DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

17/09/2014

Ofício do poeta

Jardim dos livros, Raquel Caiano
 
 
"Poeta" pertence àquela categoria de palavras que durante um certo tempo, caíram enfermas, em desamparada exaustão: eram evitadas e dissimuladas - seu uso expunha-nos ao ridículo - e foram tão exauridas que, enrugadas e feias, transformaram-se em sinal de perigo. Aquele que, não obstante se punha a exercer a atividade - que como sempre, prosseguiu eistindo - chamava a si próprio "alguém que escreve".
 
 
Elias Canetti, trecho do discurso proferido sobre o Ofício do Poeta, em Munique, 1976.

14/09/2014

Opalescência


 

 

A primeira palavra passou rápido pela cabeça: estava oca. Depois surgiu o vazio, o branco, o nada. Pensou então ser o fim! Mas era apenas o começo de uma dispersão de letras soltas, avulsas, espiando, como que esperando por algo ou alguém. E repentinamente, como pássaros que saem em revoada no fim do dia à procura do ninho, espalharam-se pelo ar.
 Um fino e transparente cordão flutua no espaço a acenar-lhes, chamando-as para dar-lhes abrigo.
 
O vento é forte e as palavras voam sem rumo certo; talvez estejam perdidas, sem identidade e desvalorizadas vagueiam em busca de novos ninhos...

11/09/2014

O infinito


 
 
Tomei por arte
a pretensão do infinito
e uma ousada aspiração de eternidade
 
Mas vejo Hemingway
os dois canos de espingarda na boca,
Villa-Lobos passando giz no taco de bilhar,
Picasso segurando aquela sombrinha,
a mão ingênua de Pasolini apoiando o queixo,
Rimbaud traficando armas na África,
Fellini de pés descalços numa praia de Rimini
 
E eu aqui caneta, papel
e dois tostões de poesia.
 
O infinito é maior
 
 
*****
 
 
dá-me o prazer?
 
 
a mim não importa a janela
nem a vida
muito menos a porta
de entrada
ou de saída
 
sou mais é participar da miragem
e bailar entre os espelhos
 
 
Paulo José Cunha, jornalista, escritor e poeta piauiense.

07/09/2014

AQUARELA DO BRASIL

Favela


Capoeira


São Paulo(SP)


Casa da Linguagem - Belém(PA)


Mercado de Aracaju(SE)
 

Casa dos Contos - Ouro Preto(MG)


Artesanato indígena
 
 
 


Literatura de Cordel










 
 
 
 
 


04/09/2014

Horizonte imediato - Antonio Ramos Rosa


 
 
 Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão

Não encontrarás aqui a fluência
de algum ventre polido ou verso límpido
porque estas palavras conhecem as paredes
que não ouviram a angústia e a vertigem

mas têm o sal das lágrimas obscuras
para sempre ignoradas para sempre futuras
nem ouvirás o som das aves frias
mas sentirás o arrepio de sombras sobre as pedras

ouvirás talvez um suor de silêncio


Antologia Poética, Edições  Dom Quixote        

03/09/2014

Um poema de Mahmoud Darwich

Êxodo de palestinos, em 1948


Seja a corda para a minha guitarra, ó água


Seja a corda para a minha guitarra, ó água:
 os conquistadores chegaram, os antigos partiram.
É difícil lembrar o meu rosto nos espelhos.
 Seja-me a memória para eu lembrar o que perdi...
Quem sou eu depois da coletiva partida?
 Tenho uma rocha que carrega o meu nome sobre colinas
 que veem o que passou e acabou.
 Setecentos anos me acompanham atrás dos muros da cidade...
Em vão o tempo gira para eu salvar o meu passado num instante
que faz nascer agora a história do meu exílio em mim... e nos outros...
Seja a corda para a minha guitarra, ó água, os conquistadores chegaram, os antigos partiram
 para o sul, povos restaurando os seus dias nos escolhos da transformação:
 sei quem fui ontem, mas o que serei amanhã sob as bandeiras atlânticas de Colombo?
 Seja a corda para a minha guitarra, ó água.
Não há Egito no Egito, nem Fez em Fez, e Damasco está distante.
 Não há nenhum sacre na bandeira da minha gente.
 Não há rio ao leste do palmeiral cercado com os cavalos rápidos dos mongóis.
 Em que Alandalus vou terminar? Aqui ou lá?
 Saberei que morri e que deixei aqui o que há de melhor em mim: o meu passado.
 Nada me sobrou além da minha guitarra.
Seja a corda para a minha guitarra, ó água.
Os conquistadores se foram, os conquistadores chegaram...


Mahmoud Darwich  foi um poeta e escritor palestino que nasceu na pequena vila de Al-Birweh,(1942-208) totalmente destruída durante a ocupação de Israel em 1948. A família do poeta teve que refugiar-se no Líbano durante um ano. Foi preso várias vezes, entre 1961/1967. É o autor da Declaração de Independência da Palestina(1988). Sua obra já foi traduzida em mais de vinte países. 

01/09/2014

Quando se vê...



 
A vida são deveres que nós trouxemos
para fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas
quando se vê já é Natal
quando se vê já terminou o ano
quando se vê não sabemos mais
por onde andam nossos amigos
quando se vê perdemos o amor
da nossa vida
quando se vê já passaram 50 anos!
 
Agora, agora é tarde demais para
ser REPROVADO
Se me fosse dado um dia,
uma oportunidade, eu nem olhava
o relógio, eu seguiria em frente,
iria jogando pelo caminho a
casaca inútil e dourada das horas
eu seguraria todos os meus amigos
que já não sei por onde andam
como estão e diria:
Vocês, vocês são extremamente importantes
para mim
Eu seguraria o meu amor que
está muito a minha frente e diria:
eu te amo


Mário Quintana



29/08/2014

Desejos

Manabu Mabe
 
 
 
flutuar no tempo eu
queria no lençol do vento
despertar dos sonhos requentados
 em panos quentes
um jardim de flores não inventadas
amores não dissimulados
 
lençol torcido batido na pedra
até desmanchar-se ao sol
retorcido tornado poeira
sobre o deserto
 
 
língua virada em versos
 eu quero revirar o tempo
retirar o medo dos ossos
atravessar os rios sinistros
que carregam em seus leitos
rosários de mortes previsíveis.

26/08/2014

No meio da noite...

Abri a janela aberta para a sebe
E me debrucei sobre a forma do luar
Sobre a forma da noite sem limites
E eis que um não-sei-quê roçou o meu
 espírito
E eu não pude apanhar essa alma de
minha alma
Talvez uma lembrança
Morta antes mesmo de não ser mais
nada
Além destas palavras
 
 
***
 
Tu não percebes, mas o teu corpo permanece
Tu nada sentes, mas o teu corpo se transforma
Tu falas e o teu corpo faz
Tu vês, ele não vê
Tu caminhas e ele marca passo
Tu saboreias e ele só digere
Tu te ris enquanto ele sorri
Tu adormeces e ele cai no sono
Ele não descobre a mudança
funda de suas forças
 
 
Paul Valéry, 1871-1945

23/08/2014

Selfie-self


 
 

Abro minhas janelas na tentativa de ver o que acontece lá fora; para desmofar o ambiente, mas esqueço de fazê-lo porque vejo apenas o da vizinhança.

Entre espelhos quebrados minha imagem se multiplica em avenidas que se bifurcam em metalinguagens.

Olho pra ti para não olhar pra mim, e, através dos teus defeitos perpetuo os meus carregando-os inflexível e arrogantemente como fazem os tolos: ego e self engalfinham-se esquizofrenicamente.

Eu sou tu, ele é ela. Frutos da mesma árvore com propriedades semelhantes, sabores diferentes.

 Cada qual se defende dos inimigos íntimos que esconde entre os espelhos do seu quarto.