DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

06/04/2020

Diário de bordo - II




Meu barco é de papel, tão frágil quanto o momento que atravessamos; tão frágil quanto somos todos, sem exceção. Muitos naufragam antes de concluir a travessia que lhes cabe, outros tentam remar contra
a maré, ignorando sua pequenez, estrebuchando para todos os lados. Em vão.
Vou tentando atravessar essa tormenta que se abateu sobre a humanidade. Dias melhores advirão, quem sabe? Enquanto isso, recorro a música, a poesia, a arte, recorro a ferramentas que podem me  tornar uma pessoa melhor enquanto estou por aqui.

O acorde inicial

Que a palavra se perca num rumor de queda
por indistintos círculo quebrados
e com o ser se dilate no silêncio e no olvido.
Que os instrumentos se apaguem e rasguem as imagens entre a adolescência do mundo e o perfume
do abismo.
Que a cor e a música recrudesçam e se extingam
como se um pincel pulverizado e um violino em cinzas, produzissem o acorde inicial e a junção com
o invisível.
Abandonando o teclado das certezas,
que a palavra roce as espécies desaparecidas
encontrando as fugitivas simetrias
e os frescos tornozelos da nascente.
Que não seja mais que o brilho de uma chave perdida, uma escada de traços que nunca hão de chegar.
Que respirem os elos, que os detritos falem
ao conjunto que se forma nos flancos do vazio.
Que sejam um sopro cego, um oblíquo trajeto na
distância, reunindo o inaceitável e a conivência inaugural, sem que nada perdure, sem que nada pereça, no alvéolo onde repousa a substância salva

Antônio Ramos Rosa, Faro(Portugal)
1924-2013

01/04/2020

Diário de bordo



A chuva cai lenta e suave sobre as ruas da cidade deserta e silenciosa; todos estão isolados em suas ilhas domésticas.
Continuo trabalhando na construção do meu barco de papel, e me perguntando para onde foram os que moravam nas ruas, ao relento; como estarão os que vivem amontoados em cubículos, em barracos, em favelas, sem ter o que comer? Sem ter como proteger-se desse coronavírus?
O choque entre as nuvens anuncia que vem barulho por aí; temporariamente não poderemos consumir; a montanha de consumos supérfluos que inventamos está desabando, o dinheiro acumulado não tem sido suficiente para comprar a vida. Vale a pena tanto desperdício? Somente o medo da morte é capaz de deter essa corrida desenfreada para o "progresso".
Silenciosa, sutil e imprevisível, "a indesejada" está sempre ao nosso lado, desde o dia em que nascemos. Mas a ignoramos, por medo. E quando o medo nos domina somos capazes de tudo, até de nos autodestruir, de agredir os que nos cercam, de destruir o meio ambiente, pensando que agindo desta maneira seremos poderosos, invencíveis. E no entanto, um minúsculo e invisível vírus pode nos destruir a todos em pouquíssimo tempo... 

29/03/2020

O barco, meu coração...

Hyeronimus Bosch, Nau dos insensatos


I - Nestes tempos de inimigos, (invisível e visível), venho tentando construir um barco de papel numa tela virtual para navegar, a despeito da tempestade que se avizinha. A tarefa é árdua e difícil. Receio que ela esteja apenas começando; estou insegura e angustiada; não sei se ou quando terminarei a construção desse barco. Há uma longa travessia a ser
percorrida. Ainda assim, continuarei tentando: um dia de cada vez. Meu coração não se cansa de bombear sangue para os rios que trafegam para outros corações que estão neste mesmo barco. O mar está revolto, repleto de embarcações de insensatos. Tempestades e intempéries fazem parte dessa longa travessia que é o viver. NAVEGAR É PRECISO!

21/03/2020

VITA BREVIS, ARS LONGA ( Hipócrates )




Ars longa; Vita Brevis

Tão longa a arte pra tão curta vida
Tão curta a vida pra tão longos danos
Tão longos dias pra tão curtos anos
Tão curto o tempo pra tão longa vida

É tanta coisa pra ser sabida
Em poucos anos céleres e insanos
Que a vida voa breve em desenganos
Temo-la assim vivida e não vivida

Célere a vida e lento é o conhecer
Lento é o saber e célere é o vento
Que sói sumir bem antes do saber

Vida breve, fugaz conhecimento
Fugacidade que é inerente ao ser
Que mais servira se tivesse tempo.

Gil Fenerich, professor de música e língua portuguesa, poeta e violeiro. Monte Alto(SP)



20/03/2020

Pesadelo

Albrecht Dürer


Acordou no meio da noite. Sonhara com a Morte numa grande rede branca, e redonda.

13/03/2020

Relendo "A peste"





Não lembro exatamente quando foi que li pela primeira vez "A peste", de Albert Camus, mas tenho a lembrança nítida do quanto me impactou.
Relendo hoje, em pleno século XXI, este livro que foi publicado pela primeira vez em 1947, percebo o quanto a história se repete, mesmo se apresentando com outra roupagem. Escrito no pós-guerra, Camus relata o que ocorreu na cidade de Orã depois que ela é atingida pela peste transmitida por ratos, dizimando sua população. Narrado sob o ponto de vista de um médico, que não mede esforços para conter a epidemia, Camus destaca a solidariedade, a solidão, o medo da morte, e a própria morte, entre outros dilemas vividos pela humanidade.

"Uma forma conveniente de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre.
 [Isto é: aqui as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se sobretudo pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, segundo a sua própria expressão, de fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam de mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro.]
[Assim, a primeira coisa que a peste trouxe aos nossos concidadãos foi o exílio.
Mas, se havia exílio, na maior parte dos casos era o exílio em casa.
No exílio geral, eram os mais exilados, pois se o tempo despertava neles, como em todos, a angústia que lhe é própria, estavam também presos ao espaço e chocavam-se sem cessar de encontro aos muros que separavam o seu refúgio empestado da pátria perdida."]

01/03/2020

O couro de todos nós




O couro que me cobre a carne
come minha pele
come o sangue que corre
em minhas veias
come minha alma

O couro que me cobre a carne
cobre a tua, e a de todos nós
bebe o sangue que te corre
pelas veias suga o ar que todo
respiramos

O couro come a todos
noite e dia, de sol a sós -
todos vós - sem vozes
E ai dos que sobem para
os muros, dos que habitam
nas copas ou nas cabanas...

O sol queimará, inclemente!

24/02/2020

Encontros e desencontros com as palavras





Umas e outras

não gosto do gosto que
já não tens; gostava
daquele gosto que tinhas:
sabor forte e
persistente.

***

uma faixa de gaze
um feixe de lenha
uns caras - minguados
com medo de
rinoceronte?
ou seria de hipopótamo?
Apenas hipóteses...

Babá bebé bibi
bobó de camarão
aguapé e sururu
regado a vinho branco
lá, detrás daquele muro...

***

Ai caí
do caramanchão e
com a cara no chão
me esparramei
com as palavras

entre a língua e os dentes
estão todas escondidas;
ora mudas, ora soltas,
no meio da boca sempre
tem uma que
quer sair
quer voar
quer falar...