24/02/2014

Hilda Hilst : mais uma crônica



I.
 
 
Há  dez  anos  tentava  escrever  o  primeiro  verso  de  um  poema.  Era perfeccionista.
 Aos 30,  anteontem  madrugada,  gritou  para  a  mulher:
 consegui, Jandira!   Consegui! Ela  (sentando-se  na  cama,  desgrenhada):
 O quê?   O emprego?
Ele:  Claro  que  o  verso,  tolinha,  olha  o  brilho  do  meu  olho,  olha!
Ela  (bocejando):  Então  diz,  benzinho.
Declamou  pausado  o  primeiro  verso: “Igual  ao  fruto  ajustado  ao  seu redondo..
.Jandira  interrompendo:  peraí... redondo?  Mas  nem  todo  fruto  é redondo...
Ele: São  metáforas,  amor.
Ela: Metáforas?
Ele:  É... E  há  também  anacolutos,  zeugmas,  eféreses.   Ela: ?!?!?
Mas  onde  é  que  fica  a  banana?
Ele  enforcou-se  manhãzinha  na  mangueira.  O  bilhete  grudado  no  peito dizia: a  manga  não  é redonda,  o  mamão  também  não,  a  jaca  muito  menos,  e  você é  idiota,  Jandira.  Tchau
. Ela (tristinha  depois  de  ler  o  bilhete):  e  a  pêra,  benzinho?  E  a  pêra  então que  ninguém  sabe o  que  é?  E  a  carambola!!!  E  a  carambola,  amor?


Em Cascos e Carícias, coletânea de crônicas escritas entre 1992-1995 para o jornal Correio Popular, de Campinas(SP)

2 comentários:

  1. Oi Ci!

    Poesia simples e direta, doce como uma salada de fruta! rs

    Bjão!

    ResponderExcluir
  2. UN EXCELENTE DIALOGO. GRACIAS.
    UN ABRAZO

    ResponderExcluir