29/12/2017

Ora, direis...!?

 
Passou uma "nuvem" e encobriu tudo que estava escrito a esmo;"a esmo" também acontecem coisas que não nos damos conta num primeiro momento, e aí já está feito; estamos quase que inteiramente teleguiados, de cabeça curvada sobre nossos umbigos transformados em telefones "inteligentes", mas todos têm a ilusão de que estão conectados com tudo e com todos; tem o diabo de uma tabela que não alinha o texto como eu quero;já mexi em todo o teclado e não encontro a tecla certa. Tá parecendo aquelas máquinas "humanas" que querem porque querem mandar no país, se plantam nas cadeiras do poder e passam a querer ditar regras à revelia do povo que as sustentam, aos trancos e barrancos!
E ainda tem umas "entidades invisíveis" que adentram repentinamente o computador com recados ameaçadores na
tentativa de amedrontar o usuário, para que o forcem a obedecer seus "bons conselhos" alegando questão de "segurança", e eu me pergunto: segurança para quem? 
Às vezes, o melhor a fazer é dar umas boas risadas, levantar-se, ir até ao banheiro e dar uma boa mijada!
Sai ano, entra ano, e a ladainha continua a mesma: sorria,
seja feliz, se empanturre na comilança, (mesmo que você não tenha onde cair morto), tome um porre e se encharque na lama, pois amanhã, como num passe de mágica, será outro dia!
 E vamos consumir cada vez mais o supérfluo, OH!
Ora, direis...
Dirás mesmo?

26/12/2017

Machado de Assis fala sobre "um assunto de comestíveis"

 
 
[...]

 

Porquanto, a dita Câmara Municipal, perguntando-lhe o procurador se podia mandar fornecer jantar ao Tribunal do Júri, quando as sessões se prolongassem até tarde, respondeu que não, visto que tal despesa não se acha autorizada em lei.
Teve razão a Câmara, teve-a duas vezes: a primeira porque a lei o veda e a obediência à lei é a necessidade máxima; a segunda, porque o jantar é, de certo modo, um agente de corrupção. Não me venham com sentenças latinas: primo vivere, deonde judicare.* Não me venham com considerações de ordem fisiológica, nem com rifões populares, nem com outras razões da mesma farinha, muito próprias para embair ignorantes ou colher descuidados, mas
sem nenhum valor ou alcance para quem olhar as coisas de
certa altura. A questão é puramente moral e a presença do rosbife não lhe diminui nem lhe troca a natureza. Não me
venham também com o jantar na política, porque, em certos casos, não há incompatibilidade entre o voto e o prato de lentilhas; e politicamente falando, o paio é uma necessidade pública. O caso dos jurados é outra coisa.
A primeira e inevitável consequência do jantar aos jurados
seria a condenação de todos os réus, não porque o quilo implique severidade, mas porque induz à gratidão. Como se
sabe, absolvidos os réus, paga a municipalidade as custas; não é crível que um tribunal de homens briosos e generosos
condene a mão que lhe prepara o jantar. Convém contar com o pudor dos estômagos. Acresce que a digestão é variável em seus efeitos. Umas vezes inclina ao cochilo, e não se pode calcular que inúmeros erros judiciários sairão de um tribunal que dorme a sesta; outras vezes o organismo precisa de locomoção, e as sentenças cairão da pena como frutas verdes que um rapaz derruba. Não cito o
caso dos que fazem o quilo entre a espadilha e o basto e ficariam impacientes por sair; caso verdadeiramente assustador, visto que a maior das nossas forças sociais é o
voltarete.**
Cotejem agora as inconveniências do jantar com as vantagens do jejum. O jejum, um estado de graça espiritual
é uma das formas adotadas para macerar a carne e seus maus instintos. A satisfação da carne torce a condição humana, igualando-a à das bestas; ao passo que a privação
amortece a condição bestial e apura a outra; fortifica, portanto, o ser inteligível, aclara as ideias, afina e eleva a concepção da justiça. A sopa tem suas vantagens, o assado não é em si mesmo uma abominação; pode-se almoçar e querer bem, não há incompatibilidade absoluta entre a virtude e a couve-flor. A justiça, porém, requer alguma coisa menos precária, mais certa; não se pode fiar de hipóteses, de casualidades, de temperamentos.
O que me admira neste caso, não é a decisão da Câmara, que aplaudo, desde que é fundada em lei, e o respeito da lei
é a primeira expressão da liberdade. O que me admira é que só agora reclame o júri um bocado de pão. Pois nunca pediu o júri um verbazinha para os seus pastéis? Só agora
há estômagos naquele tribunal? Só agora há processos longos e juízes famintos? Tanto pior; se esperam tantos anos, podem esperar alguns mais.
 
Machado de Assis, em Crônicas selecionadas- 01 de setembro de 1878
 
* "primeiro viver, depois julgar"
 
** jogo de cartas entre três pessoas, com 40 cartas.

20/12/2017

Cansaço


 

A verdade é que o Brasil às vezes enche. A gente vai achando interessantes as conversas: o presidente disse ao ministro fulano que o ministro sicrano era assim ou assado; ontem houve uma briga naquela boîte por causa da mulher de beltrano; João conseguiu levantar 15 milhões de cruzeiros no Banco do Brasil; Pedro vai ser nomeado embaixador; Manuel já está arrumando as gavetas para deixar o cargo; Joaquim avalizou uma promissória em troca de uma promessa de Antônio de não atacar Fagundes; o deputado tal recebeu as provas de uma tremenda bandalheira que, entretanto, ao que parece, não revelará;
os generais Antão e Beltão estão encabeçando um movimento no Exército no sentido de fazer sentir ao ministro que não é conveniente a promulgação de tal projeto; Praxedes já está convidando gente para formar seu gabinete; um grupo de industriais vai promover uma campanha para evitar a exportação de barbatimão para o Irã; um parente do presidente prometeu grandes ajudas se lhe derem a diretoria da associação meridional de tênis de mesa...notícias sobre deputados estaduais e jogo de bicho, sobre Cexim, Cofap...
O Brasil, às vezes enche. Principalmente nesta grande e quente aldeia que é o Rio de Janeiro onde, com meia hora de conversa em um clube ou uma boîte, qualquer pessoa fica sabendo das ligações, dos compromissos, das fraquezas
e das tediosas intimidades de um pequeno grupo de pessoas que se ajudam, se enganam, se friccionam, se alisam - essas pessoas que se acreditam e, ao menos aparentemente, são mesmo o Brasil. Pessoas eternas; podem sumir da vida pública depois de anos e anos de destaque e também de incompetência, fraqueza, desonestidade; subitamente, alguém tem um ataque de imaginação e as chama de volta, como se houvesse neste país uma trágica miséria de gente.
Pedro Nava costuma dizer que o brasileiro é tão desleixado
que só enterra o morto da família porque, se não enterrar, o morto começa a cheirar mal. Se não fosse isso - diz ele, que é médico, conhece por dentro a displicência de nossa gente - um parente deixaria que o outro fosse providenciar os papéis, o outro deixaria para amanhã, amanhã diria que afinal quem devia ver isso é o Tonico, e o Tonico prometia ver, mas depois que acabasse a irradiação do jogo, e afinal no dia seguinte explicaria que encontrara um amigo que tinha conhecido numa empresa fúnebre e prometera ver se conseguia um enterro de primeira por um preço de segunda - e assim por diante. A defesa do morto é mesmo cheirar mal. Mas a dos vivos, não. Parece que quanto mais cheiram mal, melhor. Por favor, não pensem que eu estou me referindo a fulano ou a sicrano. Não estou me referindo especialmente a ninguém; estou apenas, neste fim de tarde depois de um dia em que ouvi tanta conversa, um pouco fatigado de nosso querido Brasil.
Porque o Brasil, às vezes, enche.
 
Rubem Braga, Correio da Manhã, outubro de 1952

17/12/2017

E o mundo não se acabou


Composição de Assis Valente, Sto.Amaro BA -  (1902-1958)
 


12/12/2017

O tico-tico tá comendo o meu fubá...


O tico-tico tá,
tá outra vez aqui
o tico-tico tá comendo
o meu fubá...
O tico-tico tem,
tem que se alimentar...
Que vá comer
 umas minhocas no pomar
 
Ó por favor, tire esse bicho
do celeiro, porque
ele acaba comendo
o fubá inteiro!
Tire esse tico-tico
de cá de cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu já fiz tudo pra ver se conseguia
Botei alpiste pra ver se ele comia,
botei um gato, um espantalho
e alçapão, mas ele acha
que fubá é que é a boa alimentação!
 

 Música de Zequinha de Abreu e letra de Eurico Barreiros
 

06/12/2017

 

A vida é muito simples, tão simples que alguns que se julgam muito "espertos" estão sempre tentando nos tratar como se fôssemos simplórios, destituídos de cérebros. Tem sido assim desde os tempos em que aqui aportaram as caravelas europeias com suas bugigangas, balas de festim e espelhos mirabolantes.
Índios, negros, e mulheres sempre foram tratados por uma elite dominante como seres inferiores, sem capacidade para raciocinar. E como conseguem isso? Tomando de assalto tudo o que nos pertence, se apropriando de nossas riquezas, da nossa força de trabalho, de nossas cabeças. Quando o Brasil era colônia de Portugal, o rei daquele país monopolizava toda e qualquer informação não permitindo que a população tomasse conhecimento dos fatos que ocorriam. De lá para cá, os meios de comunicação passaram para as mãos das famílias de maior poder aquisitivo do país,  permanecendo até hoje: manipulando, distorcendo, e pior,  desinformando a população.
Os índios foram barbaramente massacrados. De uma população de mais de 5 milhões de indivíduos, hoje restam aproximadamente uns seiscentos e poucos mil. Os negros africanos  foram arrancados brutalmente do seu país, escravizados, acorrentados e obrigados a trabalhar de graça para os grandes senhores de terra daqui, da Europa e dos EUA. Deram seu sangue, suas vidas para o enriquecimento das nações do mundo inteiro. O que receberam em troca? Pobreza, desprezo e discriminação, muita discriminação!
E as mulheres? Essas, sempre foram tratadas como objetos para satisfazer os instintos sexuais dos machos. Se hoje tem havido alguma melhoria na vida da mulher, se deve a uma luta diária, persistente e à custa de muito sacrifício. Ainda assistimos a muitos casos de estupros, de espancamentos e mortes no recesso de seus lares; somos usadas em campanhas publicitárias de automóveis, de lingeries, cerveja, e nos bailes funkies somos chamadas de "cachorras", popozudas, mulher-fruta, mulher-melancia, sempre vulgarizando o corpo da mulher. Existem muitos homens que acreditam que "mulher gosta mesmo é de apanhar" A impunidade ainda prevalece, a "justiça" dispõe de leis ambíguas, de recursos que possibilitam a liberdade do criminoso.  A ideia de que a mulher é dependente do homem, de que é o "sexo frágil" é tão arraigada e tão difundida, que uma boa parcela das mulheres não só acredita nisso, como até (des)educa seus filhos e filhas a partir desse ideário machista, embora sejam elas as provedoras de uma grande parcela das famílias atualmente 
Já tivemos muitas mulheres corajosas, que deram suas vidas por acreditar na emancipação da mulher e da sociedade: Jovita Feitosa, Bárbara de Alencar, Maria Quitéria, Anita Garibaldi, Chiquinha Gonzaga, sem contar as milhares de mulheres anônimas que labutam ainda hoje por uma vida digna e respeitável. Eu também não vim ao mundo apenas para ouvir e ver a banda passar. Quero fazer parte da orquestra, cantar e dançar junto com ela e os outros. Não quero ser representada por  alguém que desrespeite a mim e a meus semelhantes, que espanca mulheres, que manipula a imprensa e atende a interesses internacionais estranhos a meu país. Não vivemos num mar de rosas, ainda há um longo caminho a ser percorrido, muitos erros a serem corrigidos, mas já estivemos muito, mas muito pior. Nem os caranguejos andam para trás, eles dão voltas até alcançar o seu objetivo. Protestar, discordar, é legítimo, é um direito de cada cidadão. Mas aliar-se, omitir-se ou apoiar aqueles que desejam destruir tudo o que conquistamos até hoje, é, no mínimo, ser conivente com aqueles que só almejam continuar fazendo parte de uma pequena elite possuidora das maiores fortunas do país!

30/11/2017

Pedir desculpas

 


Muita gente que joga pedra e esconde a mão pede desculpas justamente para continuar como antes. É que pedir desculpas não custa nada.Mais ou menos como a história dos arrependidos. Outrora, alguém que se arrependia de seus malfeitos primeiro tratava de repará-los de algum modo e depois se dedicava a uma vida de penitência, refugiava-se na Tebaida*, flagelando o peito com pedras pontiagudas ou ia tratar dos
leprosos na África Negra. Hoje, o arrependido se limita a denunciar seus ex-companheiros e depois ou goza de cuidados especiais com nova identidade em confortáveis apartamentos reservados ou sai mais cedo da cadeia e escreve livros, concede entrevistas, encontra chefes de Estado e recebe cartas apaixonadas de mocinhas românticas.
[...]
O problema é que, se quem fez o mal ainda está vivo, pode
pedir desculpas pessoalmente. Mas e se tiver morrido? Quando João Paulo II pediu desculpas pelo processo a Galileu, ele mostrou o caminho. Mesmo que o erro tivesse sido cometido por um antecessor, quem pede desculpas é o
herdeiro legítimo. Por exemplo: quem deve pedir desculpas
pelo massacre dos inocentes? O culpado foi Herodes, que governava Jerusalém e, portanto, seu herdeiro legítimo é
o governo israelense. Por outro lado, ao contrário do que são Paulo acabou de nos fazer acreditar, os verdadeiros e diretos responsáveis pela morte de Jesus não foram os infames judeus, mas o governo romano e quem estava aos pés da cruz eram os centuriões e não os fariseus. Com o desaparecimento do Sacro Império Romano, o único herdeiro que resta do governo romano é o Estado italiano e
portanto, é o presidente Giorgio Napolitano quem deve pedir desculpas pela crucificação. [...]
Haveria, aliás, alguns casos embaraçosos. Quem pede desculpas pelas confusões armadas por Ptolomeu, verdadeiro inspirador da condenação de Galileu? Se, como se diz, ele nasceu em Ptolemaida, que fica na Cirenaica, o desculpante deveria ser Ghedafi, mas se nasceu em Alexandria, deveria ser o governo egípcio. Quem pede desculpas pelos campos de extermínio? Os únicos herdeiros vivos do nazismo são os vários movimentos naziskin, que realmente não têm o menor jeito de quem pretende pedir desculpas; na verdade, se pudessem fariam tudo de novo.
[...] O problema é saber quem são hoje os "verdadeiros" herdeiros do fascismo e confesso que esta questão me embaraça.
 
Umberto Eco (1932-2016) em Pape Satàn Aleppe - crônicas de uma sociedade líquida - Edit. Record, 2017
 
* Tebaida é derivada da palavra Tebas, antiga capital do
Egito, às margens do mar Mediterrâneo. No século V d.C.,
foi refúgio de cristãos e eremitas.

25/11/2017

Almas mortas

 
 
 
Depressa tudo se transforma no ser humano: nem ele próprio percebe como cresce dentro dele um verme terrível
que se apropria de toda a seiva vital. E, mais de uma vez,
 a paixão - grande ou mesquinha - cresce em um indivíduo que nasceu para coisas melhores, obrigando-o a esquecer seus deveres, transformando o que é grande em trivialidades mesquinhas.
Incontáveis como as areias do mar são as paixões humanas
e todas elas diferem entre si; e todas elas, as vis como  as
nobres, a princípio são dominadas pelo homem, para logo depois se transformarem em seus tiranos.
[...] Sim, meus leitores, vós preferiríeis não tomar conhecimento da miséria humana. Para que, dizeis vós, qual
é a utilidade disso? Então não sabemos que existe muita coisa ridícula e desprezível na vida? Melhor seria se nos mostrassem o belo, o aprazível. Melhor seria que esquecêssemos, que escapássemos disso! Para que me dizeis que os negócios vão mal em minha terra? Isso, meu amigo, sei sem a tua ajuda. Será que não tens outros assuntos para mim? Deixa-me esquecer essas coisas, não
quero saber delas, só assim ficarei feliz. E assim o dinheiro
que poderia servir para colocar os negócios em ordem será
empregado em recursos que levam ao esquecimento.
 
Nicolai Vassilievitch Gogol (Ucrânia, 1809-1852) em
Almas Mortas

20/11/2017

Dia da Consciência Negra


Renata Éssis, backing vocal de Liniker e os Caramelows
 
Ainda precisamos do Dia da Consciência Negra porque vivemos em uma sociedade na qual pessoas negras são
tratadas como cidadãos de segunda classe. Na qual ofensas
graves a pessoas negras são levadas como piadas ou amenidades. Na qual a completa inexistência de oportunidades é vista como falta de mérito. Esse dia existe
para mostrar que há uma dívida histórica com a população
negra - não só no Brasil, mas no mundo inteiro.
 
Miriam Alves, escritora e poeta com publicações nos Cadernos Negros
 
Precisa de um Dia da Consciência Negra? Na verdade não
precisaria. Era só um dia, que passamos a comemorar por
uma semana e agora comemoramos o mês todo como sendo da Consciência Negra. (...) A gente é preto de janeiro
a janeiro, então a discussão precisa ser feita de janeiro a janeiro.
 
Cida Bento, coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEER)
 
Precisamos do Dia da Consciência Negra para nos apropriarmos do nosso poder enquanto maioria da população do Brasil e utilizarmos pra dar um basta na bandalheira que estamos vivenciando em nosso país.

 



 
A nossa escrivivência não pode ser lida como histórias para "ninar os da casa grande", e sim para incomodá-los em seus
sonos injustos.
Conceição Evaristo, escritora - Belo Horizonte,1946
 
***
 
Ferro
 
Primeiro o ferro marca
a violência nas costas.
Depois o ferro alisa
a vergonha nos cabelos.
Na verdade o que se precisa
é jogar o ferro fora
e quebrar todos os elos
dessa corrente
de desesperos.
 
Cuti, em Batuque detocaia
 
 
O negro pronto
está se fazendo sempre
ponto por ponto
 
atento contra o jogo da humilhação e
do cansaço
 
chegando a ficar tonto
de tanta lucidez
sem porre de talvez
ou preguiça
 
mergulha de vez
no sumo de ser-se
no húmus do outro
 
se funde em tudo que for possível
ou mesmo se confunde
ou até cai no
poço
do
nada
mas foge da cela
ludibria ciladas
 
com suor dilui espinhos
do horizonte cria músculos
e semeia o novo crepúsculo
 
o negro pronto
está se fazendo sempre
ponto por ponto
na decifração das marcas
transfigurando povo
em Flash crioulo
 
Cuti (Luís Silva - nasceu em Ourinhos-SP, mestre em Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Unicamp-SP)

17/11/2017

Economia

 
 
Nos nossos trens de subúrbios passam-se às vezes coisas bem divertidas. Já não se fala das altercações entre os auxiliares e os passageiros por causa de passagens, passes etc. Os regulamentos são tão exigentes, e o público está tão disposto a lesar o Estado, que esses atritos hão de se dar sempre.
Há também as conversas que são interessantes.
Um companheiro de banco volta-se para nós e diz, depois de ler o seu jornal:
- Veja só, o senhor, como vai este país. Ladroeira sobre ladroeira. Não há governo que conserte isso. Eu endireitava isso em oito dias...Não querem emissão de papel-moeda...
Que querem? Ouro. Nuca vi disto aqui desde que me conheço...E são financeiros?
Um outro, logo que se senta, pergunta:
- O senhor é empregado público?
Afirmamos que somos e dizemos de que repartição. Ele continua:
- É uma boa repartição. A minha não presta para nada. Estou lá há vinte anos e ainda não tive uma promoção. Se estivesse na sua, talvez já fosse chefe de seção. Demais, na
minha, há uns tantos que não fazem nada, mas não deixam nós sermos chefes. No comércio, eu já estava rico, mas quis
casar-me cedo, foi essa desgraça...
Como essas muitas outras que não contamos para não enfadar. Entretanto, vamos narrar esta pequena anedota bem cômica.
Um dia destes, viajando num carro de segunda classe, havia um passageiro que trazia cuidadosamente um embrulho. Chegou a hora da cobrança das passagens, e ele colocou com cuidado no colo, preso às pernas, o volume. Pôs-se a procurar pelas algibeiras o bilhete de passagem.
Chega o condutor, ele faz um movimento qualquer, o embrulho move-se, abre-se, salta uma galinha a cantar
- Cocorococó! Cocorococó!
O passageiro corre atrás do bicho e o condutor atrás:
- Pague a multa! Pague a multa!
A galinha corre pelo carro todo e o passageiro atrás.
O condutor continua correndo atrás do passageiro:
- Pague a multa!
O passageiro, atrás sempre do bicho, contesta:
- Espere! Espere! Deixe-me apanhar a minha galinha primeiro.
Esta voou pela janela, e o homem teve que entrar com alguns níqueis para os cofres do Estado.

Lima Barreto em Sátiras e outras subversões

14/11/2017

Quem são os 18 homens (?) que querem legislar sobre o corpo das mulheres


do Intercept

Quem são os 18 homens que querem legislar sobre o corpo das mulheres

por João Filho

EM UMA MANOBRA pouco republicana e nada cristã, a bancada da bíblia incluiu uma mudança constitucional em uma PEC que pretendia apenas ampliar a licença-maternidade para mães de bebês prematuros. A alteração, feita por uma comissão especial da Câmara, torna ilegal qualquer tipo de aborto, inclusive em casos de estupro e anencefalia do feto. A aprovação da malandragem foi feita durante um rápido intervalo em que a sessão do plenário foi derrubada por falta de quórum e sem a presença da oposição.
Em 2012, o STF permitiu o aborto em caso de anencefalia. O Código Penal de 1940, implementado há quase 80 anos, permite o aborto em casos de estupro. Mas nada disso importa para a bancada da bíblia, que segue em sua missão divina de reverter esses avanços civilizatórios.
Sem nenhum respeito pela laicidade do Estado, um grupo de homens medievais impôs suas crenças goela abaixo de todas as mulheres brasileiras. Por 18 votos masculinos contra 1 feminino — o de Erika Kokay (PT-DF) — a comissão aprovou a barbaridade aos gritos de “Vida sim, aborto não!”.  Só ficou faltando empunharem tochas para completar o cenário.
A decisão da comissão ainda passará pelo crivo do plenário da Câmara, onde dificilmente será aprovada, mas mostra do que as forças reacionárias são capazes.
Mas quem são os 18 deputados que querem legislar sobres os corpos das mulheres com base nas sua convicções religiosas? Tracei um breve perfil desses homens de Deus:
Evandro Gussi (PV-SP):  Advogado, empresário e professor de instituto ligado à Renovação Carismática Católica, este católico carismático foi quem presidiu a comissão que tornou ilegal o aborto em qualquer circunstância. Ele venceu a eleição em 2014 com ajuda decisiva da TV Canção Nova, onde aparecia com frequência. Aborto sempre foi o tema principal da sua campanha e depois na sua atuação como  parlamentar. Apesar da religião ter papel fundamental na sua vida, Gussi jura de pés juntos que sua posição favorável à criminalização é puramente racional: “Eu tenho a minha religião, mas em toda a minha argumentação eu não recorro a nenhum argumento religioso para ser contrário ao aborto, meus argumentos são totalmente racionais, a partir de um raciocínio filosófico e que a Constituição garante que eu posso tê-lo”
Mauro Pereira (PMDB-RS): Conhecido em Caxias do Sul por aparecer ao lado de políticos importantes nas fotos dos jornais e TV, o papagaio de pirata é também autor das seguintes frases: “Michel Temer é trabalhador e honesto”, “Quem votar contra (arquivamento de denúncia contra Temer) detesta o Brasil”. Foi um fiel escudeiro de Cunha até o dia da votação da sua cassação, quando decidiu abandonar o companheiro ferido na estrada.
Givaldo Carimbão (PHS-AL): Coordenador da Frente Parlamentar Católica da Câmara, o católico fervoroso Givaldo se mostrou um dos mais indignados com a mostra Queermuseu. Em audiência pública na Câmara, o valoroso cristão disse para o ministro da Cultura que “queria pegar a mãe e a filha do ministro e colocar de perna aberta como nas fotos”. Quanto respeito pelas mulheres, não?
Alan Rick (DEM-AC): Jornalista, apresentador de TV e pastor evangélico, o acreano foi eleito pelo PRB, partido da Igreja Universal, antes de mudar para o DEM. Usou verba parlamentar para contratar empresa para monitorar seus críticos nas redes sociais.
luismacedo-1510341768 Evandro Gussi, João Campos e Jorge Tadeu Mudalen conversam durante comissão especial da Câmara (Luis Macedo/Câmara dos Deputados)

Marcos Soares (DEM-RJ): Filho do pastor Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como Missionário R. R. Soares, o deputado tem uma atuação tímida, quase nula na Câmara. Mas em 2015, Marcos Soares apresentou um projeto de lei que pretendia transformar as autorizações para as TVs por assinatura, transmitidas em canais UHFs, em canais abertos de televisão. Se o projeto tivesse sido aprovado, o seu papi passaria a ter sua própria TV aberta para divulgar sua religião.
Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP): É frequentador da Igreja Internacional da Graça de Deus e amigo do seu proprietário, o pastor RR Soares. Segundo levantamento feito pela Folha, o deputado apareceu em primeiríssimo lugar como o que mais viajou pelo mundo com tudo pago (passagem aérea, hospedagem, alimentação e transporte local) pela Câmara. De 2010 a 2016, Mudalen fez 28 viagens e visitou países das Américas, Europa e Ásia.
Leonardo Quintão (PMDB-MG): Filho do pastor evangélico, fazendeiro e prefeito de Ipatinga, Sebastião Quintão, Leonardo cumpre seu terceiro mandato consecutivo. É representante das mineradoras e teve 42% da sua última campanha financiada por empresas ligadas à mineração. Seu irmão é empresário da área de mineração e foi um dos doadores da campanha. Aliado forte de Eduardo Cunha, Quintão foi um dos seus principais defensores no Conselho de Ética que cassou seu mandato. Foi também o deputado mineiro que mais recebeu recursos via emendas parlamentares nos meses que antecederam a votação da primeira denúncia contra Temer na Câmara. Conhecido por suas posições moralistas e conservadoras, Quintão tentou em 2015 beneficiar um shopping com um empréstimo milionário do BNDES de forma sorrateira. De 2010 a 2015, o patrimônio do nobre deputado cresceu apenas 584%.
Pastor Eurico (PHS-PE): O pastor da Assembleia de Deus é um entusiasta do período de chumbo e chegou a afirmar que “o governo militar foi solução para o Brasil”
Joaquim Passarinho (PSD-PA):  Católico, o sobrinho de Jarbas Passarinho é conhecido no estado do Pará como Quinzinho. Foi autor da inacreditável lei que tornou obrigatório o fornecimento de fio dental por bares e restaurantes do estado.
Gilberto Nascimento (PSC-SP): Advogado e ex-delegado de polícia ligado à Assembleia de Deus. Em seu primeiro mandato como deputado federal em 2003, foi denunciado por participar do Escândalo dos Sanguessugas e acabou sendo indiciado pela Polícia Federal em 2007 por formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ): Além de ser apadrinhado por Silas Malafaia, dono da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Sóstenes é pastor da mesma igreja. Em 2015, numa audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o nobre pastor sugeriu a criação de uma “bolsa ex-gay” para homossexuais que se convertessem à heterossexualidade.
Antônio Jácome (PODE-RN): Ah, esse aqui é um caso muito interessante. Ex-pastor da Assembleia de Deus, Jácome virou manchete em todos os jornais do Rio Grande do Norte em 2011. É que ele foi alvo de uma investigação da cúpula da Igreja e foi condenado por unanimidade pelas acusações de adultério e por ter incitado um…aborto. Segundo o jornal potiguar “O Mossoroense”, o parlamentar enviou carta admitindo os pecados, mas de nada adiantou. Jácome perdeu o título de pastor e ficou proibido de subir ao púlpito das igrejas da Assembleia de Deus. Ele não pode mais pregar na igreja, mas continua pregando normalmente na Câmara.
João Campos (PRB-GO): É pastor auxiliar da Igreja Assembleia de Deus de Vila Nova, Goiás. Em 2011, quando era do PSDB, foi o autor do hediondo projeto conhecido como “Cura Gay”. Foi também autor da PEC99/2011, que dá às igrejas o poder de questionar leis junto ao STF. Passou a ser investigado pelo Ministério Público após ser acusado por uma ex-funcionária de ficar com parte do salário dela entre 2004 e 2008.
Jefferson Campos (PSD-SP): É pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular. Quando vereador em Sorocaba, tentou emplacar uma lei que incluía o Criacionismo no currículo da rede municipal da cidade. O valoroso cristão teve seu nome presente em diversos casos de corrupção. No Escândalo dos Sanguessugas em 2006, foi acusado por corrupção passiva, associação para o crime e fraude em licitações. Ele teria recebido R$ 15 mil de propina para direcionar verbas de emendas parlamentares para compra de ambulâncias acima do preço, além de um ônibus para a campanha de um cunhado candidato a vereador. Foi absolvido pelo STF por falta de provas. Mas Deus tinha planos maiores na vida deste homem. Em 2007, ele conseguiu ser denunciado duas vezes: a primeira pelo MPF de São Paulo por improbidade administrativa, a segunda pelo MPF do Mato Grosso por formação de quadrilha, corrupção passiva e fraude em licitações.
Diego Garcia (PHS-PR):  Considerado o principal líder da bancada da bíblia, o paranaense é ligado à Renovação Carismática Católica. Diego também foi relator do projeto de lei que cria o Estatuto da Família e deu o parecer no qual define a família como a união entre homem e mulher. O mesmo moralismo que apresenta como parlamentar parece não se repetir em sua vida privada. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por corrupção ativa sob acusação de subornar uma agente do Detran. Essa criaturinha de Deus foi flagrada em escutas telefônicas comprando a CNH. O caso prescreveu em 2015. Em 2016, este católico carismático teve a ousadia de enviar um projeto de lei à Câmara para tornar a cidade de Curitiba a Capital Nacional Anticorrupção, uma singela homenagem à Operação Lava Jato.
Flavinho (PSB-SP): Missionário na comunidade católica Canção Nova por 27 anos, Flavinho é um antissocialista do partido socialista. Se posicionou contra a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara e afirmou que “as mulheres não querem empoderamento. Querem ser amadas, querem ser cuidadas”
Eros Biondini (PROS-MG): Integrante da Renovação Carismática Católica e fundador da Missão Mundo Novo, o deputado mineiro é o idealizador do “Cristo é o Show”, maior evento musical católico do país, além de ter sido apresentador do programa “Mais Brasil” da TV Canção Nova. Tem vários discos de músicas religiosas lançados. Este homem de Deus  esteve na mira da PGR por apresentar notas frias para justificar gastos públicos quando estava na Assembleia Legislativa de Minas. Logo após ser denunciado, virou secretário de Esportes do governo Antonio Anastasia (PSDB-MG).
Paulo Freire (PR-SP): É pastor  da Assembleia de Deus. Seu pai e seus irmãos também são pastores. Foi acusado pelo Ministério Público de integrar a Máfia do Asfalto.

Como se vê, a moral e os bons costumes dos patrulheiros do corpo alheio não resistem a uma googlada.

13/11/2017

De Manuel Alegre*



 
Trova do vento que passa

 Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
 
Manuel Alegre (de Melo Duarte)
Portugal, 1936-


09/11/2017

A raposa e os perus

Marc Chagall

 
Contra os assaltos da raposa
Uma árvore aos perus servia de cidadela.
A pérfida, a rondar esse abrigo, gulosa
Vendo-os de sentinela,
Exclamou: "Quê! Essa gente vai zombar de mim?!
Não, pelos deuses! não." E manteve a conduta.
O luar claro, contra a senhorinha astuta,
Parecia ajudar a perueira raça.
Ela, nada noviça em assediar caça,
Recorreu ao seu saco de astúcias piratas,
Fingiu querer subir, levantou-se nas patas,
Bancou a morta e já ressuscitou depressa.
Arlequim não teria essa
Gama de tantas personagens.
Ela estalava a cauda, a fazia brilhar,
E cem mil outras marotagens.
Enquanto isso nenhum peru quis cochilar:
A inimiga os deixava assim de olhar fixado
No mesmo objeto mostrado.
Os coitados, ficando ao longo embevecidos,
Sempre caía algum: tantos já recolhidos,
Tantos postos à parte; quase a metade deles.
A companheira os põe no seu guarda-comida.
 
Dar atenção demais aos perigos da vida
Não raro faz cairmos neles.
 
Jean de La Fontaine - Chateau-Tierry(França) 1621-1695

06/11/2017

 



Nas ruas de chumbo portas e janelas estão fechadas. O chão está vermelho, e das gargantas sangram gritos e impropérios. Pássaros empalhados vociferam cantos dissonantes numa linguagem afiada como lâmina. Camaleões desfilam sobre o asfalto mal polido.
Línguas de fogo rasgam o céu da boca; rasgam corpos de borboletas sem asas que se misturam e se transformam em
letras amontoadas que se transmutam em palavras que formam um texto, um leito de rio turbulento repleto de pedaços, de fragmentos de palavras aparentemente sem
nexo. Sem ilusão o rio corre desenfreado para encontrar-se
com um mar de incertezas...

31/10/2017

Para não esquecer Drummond



 
Mãos dadas
 
 Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
 
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por
 serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes, a vida presente.
 
 
Os ombros suportam o mundo
 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
 
Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
 
Os mortos de sobrecasaca
 
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
 
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
daquelas páginas.
 
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira(MG),
no dia 31.10.1902, e faleceu no Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de 1987
 


25/10/2017

PARA DES-MORALIZAR

Sabemos que arte não é verdade.
A arte é uma mentira que nos faz descobrir
a verdade.  Pablo Picasso
 
 

Pablo Picasso (1881-1973)
 
 
A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele. Barão de Itararé
 
Jacques-Louis David (1748-1825)
 
 É preciso ser-se imoral para por a moral em ação. Os meios dos moralistas são os mais asquerosos que já foram usados. Quem não tiver coragem de ser imoral, pode servir para tudo, exceto para ser moralista. Nietzche

Cornelis van Haarlem (1562-1638)
 
 
Carlo Saraceni (1579-1620)
 

 
Há moralistas imoralíssimos! Guerra Junqueiro
 
 
William Blake (1757-1824)
 


Moralistas são pessoas que renunciam às alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria dos outros. Bertrand Russell
 
Arthemisia Gentileschi (1593-1654)

 
 
Ah, esses moralistas...não há nada que empeste mais do que um desinfetante. Mário Quintana
 

Aníbal Carracci (1560-1609)



23/10/2017

Ausência

Por muito tempo achei
que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante,
a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento
exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência
assimilada, ninguém a rouba mais
de mim.
 
 
Carlos Drummond de Andrade

15/10/2017

Sob as asas do tempo



 
Um pardal atravessou o raio de sol numa linha enviesada, pousou no parapeito da janela e inclinou a cabeça para mim. O olho era redondo e reluzente. Primeiro ele me olhava com um olho, e zás! virava o outro, a garganta latejando
mais rápido que qualquer pulso. Começou a dar a hora cheia. O pardal parou de
trocar de olhos e ficou me observando fixamente com um olho só, até que o
carrilhão parou de bater, como se também estivesse prestando atenção  nas
batidas. Então bateu asas e desapareceu.
Demorou algum tempo até a última batida parar de vibrar. Ela permaneceu no
ar, mais sentida que ouvida, por um bom tempo.
 
 
William Faulkner (Mississipi(EUA)1897-1962) em O som e a fúria

12/10/2017

Sem título

 
 É melhor se laico do que comportar-se mal
dentro da ordem.
 
Sebastian Brant Alsácia, 1457-1521
 
 

Michelangelo Buonarroti, A criação de Adão

 


 
Michelangelo Buonarroti - Capela Sisitina(detalhe)


 


 
Michelangelo Buonarroti (1475-1564) Leda e o cisne

 

 
Hyeronimus Bosch (1450-1516) O jardim das delícias(detalhe)

 
 
Cornelis Bos (1508-1555)
 

 
Carlo Saraceni (1579-1620)
 
 
Nicolas Poussin  (1594-1665)

 
 

Lucas Cranach (1472-1553), A fonte da juventude
 
 
A fonte da juventude(detalhe), de Lucas Cranach
 



Hyeronimus Bosch (1450-1516)


08/10/2017

A carta do capiroto - Gustavo Gollo*



Não sei dizer que tipo de coisa é essa, tão estranha para mim quanto para o leitor. Tendo, no entanto, e sem saber como, me caído nas mãos essa carta do Capiroto, vejo-me na incumbência de repassá-la imediatamente, livrando-me assim de enorme peso.



Sr Presidente,
Como certamente já percebeu, tendo barganhado quase todo o patrimônio do estado, as poucas artimanhas do gênero que ainda lhe restam serão insuficientes para continuar financiando a compra daqueles que o mantêm no poder, situação embaraçosa que logo o deixará sem apoio para continuar a governar. 
Tendo em vista tal constrangimento, e a situação do país, é com satisfação que envio sugestão que lhe terá enorme valia, propiciando a continuidade do financiamento que o tem mantido no poder.
A proposta consiste em executar literalmente aquilo que já vem sendo feito de maneira simbólica: arrancar o couro do brasileiro. Trata-se de um último capital a ser espremido de tal criatura.
Suas sábias medidas econômicas têm garantido presídios abarrotados, e ruas cada vez mais infestadas de mendigos, celeiros inexauríveis desse imenso capital: o couro humano, verdadeiro tesouro.
Modelado sob medida, bastará retirar o couro dos brasileiros, obtendo-se assim vestimentas impecáveis, justas, precisas, e sem nenhuma costura! Que calçados maravilhosos serão obtidos com o couro dos pés, justos em cada detalhe, perfeitos, e que maciez! A perfeição de blusas, calças e luvas de couro humano, além dos calçados, e até tocas ninja confeccionadas sem nenhuma costura, será atrativo irresistível aos ávidos consumidores. A perfeição do caimento de peças tão magníficas advirá naturalmente, sem a necessidade de habilidades especiais dos artesãos que as confeccionarem, já tendo sido produzidas originalmente, sob medida.
A renda obtida com os lucros da venda desse último capital nacional disponível propiciará a compra dos parlamentares que garantirão o cumprimento de seu mandato até o fim.

 Calorosamente,


Capiroto

Extraído de  jornalggn.com.br

04/10/2017

Lima Barreto




Se me fosse dado ter o dom completo de escritor,
eu havia de ser assim um Rousseau, ao meu jeito,
pregando à massa um ideal de vigor, de violência,
de força, de coragem calculada, que lhes corrigisse
a bondade e a doçura deprimente. Havia de saturá-las
de um individualismo feroz, de um ideal de ser como aquelas
trepadeiras de Java, amorosas de sol, que coleiam
pelas grossas árvores da floresta e vão por ela acima
mais alto que os mais altos ramos para dar afinal
a sua glória em espetáculo.
Lima Barreto
 
 
Foi me dado querer ser escritor
E eu só quero ser assim um Lima Barreto
Ao seu jeito ao meu tempo
Despejando meus sentimentos íntimos
Pregando diretamente o cotidiano suburbano
O vigor a violência a força a coragem calculada
Que agride a bondade inócua
Que extirpa a doçura deprimente
Que extermina a cordialidade bestial
Foi e dado querer ter o vigor de Lima Barreto
Meu texto quer mesmo ser o fardamento de meu eito
A gramática de minha Ira
A poética da cor e do afastamento
 
Estaca afiada fincada no peito fidalgo do mal
Mancha de piche no assoalho do mármore de carrara infernal
Madeira enegrecida do ébano nos jardins das rosas funestas
Foi me dado querer inspirar-me só no vigor de Lima Barreto
 
Grafar o calor do sol de séculos de transplantes e desenraizamentos
 
Ele, mais alto a cada dia
Ele, superando as raízes podres desta selva vadia
Ele, acima dos ramos rasteiros
Ele, o galho mais frondoso
O tronco mais robusto
Dando afinal a sua glória em espetáculo
 
Nelson Maca (Telêmaco Borba(PR), 1965), em Gramática da Ira - Blackitude, 2015.