DE CHARLES BUKOWSKI (1920-1994)

Arder na água, afogar-se no fogo. O mais importante é saber atravessar o fogo.

17/12/2011

Entre o que vejo e o que digo...

Michel Eastman




A Roman Jakobson
1

Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

2

Idéia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem.



Octavio Paz, México - 1922-1998 - Tradução:Anderson Braga Horta

3 comentários:

  1. SIEMPRE MUY INTERESANTE LO QUE USTED NOS COMPARTE.
    UN ABRAZO

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  2. Maravilha! A palavra poética revista com um lirismo didático num metapoema belíssimo.

    Sempre bom vir a este canto...

    abraços.

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  3. Que bom!, Celso.
    É sempre bom receber a tua visita!

    abraços

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