20/11/2017



 
A nossa escrivivência não pode ser lida como histórias para "ninar os da casa grande", e sim para incomodá-los em seus
sonos injustos.
Conceição Evaristo, escritora - Belo Horizonte,1946
 
***
 
Ferro
 
Primeiro o ferro marca
a violência nas costas.
Depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos.
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
e quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos.
 
Cuti, em Batuque detocaia
 
 
O negro pronto
está se fazendo sempre
ponto por ponto
 
atento contra o jogo da humilhação e
do cansaço
 
chegando a ficar tonto
de tanta lucidez
sem porre de talvez
ou preguiça
 
mergulha de vez
no sumo de ser-se
no húmus do outro
 
se funde em tudo que for possível
ou mesmo se confunde
ou até cai no
poço
do
nada
mas foge da cela
ludibria ciladas
 
com suor dilui espinhos
do horizonte cria músculos
e semeia o novo crepúsculo
 
o negro pronto
está se fazendo sempre
ponto por ponto
na decifração das marcas
transfigurando povo
em Flash crioulo
 
Cuti (Luís Silva - nasceu em Ourinhos-SP, mestre em Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Unicamp-SP)

17/11/2017

Economia

 
 
Nos nossos trens de subúrbios passam-se às vezes coisas bem divertidas. Já não se fala das altercações entre os auxiliares e os passageiros por causa de passagens, passes etc. Os regulamentos são tão exigentes, e o público está tão disposto a lesar o Estado, que esses atritos hão de se dar sempre.
Há também as conversas que são interessantes.
Um companheiro de banco volta-se para nós e diz, depois de ler o seu jornal:
- Veja só, o senhor, como vai este país. Ladroeira sobre ladroeira. Não há governo que conserte isso. Eu endireitava isso em oito dias...Não querem emissão de papel-moeda...
Que querem? Ouro. Nuca vi disto aqui desde que me conheço...E são financeiros?
Um outro, logo que se senta, pergunta:
- O senhor é empregado público?
Afirmamos que somos e dizemos de que repartição. Ele continua:
- É uma boa repartição. A minha não presta para nada. Estou lá há vinte anos e ainda não tive uma promoção. Se estivesse na sua, talvez já fosse chefe de seção. Demais, na
minha, há uns tantos que não fazem nada, mas não deixam nós sermos chefes. No comércio, eu já estava rico, mas quis
casar-me cedo, foi essa desgraça...
Como essas muitas outras que não contamos para não enfadar. Entretanto, vamos narrar esta pequena anedota bem cômica.
Um dia destes, viajando num carro de segunda classe, havia um passageiro que trazia cuidadosamente um embrulho. Chegou a hora da cobrança das passagens, e ele colocou com cuidado no colo, preso às pernas, o volume. Pôs-se a procurar pelas algibeiras o bilhete de passagem.
Chega o condutor, ele faz um movimento qualquer, o embrulho move-se, abre-se, salta uma galinha a cantar
- Cocorococó! Cocorococó!
O passageiro corre atrás do bicho e o condutor atrás:
- Pague a multa! Pague a multa!
A galinha corre pelo carro todo e o passageiro atrás.
O condutor continua correndo atrás do passageiro:
- Pague a multa!
O passageiro, atrás sempre do bicho, contesta:
- Espere! Espere! Deixe-me apanhar a minha galinha primeiro.
Esta voou pela janela, e o homem teve que entrar com alguns níqueis para os cofres do Estado.

Lima Barreto em Sátiras e outras subversões

14/11/2017

Quem são os 18 homens (?) que querem legislar sobre o corpo das mulheres


do Intercept

Quem são os 18 homens que querem legislar sobre o corpo das mulheres

por João Filho

EM UMA MANOBRA pouco republicana e nada cristã, a bancada da bíblia incluiu uma mudança constitucional em uma PEC que pretendia apenas ampliar a licença-maternidade para mães de bebês prematuros. A alteração, feita por uma comissão especial da Câmara, torna ilegal qualquer tipo de aborto, inclusive em casos de estupro e anencefalia do feto. A aprovação da malandragem foi feita durante um rápido intervalo em que a sessão do plenário foi derrubada por falta de quórum e sem a presença da oposição.
Em 2012, o STF permitiu o aborto em caso de anencefalia. O Código Penal de 1940, implementado há quase 80 anos, permite o aborto em casos de estupro. Mas nada disso importa para a bancada da bíblia, que segue em sua missão divina de reverter esses avanços civilizatórios.
Sem nenhum respeito pela laicidade do Estado, um grupo de homens medievais impôs suas crenças goela abaixo de todas as mulheres brasileiras. Por 18 votos masculinos contra 1 feminino — o de Erika Kokay (PT-DF) — a comissão aprovou a barbaridade aos gritos de “Vida sim, aborto não!”.  Só ficou faltando empunharem tochas para completar o cenário.
A decisão da comissão ainda passará pelo crivo do plenário da Câmara, onde dificilmente será aprovada, mas mostra do que as forças reacionárias são capazes.
Mas quem são os 18 deputados que querem legislar sobres os corpos das mulheres com base nas sua convicções religiosas? Tracei um breve perfil desses homens de Deus:
Evandro Gussi (PV-SP):  Advogado, empresário e professor de instituto ligado à Renovação Carismática Católica, este católico carismático foi quem presidiu a comissão que tornou ilegal o aborto em qualquer circunstância. Ele venceu a eleição em 2014 com ajuda decisiva da TV Canção Nova, onde aparecia com frequência. Aborto sempre foi o tema principal da sua campanha e depois na sua atuação como  parlamentar. Apesar da religião ter papel fundamental na sua vida, Gussi jura de pés juntos que sua posição favorável à criminalização é puramente racional: “Eu tenho a minha religião, mas em toda a minha argumentação eu não recorro a nenhum argumento religioso para ser contrário ao aborto, meus argumentos são totalmente racionais, a partir de um raciocínio filosófico e que a Constituição garante que eu posso tê-lo”
Mauro Pereira (PMDB-RS): Conhecido em Caxias do Sul por aparecer ao lado de políticos importantes nas fotos dos jornais e TV, o papagaio de pirata é também autor das seguintes frases: “Michel Temer é trabalhador e honesto”, “Quem votar contra (arquivamento de denúncia contra Temer) detesta o Brasil”. Foi um fiel escudeiro de Cunha até o dia da votação da sua cassação, quando decidiu abandonar o companheiro ferido na estrada.
Givaldo Carimbão (PHS-AL): Coordenador da Frente Parlamentar Católica da Câmara, o católico fervoroso Givaldo se mostrou um dos mais indignados com a mostra Queermuseu. Em audiência pública na Câmara, o valoroso cristão disse para o ministro da Cultura que “queria pegar a mãe e a filha do ministro e colocar de perna aberta como nas fotos”. Quanto respeito pelas mulheres, não?
Alan Rick (DEM-AC): Jornalista, apresentador de TV e pastor evangélico, o acreano foi eleito pelo PRB, partido da Igreja Universal, antes de mudar para o DEM. Usou verba parlamentar para contratar empresa para monitorar seus críticos nas redes sociais.
luismacedo-1510341768 Evandro Gussi, João Campos e Jorge Tadeu Mudalen conversam durante comissão especial da Câmara (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

Marcos Soares (DEM-RJ): Filho do pastor Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como Missionário R. R. Soares, o deputado tem uma atuação tímida, quase nula na Câmara. Mas em 2015, Marcos Soares apresentou um projeto de lei que pretendia transformar as autorizações para as TVs por assinatura, transmitidas em canais UHFs, em canais abertos de televisão. Se o projeto tivesse sido aprovado, o seu papi passaria a ter sua própria TV aberta para divulgar sua religião.
Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP): É frequentador da Igreja Internacional da Graça de Deus e amigo do seu proprietário, o pastor RR Soares. Segundo levantamento feito pela Folha, o deputado apareceu em primeiríssimo lugar como o que mais viajou pelo mundo com tudo pago (passagem aérea, hospedagem, alimentação e transporte local) pela Câmara. De 2010 a 2016, Mudalen fez 28 viagens e visitou países das Américas, Europa e Ásia.
Leonardo Quintão (PMDB-MG): Filho do pastor evangélico, fazendeiro e prefeito de Ipatinga, Sebastião Quintão, Leonardo cumpre seu terceiro mandato consecutivo. É representante das mineradoras e teve 42% da sua última campanha financiada por empresas ligadas à mineração. Seu irmão é empresário da área de mineração e foi um dos doadores da campanha. Aliado forte de Eduardo Cunha, Quintão foi um dos seus principais defensores no Conselho de Ética que cassou seu mandato. Foi também o deputado mineiro que mais recebeu recursos via emendas parlamentares nos meses que antecederam a votação da primeira denúncia contra Temer na Câmara. Conhecido por suas posições moralistas e conservadoras, Quintão tentou em 2015 beneficiar um shopping com um empréstimo milionário do BNDES de forma sorrateira. De 2010 a 2015, o patrimônio do nobre deputado cresceu apenas 584%.
Pastor Eurico (PHS-PE): O pastor da Assembleia de Deus é um entusiasta do período de chumbo e chegou a afirmar que “o governo militar foi solução para o Brasil”
Joaquim Passarinho (PSD-PA):  Católico, o sobrinho de Jarbas Passarinho é conhecido no estado do Pará como Quinzinho. Foi autor da inacreditável lei que tornou obrigatório o fornecimento de fio dental por bares e restaurantes do estado.
Gilberto Nascimento (PSC-SP): Advogado e ex-delegado de polícia ligado à Assembleia de Deus. Em seu primeiro mandato como deputado federal em 2003, foi denunciado por participar do Escândalo dos Sanguessugas e acabou sendo indiciado pela Polícia Federal em 2007 por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ): Além de ser apadrinhado por Silas Malafaia, dono da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Sóstenes é pastor da mesma igreja. Em 2015, numa audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o nobre pastor sugeriu a criação de uma “bolsa ex-gay” para homossexuais que se convertessem à heterossexualidade.
Antônio Jácome (PODE-RN): Ah, esse aqui é um caso muito interessante. Ex-pastor da Assembleia de Deus, Jácome virou manchete em todos os jornais do Rio Grande do Norte em 2011. É que ele foi alvo de uma investigação da cúpula da Igreja e foi condenado por unanimidade pelas acusações de adultério e por ter incitado um…aborto. Segundo o jornal potiguar “O Mossoroense”, o parlamentar enviou carta admitindo os pecados, mas de nada adiantou. Jácome perdeu o título de pastor e ficou proibido de subir ao púlpito das igrejas da Assembleia de Deus. Ele não pode mais pregar na igreja, mas continua pregando normalmente na Câmara.
João Campos (PRB-GO): É pastor auxiliar da Igreja Assembleia de Deus de Vila Nova, Goiás. Em 2011, quando era do PSDB, foi o autor do hediondo projeto conhecido como “Cura Gay”. Foi também autor da PEC99/2011, que dá às igrejas o poder de questionar leis junto ao STF. Passou a ser investigado pelo Ministério Público após ser acusado por uma ex-funcionária de ficar com parte do salário dela entre 2004 e 2008.
Jefferson Campos (PSD-SP): É pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. Quando vereador em Sorocaba, tentou emplacar uma lei que incluía o Criacionismo no currículo da rede municipal da cidade. O valoroso cristão teve seu nome presente em diversos casos de corrupção. No Escândalo dos Sanguessugas em 2006, foi acusado por corrupção passiva, associação para o crime e fraude em licitações. Ele teria recebido R$ 15 mil de propina para direcionar verbas de emendas parlamentares para compra de ambulâncias acima do preço, além de um ônibus para a campanha de um cunhado candidato a vereador. Foi absolvido pelo STF por falta de provas. Mas Deus tinha planos maiores na vida deste homem. Em 2007, ele conseguiu ser denunciado duas vezes: a primeira pelo MPF de São Paulo por improbidade administrativa, a segunda pelo MPF do Mato Grosso por formação de quadrilha, corrupção passiva e fraude em licitações.
Diego Garcia (PHS-PR):  Considerado o principal líder da bancada da bíblia, o paranaense é ligado à Renovação Carismática Católica. Diego também foi relator do projeto de lei que cria o Estatuto da Família e deu o parecer no qual define a família como a união entre homem e mulher. O mesmo moralismo que apresenta como parlamentar parece não se repetir em sua vida privada. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por corrupção ativa sob acusação de subornar uma agente do Detran. Essa criaturinha de Deus foi flagrada em escutas telefônicas comprando a CNH. O caso prescreveu em 2015. Em 2016, este católico carismático teve a ousadia de enviar um projeto de lei à Câmara para tornar a cidade de Curitiba a Capital Nacional Anticorrupção, uma singela homenagem à Operação Lava Jato.
Flavinho (PSB-SP): Missionário na comunidade católica Canção Nova por 27 anos, Flavinho é um antissocialista do partido socialista. Se posicionou contra a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara e afirmou que “as mulheres não querem empoderamento. Querem ser amadas, querem ser cuidadas”
Eros Biondini (PROS-MG): Integrante da Renovação Carismática Católica e fundador da Missão Mundo Novo, o deputado mineiro é o idealizador do “Cristo é o Show”, maior evento musical católico do país, além de ter sido apresentador do programa “Mais Brasil” da TV Canção Nova. Tem vários discos de músicas religiosas lançados. Este homem de Deus  esteve na mira da PGR por apresentar notas frias para justificar gastos públicos quando estava na Assembleia Legislativa de Minas. Logo após ser denunciado, virou secretário de Esportes do governo Antonio Anastasia (PSDB-MG).
Paulo Freire (PR-SP): É pastor  da Assembleia de Deus. Seu pai e seus irmãos também são pastores. Foi acusado pelo Ministério Público de integrar a Máfia do Asfalto.

Como se vê, a moral e os bons costumes dos patrulheiros do corpo alheio não resistem a uma googlada.

13/11/2017

De Manuel Alegre*



 
Trova do vento que passa

 Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
 
Manuel Alegre (de Melo Duarte)
Portugal, 1936-


09/11/2017

A raposa e os perus

Marc Chagall

 
Contra os assaltos da raposa
Uma árvore aos perus servia de cidadela.
A pérfida, a rondar esse abrigo, gulosa
Vendo-os de sentinela,
Exclamou: "Quê! Essa gente vai zombar de mim?!
Não, pelos deuses! não." E manteve a conduta.
O luar claro, contra a senhorinha astuta,
Parecia ajudar a perueira raça.
Ela, nada noviça em assediar caça,
Recorreu ao seu saco de astúcias piratas,
Fingiu querer subir, levantou-se nas patas,
Bancou a morta e já ressuscitou depressa.
Arlequim não teria essa
Gama de tantas personagens.
Ela estalava a cauda, a fazia brilhar,
E cem mil outras marotagens.
Enquanto isso nenhum peru quis cochilar:
A inimiga os deixava assim de olhar fixado
No mesmo objeto mostrado.
Os coitados, ficando ao longo embevecidos,
Sempre caía algum: tantos já recolhidos,
Tantos postos à parte; quase a metade deles.
A companheira os põe no seu guarda-comida.
 
Dar atenção demais aos perigos da vida
Não raro faz cairmos neles.
 
Jean de La Fontaine - Chateau-Tierry(França) 1621-1695

06/11/2017

 



Nas ruas de chumbo portas e janelas estão fechadas. O chão está vermelho, e das gargantas sangram gritos e impropérios. Pássaros empalhados vociferam cantos dissonantes numa linguagem afiada como lâmina. Camaleões desfilam sobre o asfalto mal polido.
Línguas de fogo rasgam o céu da boca; rasgam corpos de borboletas sem asas que se misturam e se transformam em
letras amontoadas que se transmutam em palavras que formam um texto, um leito de rio turbulento repleto de pedaços, de fragmentos de palavras aparentemente sem
nexo. Sem ilusão o rio corre desenfreado para encontrar-se
com um mar de incertezas...

31/10/2017

Para não esquecer Drummond



 
Mãos dadas
 
 Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
 
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por
 serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes, a vida presente.
 
 
Os ombros suportam o mundo
 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
 
Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
 
Os mortos de sobrecasaca
 
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
 
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
daquelas páginas.
 
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira(MG),
no dia 31.10.1902, e faleceu no Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1987
 


25/10/2017

PARA DES-MORALIZAR

Sabemos que arte não é verdade.
A arte é uma mentira que nos faz descobrir
a verdade.  Pablo Picasso
 
 

Pablo Picasso (1881-1973)
 
 
A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele. Barão de Itararé
 
Jacques-Louis David (1748-1825)
 
 É preciso ser-se imoral para por a moral em ação. Os meios dos moralistas são os mais asquerosos que já foram usados. Quem não tiver coragem de ser imoral, pode servir para tudo, exceto para ser moralista. Nietzche

Cornelis van Haarlem (1562-1638)
 
 
Carlo Saraceni (1579-1620)
 

 
Há moralistas imoralíssimos! Guerra Junqueiro
 
 
William Blake (1757-1824)
 


Moralistas são pessoas que renunciam às alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria dos outros. Bertrand Russell
 
Arthemisia Gentileschi (1593-1654)

 
 
Ah, esses moralistas...não há nada que empeste mais do que um desinfetante. Mário Quintana
 

Aníbal Carracci (1560-1609)



23/10/2017

Ausência

Por muito tempo achei
que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante,
a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento
exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência
assimilada, ninguém a rouba mais
de mim.
 
 
Carlos Drummond de Andrade

15/10/2017

Sob as asas do tempo



 
Um pardal atravessou o raio de sol numa linha enviesada, pousou no parapeito da janela e inclinou a cabeça para mim. O olho era redondo e reluzente. Primeiro ele me olhava com um olho, e zás! virava o outro, a garganta latejando
mais rápido que qualquer pulso. Começou a dar a hora cheia. O pardal parou de
trocar de olhos e ficou me observando fixamente com um olho só, até que o
carrilhão parou de bater, como se também estivesse prestando atenção  nas
batidas. Então bateu asas e desapareceu.
Demorou algum tempo até a última batida parar de vibrar. Ela permaneceu no
ar, mais sentida que ouvida, por um bom tempo.
 
 
William Faulkner (Mississipi(EUA)1897-1962) em O som e a fúria

12/10/2017

Sem título

 
 É melhor se laico do que comportar-se mal
dentro da ordem.
 
Sebastian Brant Alsácia, 1457-1521
 
 

Michelangelo Buonarroti, A criação de Adão

 


 
Michelangelo Buonarroti - Capela Sisitina(detalhe)


 


 
Michelangelo Buonarroti (1475-1564) Leda e o cisne

 

 
Hyeronimus Bosch (1450-1516) O jardim das delícias(detalhe)

 
 
Cornelis Bos (1508-1555)
 

 
Carlo Saraceni (1579-1620)
 
 
Nicolas Poussin  (1594-1665)

 
 

Lucas Cranach (1472-1553), A fonte da juventude
 
 
A fonte da juventude(detalhe), de Lucas Cranach
 



Hyeronimus Bosch (1450-1516)


08/10/2017

A carta do capiroto - Gustavo Gollo*



Não sei dizer que tipo de coisa é essa, tão estranha para mim quanto para o leitor. Tendo, no entanto, e sem saber como, me caído nas mãos essa carta do Capiroto, vejo-me na incumbência de repassá-la imediatamente, livrando-me assim de enorme peso.



Sr Presidente,
Como certamente já percebeu, tendo barganhado quase todo o patrimônio do estado, as poucas artimanhas do gênero que ainda lhe restam serão insuficientes para continuar financiando a compra daqueles que o mantêm no poder, situação embaraçosa que logo o deixará sem apoio para continuar a governar. 
Tendo em vista tal constrangimento, e a situação do país, é com satisfação que envio sugestão que lhe terá enorme valia, propiciando a continuidade do financiamento que o tem mantido no poder.
A proposta consiste em executar literalmente aquilo que já vem sendo feito de maneira simbólica: arrancar o couro do brasileiro. Trata-se de um último capital a ser espremido de tal criatura.
Suas sábias medidas econômicas têm garantido presídios abarrotados, e ruas cada vez mais infestadas de mendigos, celeiros inexauríveis desse imenso capital: o couro humano, verdadeiro tesouro.
Modelado sob medida, bastará retirar o couro dos brasileiros, obtendo-se assim vestimentas impecáveis, justas, precisas, e sem nenhuma costura! Que calçados maravilhosos serão obtidos com o couro dos pés, justos em cada detalhe, perfeitos, e que maciez! A perfeição de blusas, calças e luvas de couro humano, além dos calçados, e até tocas ninja confeccionadas sem nenhuma costura, será atrativo irresistível aos ávidos consumidores. A perfeição do caimento de peças tão magníficas advirá naturalmente, sem a necessidade de habilidades especiais dos artesãos que as confeccionarem, já tendo sido produzidas originalmente, sob medida.
A renda obtida com os lucros da venda desse último capital nacional disponível propiciará a compra dos parlamentares que garantirão o cumprimento de seu mandato até o fim.

 Calorosamente,


Capiroto

Extraído de  jornalggn.com.br

04/10/2017

Lima Barreto




Se me fosse dado ter o dom completo de escritor,
eu havia de ser assim um Rousseau, ao meu jeito,
pregando à massa um ideal de vigor, de violência,
de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse
a bondade e a doçura deprimente. Havia de saturá-las
de um individualismo feroz, de um ideal de ser como aquelas
trepadeiras de Java, amorosas de sol, que coleiam
pelas grossas árvores da floresta e vão por ela acima
mais alto que os mais altos ramos para dar afinal
a sua glória em espetáculo.
Lima Barreto
 
 
Foi me dado querer ser escritor
E eu só quero ser assim um Lima Barreto
Ao seu jeito ao meu tempo
Despejando meus sentimentos íntimos
Pregando diretamente o cotidiano suburbano
O vigor a violência a força a coragem calculada
Que agride a bondade inócua
Que extirpa a doçura deprimente
Que extermina a cordialidade bestial
Foi e dado querer ter o vigor de Lima Barreto
Meu texto quer mesmo ser o fardamento de meu eito
A gramática de minha Ira
A poética da cor e do afastamento
 
Estaca afiada fincada no peito fidalgo do mal
Mancha de piche no assoalho do mármore de carrara infernal
Madeira enegrecida do ébano nos jardins das rosas funestas
Foi me dado querer inspirar-me só no vigor de Lima Barreto
 
Grafar o calor do sol de séculos de transplantes e desenraizamentos
 
Ele, mais alto a cada dia
Ele, superando as raízes podres desta selva vadia
Ele, acima dos ramos rasteiros
Ele, o galho mais frondoso
O tronco mais robusto
Dando afinal a sua glória em espetáculo
 
Nelson Maca (Telêmaco Borba(PR), 1965), em Gramática da Ira - Blackitude, 2015.

30/09/2017

O meu consolo *


 


Os debates financeiros e econômicos cessaram na tribuna da Câmara e nas colunas dos jornais.
Foi um regalo este debate, com o qual muito gozei, ao apreciar a dança de apaches dos algarismos.
Apareciam tantos que me estonteavam; eu, porém, teimava em ler os discursos e os artigos.
Falava-se de dinheiro, de libras, de francos, de dólares e as cifras enormes, fantásticas, de todas as moedas do mundo, só com a leitura delas, eu me sentia um pouco rico.
Tenho esse mau hábito de sonhar, de representar nitidamente o que me sugere a leitura; de modo que, vendo falar em milhões, em milhares de contos, eu apalpava, eu acariciava montões de libras nas minhas algibeiras ou as fazia escachoar lentamente das minhas mãos para cima da minha mesa de trabalho.
Nunca vi ronda tão inverossímil de dinheiro como nessa discussão.
O Brasil é assim tão rico, pensei eu; e eu sou brasileiro, devo ser também alguma coisa rico. Convenci-me de tal fato, que já me havia ensinado um preto
velho que tinha em casa. Muitas vezes ele me disse:
- Seu F. !
- Que é?
- O senhor por que não compra uma casa?
- Porque não tenho dinheiro.
- Quá! O senhor tem!
- Onde?
- No Banco do Brasil
- Como?
- O senhor é brasileiro; o banco é do Brasil; o senhor chega lá e tira o dinheiro.
Está aí - rematava o velho africano.
Não segui o conselho dele. Não fui ao Banco do Brasil; mas, cada vez que me sinto mais pobre, mais me extasio com os algarismos das discussões financeiras. É o meu consolo.

* Crônica de Lima Barreto, publicada na Revista Careta nº 620 em 25.09.1920, sob o pseudônimo de Jonathan.

24/09/2017

Brilho

Gustave Doré
 
Esta noite eu tomaria todas as drogas do mundo
beberia todos os oceanos e transaria homens e mulheres
até morrer dilacerado de dor
 
Esta noite eu faria qualquer coisa
pra não sentir este vazio brochante
e esta puta angústia velha e louca
 
Esta noite eu poderia morrer sem a mínima pressa
nem qualquer tristeza porque experimental é o paraíso
e me contento em ter feito com o corpo o mais belo
poema que a poesia almeja
 
 
Eu me converteria e cometeria
todos os vícios
sobretudo os que aprendi no hospício
e toda depravação
igual a que cometíamos na prisão
 
Depois me entregaria a deus e ao diabo
perplexo como o menino
 que fez arte e não pode ser artista
ou o artista que esqueceu de ser menino
e de repente descobriu que é tarde.
 
 
Cairo Assis Trindade, em "Antologia-Arte Pornô" - Codecri, 1984, RJ

20/09/2017

Poesia, não venhas!


 

 
Poesia:
Porque vieste hoje,
precisamente hoje, que não te posso receber?
 
Hoje,
em que tudo tem uma cor
de pesadelo e em que até minha irmã a lua
não veio, com a sua carícia fraterna, dar-me calma?
 
Oh Poesia,
não, não venhas hoje!
 
Não vês que a minha alma
não te pode compreender?
Que está fechada,
cercada, fatigada,
e nada mais quer
senão chorar?
 
Hoje, eu só saberei cantar
a minha própria dor...
Ignoraria
tudo o que tu, Poesia,
me viesses segredar...
E a minha dor,
que é a minha dor egoísta e vazia,
comparada aos sofrimentos seculares
de irmãos aos milhares?
 
Bem sei que as minhas frouxas lágrimas
nem o mais humilde poema valeriam...
 
E se tu sabes que é assim, oh! Poesia!
será melhor que fiques lá onde estás,
e não venhas hoje, não!
 
 
Noémia de Sousa (Catembe, Moçambique - 1926-2002) em Sangue Negro -
Editora Kapulana, São Paulo, 2016

13/09/2017

Obscurantismo

 
A artista Ana Norogrando definiu como “estarrecedora” a polêmica criada em torno da exposição, “sob a égide de um discurso moralista baseado na intolerância, no preconceito e na inveja”. Para ela, a decisão do Santander Cultural em cancelar a exposição é “uma guinada à Idade Média”.
“Algumas pessoas intolerantes, em sua maioria jovens, evidenciam desconhecimento total da arte, suas manifestações e história. Resultado de nossa educação! Seres humanos insensíveis à diversidade! Lembro de meu tempo na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), interior do RS. Há 30 anos atrás já convivíamos com a pluralidade de modo natural, fazia parte de nossa vida! Então, é assombroso assistir tudo isso, hoje, no século XXI”, escreveu ela em seu post.
Ana Norogrando pondera que a temática da exposição queer não é nem sequer inovadora e que a proposta da curadoria não é “fechada”, o que abre a possibilidade para outras visões sobre o tema, a exemplo de outros museus do mundo que já fizeram exposições sobre o mesmo tema.
“A temática Queer não é inovadora, pelo menos para quem conhece um pouco mais. É um tema já muito trabalhado e publicado internacionalmente, inclusive na moda. O mérito da exposição é olhar por este tema a Arte no Brasil. Assim, quanto mais projetos e ações efetivas houverem para a visibilidade da Arte Brasileira, melhor! Façamos!”, afirmou.
Já a ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda comparou o episódio com a peça de teatro Roda Viva, proibida pela ditadura civil-militar, em 1968, após atos de violência cometidos contra o elenco por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

 
 
Adriana Varejão



Fernando Baril

 
Bia Leite


Ana Norogrando


Uma horda de nazistas pasta em Porto Alegre

 
Nazistas promoviam a queima de livros e se esmeraram em condenar as artes “degeneradas”, assim como fez um grupo de gaúchos a propósito de uma exposição sobre diversidade sexual
reprodução/Arquitetura da destruição
arquitetura da destruição

Obras abstratas, impressionista ou produzidas por judeus eram classificadas como "arte degenerada" pelos nazistas
Soube que o espaço Santander Cultural antecipou o fim de sua exposição artística Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira porque os fanáticos do movimento MBL a atacaram, e atacaram seus frequentadores. Que estes herdeiros dos Freikorps futuramente hitleristas – base que foram dos SA e dos SS – tenham atacado a exposição e seus frequentadores não surpreende. O que surpreende é a inércia das autoridades diante deste ato de barbárie, porque pelo visto a reação a ele ficou entregue à iniciativa dos frequentadores e aos seguranças particulares.
Os nazistas esmeraram-se em condenar a literatura e as artes “degeneradas”. Promoveram queimas de livros em toda a Alemanha. A mais famosa foi a do 10 de maio de 1933 na hoje Bebelplatz, a praça em frente à Universidade Humboldt. O próprio diretor da Faculdade de Direito, logo em frente, se encarregou de trazer uma braçada de livros da biblioteca sob sua guarda, para a pira da vergonha histórica, entanto descrita como “da construção do novo homem germânico”, nada mais nada menos que por Goebbels, o ministro da Propaganda presente.
Estes cretinos do MBL, Kataguiris e Holidays à frente, se esmeram na mesma direção. Mas o mais estarrecedor, do mesmo modo que na Alemanha dos anos 1920/30, é que isto volta a se dar, como então, sob o beneplácito das autoridades constituídas.
Não foi outro o comportamento de Hindenburg. Ou das autoridades locais onde o nazismo chegava ao poder. Destruíram a Bauhaus em Weimar, nas outras cidades onde o movimento se refugiou, até que, de Berlim, os seus professores e artistas que conseguiram escapar foram para os Estados Unidos e outros países que os acolheram.
É isto que estamos assistindo em Porto Alegre. Nada mais, nada menos. Revoltante. Revoltante a atitude das hordas MBL-fascistas, revoltante a pusilanimidade das autoridades responsáveis, pusilânime a atitude do Santander Cultural… Bem, a do banco nem surpreende tanto. Afinal, é um banco, um mero banco.
Mas há mais. Porto Alegre teve momentos de glória internacional. Na Revolução de 1930. No último foco de resistência ao golpe de 1964. Na fundação do Fórum Social Mundial, quando a capital dos gaúchos foi proclamada “a capital do século 21”.
Ainda quando a administração popular consagrou a cidade junto à ONU, graças ao Orçamento Participativo e outras iniciativas. Por onde se viajava, o viajante deparava com a realidade de que Porto Alegre era uma referência mundial.
Mas a partir do momento em que a parcela mais empedernida da classe média (da burguesia nem é bom falar) se deu conta de que o povão das periferias estava disputando espaço nos shopping, no aeroporto e nas escolas superiores, o quadro mudou. Esta parcela optou pela direita – e desde então tem votado religiosamente (o termo é bem aplicado) contra tudo o que cheira a popular. Governos de direita.
Agora estamos chegando ao “Gloria in Excelcis Third Reich”, ou “Drittel Reich”, dos Kataguiris da vida.
Que vergonha, classe média de Porto Alegre!

Flávio Aguiar correspondente em Berlim para o Rede Brasil Atual

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10/09/2017

Das palavras interditas



 
entre parêntesis provisórios segue-se
lutando contra a página em branco
luzidia e indiferente
 
tanto esquecimento
 lembranças outras
muito a desaprender
 
 a aurora esvai-se
é o irromper da noite
 do sono nas veias
pedaços de equívocos
embaralhados
mal costurados guardados
em gavetas:
os cômodos do medo
e da ignorância
 
e a boca cheia de pedras
e silêncios:
nem elas nem eles
sabem das palavras interditas...?

29/08/2017

"No ajuste de contas" *



A nossa burguesa finança governamental só conhece dois remédios para equilibrar os orçamentos: aumentar os impostos e cortar lugares de amanuenses e serventes. Fora desses dois paliativos, ela não tem mais beberagem de feiticeiro para curar a crônica moléstia do déficit.
Quanto a cortar lugares, é engraçado o que se passa na nossa administração. Cada ministro, e quase anualmente, arranja uma autorização para reformar o seu ministério. De posse dela, um, por exemplo, o da Guerra, realiza a sua portentosa obra e vem cá para fora blasonar que fez uma economia de sessenta e nove contos, enquanto o do Exterior, por exemplo, com a sua aumentou as despesas de sua pasta em mais de cem contos.
Cada secretário do presidente concebe que governo é só e unicamente o seu respectivo ministério e cada qual puxa a brasa para a sua sardinha.
Cabia ao presidente coordenar estes movimentos desconexos, ajustá-los, conjugá-los; mas ele nada faz, não intervém nas reformas e deixa correr o marfim, para não perder o precioso tempo que tem de empregar em satisfazer os hipócritas manejos dos caixeiros da fradalhada obsoleta ou em pensar nas coisas de sua politiquinha de aldeola.
Enquanto as reformas com as hipotéticas economias são em geral obra dos ministros, o aumento de imposto parte, em geral, dos nossos financeiros parlamentares. Eles torram os miolos para encontrar meios e modos de inventar novos; e, como bons burgueses que são, ou seus prepostos, sabem, melhor que o imperador Vespasiano, que o dinheiro não tem cheiro. Partem desse postulado que lhes remove muito obstáculo e muitas dificuldades e chegam até às latrinas, como aconteceu o ano passado.
Essa pesada massa de impostos, geralmente sobre gêneros de primeira necessidade, devendo ser democraticamente igual para todos, vem verdadeiramente recair sobre os pobres, isto é, sobre a quase totalidade da população brasileira, que é de necessitados e pobríssimos, de forma que as taxas dos Colberts da nossa representação parlamentar conseguem esta coisa maravilhosa, com as suas medidas financeiras: arranham superficialmente os ricos e apunhalam mortalmente os pobres. Pais da pátria!
Desde que o governo da República ficou entregue à voracidade insaciável dos políticos de São Paulo, observo que o seu desenvolvimento econômico é guiado pela seguinte lei: tornar mais ricos os ricos; e fazer mais pobres os pobres.
São Paulo tem muita razão e procede coerentemente com as suas pretensões; mas devia ficar com os seus propósitos por lá e deixar-nos em paz. Eu me explico. Os políticos, os jornalistas e mais engrossadores das vaidades paulistas não cessam de berrar que a capital de São Paulo é uma cidade europeia; e é bem de ver que uma cidade europeia que se preza não pode deixar de oferecer aos forasteiros o espetáculo de miséria mais profunda em uma parte de sua população.
São Paulo trabalha para isso, a fim de acabar a sua flagrante semelhança com Londres e com Paris; e podem os seus eupátridas estar certos que ficaremos muito contentes quando for completa, mas não se incomodem conosco, mesmo porque, além de tudo, nós sabemos com Lord Macaulay que, em toda a parte, onde existiu oligarquia, ela abafou o desenvolvimento do gênio.
Entretanto, não atribuirei a todos os financeiros parlamentares que têm proposto novos impostos e aumento dos existentes; não atribuirei a todos eles, dizia, tenções malévolas ou desonestas. Longe de mim tal coisa. Sei bem que muitos deles são levados a empregar semelhante panaceia, por mero vício de educação, por fatalidade mental que não lhes permite encontrar os remédios radicais e infalíveis para o mal de que sofre a economia da nação.
Quando se tratou aqui da abolição da escravatura negra, deu-se fenômeno semelhante. Houve homens que por sua generosidade pessoal, pelo seu procedimento liberal, pelo conjunto de suas virtudes privadas e públicas e alguns mesmo pelo seu sangue, deviam ser abolicionistas; entretanto, eram escravocratas ou queriam a abolição com indenização, sendo eles mais respeitáveis e temíveis inimigos da emancipação, por não se poder suspeitar da sua sinceridade e do seu desinteresse.
É que eles se haviam convencido desde meninos, tinham como artigo de fé que a propriedade é inviolável e sagrada; e, desde que o escravo era uma propriedade, logo…
Ora, os fundamentos da propriedade têm sido revistos modernamente por toda a espécie de pensadores e nenhum lhe dá esse caráter no indivíduo que a detém. Nenhum deles admite que ela assim seja nas mãos do indivíduo, a ponto de lesar a comunhão social, permitindo até que meia dúzia de sujeitos espertos e sem escrúpulos, em geral fervorosos católicos, monopolizem as terras de uma província inteira, títulos de dívida de um país, enquanto o Estado esmaga os que nada têm com os mais atrozes impostos.
A propriedade é social e o indivíduo só pode e deve conservar, para ele, de terras e outros bens, tão-somente aquilo que precisar para manter a sua vida e de sua família, devendo todos trabalhar da forma que lhes for mais agradável e o menos possível, em benefício comum.
Não é possível compreender que um tipo bronco, egoísta e mau, residente no Flamengo ou em São Clemente, num casarão monstruoso e que não sabe plantar um pé de couve, tenha a propriedade de quarenta ou sessenta fazendas nos estados próximos, muitas das quais ele nem conhece nem as visitou, enquanto, nos lugares em que estão tais latifúndios, há centenas de pessoas que não têm um palmo de terra para fincar quatro paus e erguer um rancho de sapê, cultivando nos fundos uma quadra de aipim e batata-doce.
As fazendas, naturalmente, estarão abandonadas; por muito favor, ele ou seus caixeiros permitirão que os desgraçados locais lá se aboletem, mas estes pobres roceiros que nelas vegetam, não se animam a desenvolver plantações, a limpá-las do mato, do sapê, da vassourinha, do carrapicho, porque, logo que o fizerem, o dono vendê-las-á a bom preço e com bom lucro sobre a hipoteca com que a obteve, sendo certo que o novo proprietário expulsá-los-á das terras por eles beneficiadas.
Na Idade Média e, mesmo no começo da Idade Moderna, os camponeses de França tinham contra semelhantes proprietários perversos que deixavam as suas terras en friche, o recurso do haro, e mesmo se apossavam delas para cultivá-las; mas a nossa doce e resignada gente da roça não possui essa energia, não tem mesmo um acendrado amor à terra e aos trabalhos agrícolas e procedem como se tivessem lido o artigo XVII da Declaração dos Direitos do Homem.
O que se diz com relação à propriedade imóvel, pode-se dizer para a móvel. Creio que é assim que os financistas denominam as apólices, moedas, títulos, etc.
O povo, em geral, não conhece esta engrenagem de finanças e ladroeiras correlativas de bancos, companhias, hipotecas, cauções, etc.; e quando, como atualmente, se sente esmagado pelo preço dos gêneros de primeira necessidade, atribui todo o mal ao taverneiro da esquina.
 
* Trechos do artigo escrito por Afonso Henriques de Lima Barreto(1881-1922), em 11.05.1918, no jornal carioca A.B.C.