DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

12/08/2018

Da violência contra a mulher negra







Maria

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
A palma de umas de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quando tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem entretanto virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.
Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e que relembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta? Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha! Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?
Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para transmitir o recado. Estavam todos armados com facas-laser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo dilacerado, todo pisoteado.
Maria queria tanto dizer ao filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um carinho.
(Olhos d'água p. 39-42).

Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte (MG). É mestra em Literatura Brasileira e doutora em
Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. É autora de Ponciá Vicêncio, Becos da Memória, Insubmissas lágrimas de mulheres, Olhos
d'água(contos), Histórias de leves enganos e parecenças, Poemas da recordação e outros movimentos.

06/08/2018

As Catilinárias de Cícero




Até quando, Catilina, abusarás
da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!


As Catilinárias de Cícero são uma série de quatro discursos pronunciados por Marco Túlio Cícero, cônsul do senado romano em 63 a.C.
O primeiro e o último destes discursos foram dirigidos ao senado de Roma; os outros dois foram proferidos diretamente ao povo romano. Todos quatro foram compostos para denunciar explicitamente o senador Lúcio Sérgio Catilina, que planejava com seus seguidores, derrubar o governo republicano para obter riqueza e poder.

Marco Tulio Cícero advogado, orador, escritor e filósofo romano (63 a.C.- 43 a.C.). Foi morto e esquartejado: suas mãos e sua cabeça foram exibidas no Fórum Romano, por ordem do imperador
Marco Antônio, seu inimigo político.

31/07/2018

O homem do mar




O homem do mar era uma construção serena
peixe fresco
corda
alcatrão
e a lembrança de velhos poderes imperiais no Canal

O nosso foi um fogo que queimou sem nos queimar
morreu na praia
estátuas silenciosas de sal
virávamos páginas em branco
a velha pergunta transbordando sempre
de cada livro no alto da biblioteca de alto preço
de cada escultura construída no além-mar

O mau fado me deixou a ver navios
ressaca impronunciável e alheia
falsas falésias
falácias
enseada escura
e canoa furada

Sou

verso ou reverso
par ou ímpar
yin ou yang
prosa ou verso
sim ou não
nunca um talvez

Encontro

poço turvo, escuro
negro espaço em que me recolhi
sem me dar conta jamais
Estranha, absurda caverna
fui, sou, serei sempre
sua mais fiel, eterna
residente

[Sem título]

Transitoriedade da alma
o que isso significa? Não sei,
deve ser que ela está aqui de passagem.
Só pode. Faz sentido.
Tem gente que vem a trabalho,
eu vim a passeio - e não gostei -
o resplandecer da alma é efêmero.

Hilda Machado fez mestrado em Artes(USP), doutorado em História Social pela Universidade Federal Fluminense e professora nessa mesma Universidade; estudou direção de cinema em Cuba, atuando posteriormente como pesquisadora em várias universidades do Brasil e do exterior; recebeu o prêmio de melhor direção nos festivais de cinema de Gramado(RS), Recife e Rio de Janeiro em 1987 pelo curta-metragem Joilson marcou. Os poemas apresentados acima, foram extraídos do livro Nuvens
organizado pela autora e datado de julho de 1997, publicado somente agora, em 2018.
Hilda Machado faleceu em São Paulo, 2007.  

24/07/2018

A baleia azul




Nos idos de 1960/70 a literatura latino-americana passou por uma efervescência fabulosa; autores como G. G. Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, José Maria Arguedas, Juan Carlos Onetti e Juan José Arreola nos presentearam com verdadeiras obras primas!
Uma delas é a  de Arreola, que transcrevo abaixo:


Interview

- Por fim, os leitores gostariam de saber em que está trabalhando
atualmente. Poderia dizer?
- Na noite passada ocorreu-me uma ideia, não sei...não sei...
- Diga assim mesmo.
- Seria alguma coisa como uma baleia. É a esposa de um jovem poeta, digamos, um homem simples e comum...
- Ah, sei! A baleia que engoliu Jonas.
- Sim, sim, mas não somente Jonas. Uma espécie de baleia total,
que carrega dentro de si todos os peixes que se entredevoram, é claro, sempre o maior comendo o menor, e começando pelo infusório microscópico.
- Muito bem, muito bem! Quando era criança eu também imaginei
um animal assim, masque era talvez um canguru em cuja bolsa...
- Bem, na verdade não vejo inconveniente algum em substituir a imagem da baleia pela do canguru. Simpatizo com os cangurus,
com essa grande bolsa em que o mundo pode caber completamente
Apenas, você sabe, tratando-se da esposa de um jovem poeta, a imagem da baleia é muito mais sugestiva. Uma baleia azul, se prefere, para não deixar de lado a elegância.
- E como lhe surgiu a ideia?
- Foi um presente do próprio poeta, marido da baleia.
- Como é isso?
- Num dos seus mais belos poemas ele se concebe a si mesmo como
uma rêmora pequenina aderida ao corpo da grande baleia noturna, a esposa adormecida que o conduz em seu sonho. Essa enorme baleia feminina significa mais ou menos o mundo, do qual
o poeta só pode cantar um fragmento, uma nesga da doce pele que
o alimenta.
- Receio que suas palavras desconcertem os leitores. E o diretor, sabe como é...
- Nesse caso dê uma interpretação tranquilizadora das minhas ideias. Diga simplesmente que a baleia tragou a todos nós, eu, você, os leitores da revista e o diretor. Que vivemos nas suas entranhas, que ela nos digere lentamente, e lentamente vai nos atirando ao nada...
- Muito bem. Não precisa acrescentar coisa alguma: é perfeito, está dentro do estilo da nossa revista. Apenas uma coisa mais: pode ceder-nos uma fotografia sua?
- Não. Prefiro dar uma visão panorâmica da baleia. Todos nós estamos representados nela. Com um pouco de esforço posso ser
distinguido perfeitamente - não recordo bem onde - envolto numa
pequena auréola.


 Juan José Arreola em Confabulário total - Jalisco (México), 1918-2001.

22/07/2018

Nem tudo que brilha é ouro !


Há qualquer coisa no ar
além dos aviões da Panair

Apporely , também conhecido como Barão de Itararé (1895-1971)


Nem tudo que parece, é...!?

13/07/2018

As "anedotas de abstração", de Guimarães Rosa

Guimarães Rosa entre sertanejos, 1952


Em um dos prefácios de Tutameia, último livro que G.Rosa escreveu, logo de cara somos impactados(as)com o título: Aletria e hermenêutica. Segundo ele, "a estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota". Após discorrer um pouco sobre o tema, Rosa nos apresenta uma pequena antologia do anedotário popular dignos de nota, como os exemplos que se seguem:

Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua empurrando sua carrocinha de pão, quando alguém lhe grita: - "Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!..." Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai,
toma a barca, atravessa a Baía quase...e exclama:
- "Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa..."
De natureza análoga, nos apresenta aquela do cidadão que viajava de bonde, sendo o único passageiro, num dia de chuva, e, como estivesse sentado debaixo de uma goteira, perguntou-lhe o condutor por que não trocava de lugar. Ao que ele respondeu: - "Trocar...com quem?"

- "O açúcar é um pozinho branco, que dá muito muito mau gosto ao café, quando não se lho põe..."

"Sobre uma escada um dia eu vi
Um homem que não estava ali;
Hoje não estava à mesma hora.
Tomara que ele vá embora."

"O O é um buraco não esburacado.
O avestruz é uma girafa; só o que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia."

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo(MG) em 1908 faleceu em 1967. 
 

01/07/2018

Canto dos emigrantes




Com seus pássaros
ou com a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou com a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou com a lembrança de seu povo,
todos emigram

de uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o corpo de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

****

Casa vazia

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo,
noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, Jaboatão dos Guararapes(PE) - 1942-2007

24/06/2018

Vent du Nord-Est




L'homme n'a pas encore commencé son travail: il est encore à preparer ses outils. Quand le temps sera venu, à peine gardera-t-il ce nom d'homme...
(Le grand vent qu'il fait, qui crie dans la cheminée, me souffle des insanités.)
- Quelle acquisition, la mémoire!...
Quand l'homme aura reconnu qu'il n'est rien, alors cela pourra commencer.
Alors l'intelligence pourra ou disparaître, ou tout remplacer? Elle commencera
à bâtir.
Les questions, les énigmes nécessaires auront été avalées. Naître, souffrir, mourir ne feront plus de difficultés. Il y aura longtemps que l'énergie, les
matières, les êtres vivants auxiliaires seront à disposition. Le commerce, l'industrie, ne seront plus. Il y aura une seule scienceet ele sera presque
innée.
La terre ne sera qu'une ville. Rien ne sera plus naturellement...c'est-à-dire aveuglément

Paul Valéry, em Poésie perdue (1916) - Paris Gallimard, 2000


Vento do Nordeste

O homem ainda não começou seu trabalho: está ainda preparando suas ferramentas. Quando chegar o momento, conservará apenas o nome de homem...
(O grande vento que faz, que assobia na lareira, me sopra insanidades.)
- Que aquisição, a memória!...
Quando o homem tiver reconhecido que é nada, então poderá começar. Poderá então a inteligência desaparecer ou tudo substituir? Ela começará a construir.
As questões, os enigmas necessários terão desaparecido. Nascer, sofrer, morrer
não serão mais problemas. Haverá um tempo que a energia, as matérias, os seres vivos auxiliares estarão disponíveis. O comércio, a indústria, não existirão. Haverá apenas uma ciência e ela será quase inata.
A terra será apenas uma cidade. Nada mais será feito de forma natural - isto é,
às cegas.                                                                                         

18/06/2018

Poema dum funcionário cansado





A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita a cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
 com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só.
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado num dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
flor rapariga amigo menino irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só.

Antônio Ramos Rosa, Faro(Portugal) 1924-2013