumento de trabalho: parte de
seu corpo foi incorporada àquelas linhas...
Dizem que existem abismos que nos fazem criar, outros nos paralisam.

16/03/2019

Guerra

Mariana(MG), 2015



Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidas na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...
- e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
- tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-1964) em
Mar absoluto



09/03/2019

Hora de voar




O poema depois de pronto
ainda luta com o poeta
e vai crescendo na gaveta,
onde não cabe uma esperança.

Cresce em seguida no meu bolso,
muito menor para contê-lo.
O poema, depois de pronto,
quer-se mostrar, como as crianças.

Fica assustado no casaco
e parece que tem meus olhos.
(Eu lhe acendi o último fósforo
às duas horas da manhã.)

Dentro de mim se move alguém
sempre a julgar-se muito alto,
mas fica na ponta dos pés
quando procura ser notado.

Salva-me na Terra este grande
pudor de mostrar o poema,
como se fosse uma das partes
mais verdadeiras do meu corpo.

*****

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,
uns jõoes batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, jornalista, sociólogo e poeta. Jaboatão dos Guararapes(PE)1942-2007.

18/02/2019

"Ai de ti, Copacabana" (trechos)



Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
Ai de ti, Copacabana, porque te chamaram a Princesa
do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.


Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.



Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante
o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de
suas ondas.
Grandes são os edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar; mas eles se abaterão.
[...]
Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.
Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.
Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.
Antes de te perder eu agravarei a tua demência - ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra o teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.
[...]
A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto 5, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis tudo passará.
[...]
Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Crônica escrita em 1958 por Rubem Braga - Cachoeiro de Itapemirim(ES), 1913-1990. 

16/02/2019

De Sophia de Mello Breyner Andresen




Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

10/02/2019

Jardinagem




Plantei um pé-de-conversa
no céu da boca.
Nas noites de lua cheia
há concertos musicais
e saraus de poesia!

03/02/2019

De ossos e carcaças




Quanto mais se vive mais se morre. Sempre foi assim, desde que o mundo é mundo. E, à medida que os dias passam perdemos nosso tempo nesse planetinha habitado por uma infinidade de criaturas insignificantes, mesquinhas, mas sobretudo, dotadas de ideias megalomaníacas. Os ossos do corpo tornam-se frágeis para suportar o peso de tais cabeças entupidas de egoísmo, de ganância e de sede de poder.
Os ossos do ofício tornam-se oficiosos, ofídicos, ordinários. São como panos de limpar o chão: chega um tempo em que é obrigatório jogá-los fora, sob pena de contaminação de toda a nossa casa. Carcaças ambulantes, engravatadas, tentam conduzir
os destinos do país. A coluna vertebral, o alicerce da sociedade está contaminado pelo câncer, que avança
a passos largos sobre todos os membros desse alicerce.
Quantos gritos desesperados de dor, de fome, de injustiças e de mortes, serão necessários para que pratiquemos um exercício tão simples, mas fundamental, que é o movimento, a mudança desse estado de coisas, a troca de ideias, o intercâmbio, o
debate? 
Tomaram de assalto nossa Casa Maior, que é o Congresso Nacional, enxovalharam a Constituição Federal, não querem mais "largar o osso", porque a
mamata é muito boa, é da grossa. E o pior de tudo:
é paga por nós, o povo brasileiro!