DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

19/10/2020

OLHARES

 



Um dia sementes de ideias brotaram na imaginação para hoje se espalharem em folhas de papel. Meus olhos vislumbraram caminhos até então desconhecidos; mostraram-me pontos obscuros inundados de sombras movediças. Não era noite nem era dia, e tudo era atemporal. Águas jorravam velozes e tenazmente, como cavalos selvagens quando perseguidos. Tateando no escuro abri portas, arrastei-me pelas paredes, mergulhei em pântanos e emergi insone. Rasguei as malhas de uma cortina de renda escura feita de medo e solidão.

Dois olhos - um triste, outro alegre - tentam caminhar juntos; um olho caído e ferido, o outro desdobrando-se atento. Olhares de soslaio a espreitarem pelos cantos, pelas esquinas do rosto. A ampulheta do tempo vai liberando rapidamente uma fina camada de areia: tudo arde e dói, e tudo se torna irremediavelmente seco em volta do olho ferido.

O vento sopra e a malha da renda balança num vaivém de contradições depositadas nesse minúsculo oceano de emoções imprevisíveis. Dois olhos boiam numa bacia de água; flutuam em câmera lenta. Como disse Paul Klee, "um olho vê, o outro sente", e quando um deles não vê, o outro sente ainda mais. Um mergulho no escuro é como mergulhar em si mesmo, se é que me faço entender. Eu mesma ainda estou tentando entender-me. 

08/10/2020

De sabiás e palmeiras

 



Em territórios de cipós e terra seca o chicote come solto o lombo dos desavisados. Em terras de sabiás e juritis, sempre tem um gavião que os carrega pelo bico para o abismo do silêncio.

Em terras onde sabiás ainda cantam em palmeiras, existem homens que têm cara de cavalo e dão coices com esporas. O sertão já foi mar um dia. Estaria se transformando em deserto?

Dizem que "quem canta seus males espanta", mas os cara de cavalo estão devastando as florestas para acabar com o canto dos passarinhos.

29/09/2020

Às escuras




Amanhece. Nada é igual, tudo difere, mas nada mudou. De qualquer forma, aquele galo que cantava ao anunciar a aurora, e mandava nas galinhas, desapareceu por falta de quintais. Já as galinhas, tiveram um aumento exponencial. Nem por isso têm vez ou voz, ao contrário, são geradas em chocadeiras e socadas vinte e quatro horas por dia, ininterruptamente. O galo, aparentemente invisível, não canta mais, só dá ordens aos galinheiros do país.  

22/09/2020

Canção de outono



As pulsações dos violinos outonais

fazem o ser esmorecer sempre iguais.

E todo arfando pálido,

quando soa a hora,

minha alma invade

velha saudade

e após chora.


Se eu assim vago,

vento pressago

me transporta

ao deus-dará

semelhante à

folha morta.


Paul Verlaine, França 1844-1896

13/09/2020

Mãos

Jano, deus do Tempo


as mãos de alguns
(muitos)
estão sujas de sangue
(de) terra lodo lama

 o suor das mãos
do sal que escorre das lágrimas
e se esvai em sangue é o mesmo
que escreve em vermelho
a lixiviação da mente

na lavoura diária
a lama espalha-se
sobre a vida de povos
vulneráveis e indefesos

mãos que torturam
atiram pedras e balas
de borracha e pólvora
mãos lavadas
no lixo da História

05/09/2020

Re[Fluxo de (in)Consciência]




Se jabuti fosse tatu e se a Terra fosse ainda o "paraíso", qual bicho serias tu? Se cobra voasse e fosses um pássaro, em qual tipo de galho pousarias?
Sóssocando o sono para transformá-lo em sonho.
Delírio-delivery. Rio porque é preciso, senão afogo-me nos olhos d'agua do marasmo, asma, almas mortas todas tortas nas ruas, direita, volver! Veremos quão veraz é a veracidade da feroz cidade. Cantar no entanto, é preciso gritar, uivar, urrar, grunhir, zunir;é preciso que chamemos os lobos, os tolos, as gaivotas, os doidos, os animais canibais, mamelucos tupinambás,carajás, caiapós, tupiniquins, guajajaras...Rio, rio, canoa, balsa, barco, rio, rio... Atravessemos cachoeiras, cordilheiras rioabaixo, rioacima, rio, rio naveguemos, porque é urgente urgentíssimo. Jangadas ao mar, à vida, à luta, ao amor, ao sonho! Resistir quem não há de? Não importa se como farsa ou se como tragédia, importa
é que a fome é grande e o que vier  traçamos, para não ter um troço por aí, com uma folha de saudade debaixo do braço, mutatis mutandis, o avesso de tudo é a realidade nua e crua nessa pandêmica panamérica anêmica do sul, que de maravilhosa quase nada tem.
Deixemo-nos ir, precisamos andar, correr, ver o sol;  renascer, sair desse labirinto, desse ziguezague interminável. Deixemo-nos ir aos trancos e troncos e barrancos, aos vômitos. Regurgitando, transbordando tentemos saltar desse navio-fantasma encalhado. Fluxo, refluxo de (in)consciência. Rioriorio, transbordo, gargalho aos borbotões de rosas, de blusas e de calças. Descalça e nua como a lua vista de um alpendre. Não há escolha quando não se tem opção.
 Mas tu, anônimo leitor, não és obrigado a ler o que escrevo, até porque sou um oxímoro, uma ilustre desconhecida. E rio..., como gosto de rir, apesar de tudo! 

31/08/2020

Vira-lata & "vira-latas"




Expressar o que se vê. Falar sobre o aqui e o agora, sem rodeios, como quem amola uma faca ou lava uma roupa suja, demanda coragem força e decisão. É verdade que o sol brilha lá fora, que ainda existem pássaros que cantam, mas que também existem aves
de rapina, papagaios que arremedam discursos, e pombos, centenas de milhares que espalham suas
fezes venenosas pelas ruas, praças e "palácios" do
mundo inteiro. E o que fazemos? Alimentamos esses
supostos símbolos da Paz!
O que digo aos meus botões não digo às margaridas,
muito menos aos "espadas de são jorge"; e aos coqueiros então? Nem pensar! Eles tudo propagam através dos ventos que batem em suas palmas distorcendo o som, misturando alhos com bugalhos.
Suspiro profundo! "Ovos em ponto de neve". O sol se
foi. Sua majestade, a Noite, chegou...
Assim como Baleia, a vira-lata de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, resta ainda um desejo de dormir
e acordar feliz, "num mundo cheio de preás, gordos,
enormes", ao contrário de muitos brasileiros "vira-latas", que "sonham" com um país cheio de pesadelos.
Corre alta a severina noite...

22/08/2020

Dos segredos abismais do Homem e do mar




Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Sois todos os dois tenebrosos e discretos:
Homem, ninguém sondou o fundo dos teus abismos,
Ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas,
Tão ciumentos que sois de guardar vossos segredos!

Charles Baudelaire, 1821-1867

18/08/2020

(Des)construindo sonhos

Heitor dos Prazeres


Sonhei ter sonhado um sonho que havia sido um pesadelo dentro de outro sonho do dia anterior. Mas o sonho não era sonho, era a amarga realidade que se transformava em algodão doce.
Considerei os sonhos, o algodão doce, a amargura real e acordei ao som de um sonho valsa!

12/08/2020

Pandemia & pandemônios




Cansada doída angustiada dilacerada, e lúcida; quanto mais morro masmorra, mais revivo em lucidez. O corpo tem acompanhado os movimentos
peristálticos e tectônicos da Terra, que treme e explode pelo mundo afora como resposta ao que alguns "sapiens" lhe fazem. 
Quantas madrugadas insones a aguardar a aurora
que teima em não aparecer? Nuvens de gafanhotos,
erupções vulcânicas, queima de florestas e desmatamentos, corrupções, epidemias generalizadas, e um silêncio pandemônico, a devastar o planeta!
Até quando as mentiras disfarçadas, simulacros de verdades serão usados contra bilhões de seres humanos?
Vanglórias, fogueiras de vaidades se alastram pelo espaço sideral numa corrida desenfreada pelo poder,
o pior de todos os vírus. Enquanto isso, aumenta o
cemitério de valas comuns onde são jogados centenas de milhares de corpos anônimos ao arrepio da lei e da dignidade humana!